Maria chegou ao trabalho. Pontualmente. Não havia atrasos em seus intervalos de pensamento. Menos ainda nas ações diárias. Todas aquelas que se interpunham entre o acordar (era o despertador que acionava o dia desperto, aos brados, aos brados) e a chave que trancava a casa trancada atrás de si truncada. As ações diárias nesse período tão curto da manhã eram: água para esquentar, pó de café, água virando sabor, cor e calor, xícara de café esquentando as mãos, um olhar para o tempo (casaco? calça? manga? alça?), duas torradas com manteiga com sal e uma banana, depois a roupa, já preparada de véspera entre duas opções possíveis, o banho morno, quente, quente, morno, frio, o pente no cabelo, protetor solar, batom, roupa, isso, aquilo, última olhada, dinheiro de passagem, janela fechada, minúcias opacas matinais. Aqueles sessenta minutos que inauguravam seu dia não eram lá muito diferentes do resto dele - minúcias opacas diuturnas. Maria tinha uma trabalho rotineiro: carregar prontuários no posto de saúde em que trabalhava. Levar e trazer aquelas pastas mal aprumadas. Não havia invenções maiores, nem conversas mais amplas. Não havia viradas, movimentos bruscos, ladeiras no agir. Sua função era, sem equívocos: estar atenta ao número do prontuário e ao nome, e também atenta ao fisioterapeuta, nutricionista, assistente social, psicólogo, otorrino, pediatra, gastro, neuro, terapeuta ocupacional e qualquer outro profissional daquelas bandas que o pedisse. Sim, sim, direcionava cada prontuário a cada escaninho ou a cada sala. Era quase um carteiro do posto. Não levava mensagens, nem correspondências, nem contas a pagar. Não levava cartas nostálgicas, não transmitia saudades, notícias. Pousava os prontuários nas mesas adequadas, em silêncio, mudos os olhos e a boca e o sorriso. 44432. Prontuário de Juan não sei de quê. 56321. Prontuário de Cordélia não sei que lá. Cordélia não podia ser nome que fizesse alguém feliz mesmo: ela tinha consulta com a psicóloga. Cordélia lembrava cornélia que lembra... Não!, não divagar, não divagar, atenção ao número, ao nome, ao doutor que espera (ou não) o prontuário exato! Havia também o prontuário de Felicíssima Maria etc e tal. 44582. A Felicíssima seria tão feliz quanto a idéia dos pais de nomeá-la daquele jeito sem saída!? Seria a vida de Felicíssima tão superlativa quanto o nome que carregava? Ou seria apática, amuada, esmaecida, para contrapor um título de nascença tão ruidoso? Maria podia ampliar a mente e o trabalho devaneando sobre os nomes. Os nomes. Nomes e números eram tudo que lhe restava. E mais: poeira e tosse. Corredores, gente querendo cartão, gente querendo senha, gente atrás de consulta, gente em busca de exame, gente catando doença, gente desesperada por diagnóstico. Gente querendo alguma cura, mas que cura, meu senhor, que cura?! Sua vida é uma merda mesmo, resigne-se de uma vez!O que Maria estava fazendo ali? Maria lembrou-se de interromper as irregularidades do pensamento. Tratou de apaziguar os altos e baixos do sentimento. Dominou as estripulias indesejáveis da razão e engoliu um resto de saliva perambulando pela boca branca. Por enquanto, restava-lhe buscar mais 30 prontuários e só. Depois, mesmo caminho de volta, mesmas ações noturnas, mesmas vírgulas e hesitação alguma. Era melhor seguir igual.
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