sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Beto e Analice


Analice não gostava de carnaval, assim como não gostava de aniversários ou festas ou mesmo shows de rock. Mas resolveu gostar daquele carnaval, assim como resolveu que passaria a gostar de aniversários e algumas festas. Analice resolveu que iria apreciar aquilo de que antes pensava mal. Queria, a partir de agora, gostar das coisas.

Mas não havia jeito de apreciar multidões, nem mesmo as mais carismáticas, como aquelas dos blocos de carnaval. Nem mesmo as multidões compostas de pessoas bonitas, como as dos blocos de universitários, ou aquelas com características peculiares, como as filas de clóvis que invadiam os blocos da Av. Rio Branco batendo - pá! - suas bolas no chão e assustando os tímpanos desavisados. Não havia jeito - aí menos ainda - de Analice apreciar aquilo tudo junto em dias quentes de fevereiro.

O que Analice talvez pudesse fazer - e foi tentando, e tentando mais, e experimentando, até quase adorar - era ver aquilo tudo. Observar, de dentro ou de fora, aceitando o sol, o sal, o suor, aceitando o que viesse junto, porque sabia que a perspectiva de tudo mudava se o observador estivesse de fora ou de dentro. E de dentro Analice ganhava - ela via que ganhava - outros ângulos de observação e, com eles, outras conclusões. Analice era escritora e precisava angariar ângulos novos, conclusões inéditas.

Experimentou, então, o Carmelitas, na sexta-feira, e depois o Bola Preta, no sábado. Deu uma volta tranqüila pelo Boitatá, no domingo, e segunda-feira foi ver o Bloco de Segunda. Na terça, esteve de manhã pelo Bagunça Meu Coreto, dormiu à tarde com o auxílio de dois ventiladores ligados no 3, e à noite deu uma passada na Av. Rio Branco, onde assistiu, de dentro e de fora, os Embaixadores da Folia, o Bafo da Onça e o Cacique de Ramos.

Voltou para a casa feliz, já na quarta-feira de cinzas, suada, afônica e com o telefone de Beto. Beto, por sua vez, tal como Analice, tampouco era fã da folia, mas se apercebera em casa, sozinho, no meio da tarde abafada, e resolveu que o melhor a fazer, naquela arrastada terça-feira gorda, era tentar enveredar pelos restos de carnaval, assim disfarçadamente, pelas beiradas, sem alarde nem para si mesmo, e acabou sua noite ao lado de Analice, cantando as marchinhas que aprendera na infância e que nunca mais voltara a cantar. Quando caiu na cama, mais tarde, após uma ducha velocíssima, conferiu o telefone de Analice, num papel roto na mesinha ao lado e, na seqüência, mirou o céu, satisfeito ao perceber que a quarta-feira já se colocava em marcha e não parecia ser nada cinzenta.

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