Porque era todo aquele atropelo, nao havia jeito de ser diferente. Os dias da semana, compostos das horas dos dias, compostos dos minutos das horas, constituidos dos segundos dos minutos, eram um atropelo irrenunciavel. A vida era um atropelo. Se se colocasse uma amostra significativa de ar na balanca da farmacia, ver-se-ia, com nitidez, que os quilos que o compunham eram muitos e irrenunciaveis tambem, mesmo sem as particulas de impureza dos monoxidos de carbono e dos pensamentos negativos. A atmosfera vinha se tornando cada vez mais pesada e nao era so com ela, nem so ali, nem temporariamente. Era uma tendencia.
E nao tinha jeito de fazer diferente. Todo aquele papo de mudar, todo aquele assunto da escolha. Todo aquele jeito de apontar o erros. Todo aquele argumento de que a razao e a emocao e mais o que quer que seja. Todo aquele olhar severo e aquele nariz com cravos e todo aquele jeito de misturar palavras bonitas com tons salvadores. Todas aquelas frases de efeito que indicam a solucao e ficam belissimas coladas nos vidros de certos carros. Todo o pao, todo o circo, toda arena, todo futebol. Todos os dias de feriado e carnaval. Todo confessionario, todo livro do Caio Fernando Abreu. Tudo aquilo era tao tudo que nada podia. Nao danificava a natureza de atropelo que a vida trazia.
SO O DINHEIRO SALVA foi o que aquele mulher de quarenta e nove anos resolveu escrever na camiseta preta, em letras amarelas, e entrar na primeira igreja evangelica que encontrou no caminho. Era isso o que vinha conseguindo obter de mudanca em suas duas sessoes semanais de psicanalise lacaniana.
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