sábado, 27 de agosto de 2011

Joias

Bianca queria escrever um comentário no blog da Júlia, mas escrever comentário hoje em dia era matéria de difícil execução. Era preciso clicar três, quatro vezes no enviar, para que, só então, aparecesse uma palavra nonsense para ser copiada para, só depois, o comentário ser postado lá do lado de lá.

Exercídio de persistência, exercício de paciência. Tentar duas, três, quatro vezes algo que não fará total diferença na sua vida. E que talvez não faça nenhuma, tampouco, na vida do destinatário do comentário. Apenas a satisfação de uma necessidade de se expressar, de fazer contato.

Era uma mini-prova de vida aquilo. Quantas e quantas vezes teria de tentar sem sucesso? A diferença era que, na vida, as tentativas duravam mais do que alguns segundos. Às vezes meses, outras vezes anos, ou até décadas. Sabe-se lá que tipo de opção e tentativa se tem de escolher no menu das bifurcações da vida e que intervalo suas conseqüências irão durar. Tudo é possível em termos de vida. Ou quase tudo.

Enfim, Bianca reescreveu lá no blog da Júlia, até ser publicado o comentário: "Te adoro por mais esse belo texto". Era possível sim que uma amizade se inflasse ainda mais por decorrência de um belo texto criado por um amigo. Bianca, em seu comentário sucinto, escolheu palavras de preferência sem tremas e sem acentos usurpados na nova ortografia, pois era muito difícil escrever as palavras amputando-as. Ainda sentia que joia, sem acento, tinha um membro fantasma incomodando, e não podia dizer a Júlia que seu texto era uma joia tão rara quanto a amizade que por ela nutria. E, feito o comentário, resolveu desligar o computador para sentir no rosto mais uma tarde de inverno em agosto.

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