
Um olhava para o outro. João suava. Mercedes sentia coceiras. Calor infernal. O mês era mais do que janeiro. Não havia definição para um calor daqueles. Não havia definição para João e Mercedes, mudos, um em frente ao outro. Haviam desistido de falar, mas não de se encontrar. Estavam ali, mudos sim. Palavras? Não existiriam as que pudessem dar conta do que sentiam e do que deixavam de sentir. Eram oito anos de brigas e reconciliações, brigas e retratações, eram oito anos redondos de muita coisa dita, pisada e repisada. Mas agora havia um mês de separação e estavam despencando. Mercedes despencava. João não sabia o que se passava com ele. Sentia-se surdo, sentia-se zonzo, e agora, um em frente ao ouro, na praça, enquanto o verão os assolava por todos os lados, enquanto o calor os constrangia impiedoso, nada tinham a dizer mesmo. Havia uma espécie de tonteira no ar cercando-os lentamente, havia qualquer coisa de vertigem naquele cenário, qualquer coisa de penumbra tóxica. E estavam ali, ainda assim. Eretos. Face a face. E era incrível o silêncio ao qual haviam aportado. Mas sim: aquilo era o silêncio inconfundível. Se alguém deseja saber o que é o silêncio inconfundível, encontre-os nesse estado sem ruídos, sem estampidos, sem estilhaços, mas também sem melodia. Nesse encontro que transpira e que derrete calçadas, que derrete o humor. Encontre-os ali e poderá fazer uma tese com total coerência interna sobre o silêncio inconfundível. Além disso, via-se que aquilo também era estar à vontade no silêncio inconfundível. Não haviam almejado aquele estado, mas, uma vez que daquele modo se encontravam, conseguiram acomodar-se sem grandes câimbras. E era por causa da conclusão de que, entre eles, só o silêncio – e de preferência inconfundível –, por causa dessa precisa conclusão, é que não havia mais porquê. Isso que assusta a todos e que tem as dimensões completas do horror, a eles era quase banal, embora indesejável também. De fato, estavam ali, corajosamente envolvidos por aquela ausência do que dizer. Não por falta de assunto. Não por um desconhecer a língua do outro. Não era nada daquilo. Já não se sabia mais o que era. Já não desejavam mais nada. Nem falar, nem calar, nem ir embora, nem mover-se. E, a partir dali, tudo se confundia.
1 comentários:
Lindo conto, Vivian. O silêncio inconfundível que diz tanto e de forma tão profunda! Esse silêncio que é tão rico em dizeres e provoca uma percepção muito íntima pra se descobrir o que permeia o encontro. As dúvidas, as sensações, tudo que é próprio do encontro. "Nesse encontro que transpira e derrete calçadas, que derrete o humor". Lindo! Adorei!
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