quinta-feira, 23 de outubro de 2014

González (Crítica)



González, do diretor Christian Diaz Pardo, exibido no Foco México, teria tudo para ser um bom filme. E começa bem, mostrando o protagonista, González perdido pela cidade grande entre telefonemas de cobranças de dívidas, ligações da mãe e entrevistas para empregos. Ele tem o aluguel atrasado, assim como as prestações de uma televisão, que, por sinal, está sempre ligada em programas com apresentadoras de vozes estridentes. Os sons por onde González passa são inicialmente um personagem à parte, sejam aqueles oriundos da TV, constantemente ligada, ou de vendedores de bugigangas no transporte coletivo.

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Mil Vezes Boa Noite (crítica)



Mil Vezes Boa Noite, de Erik Poppe, é um filme denso. Retrata o drama de Rebecca (Juliette Binoche), uma respeitada fotógrafa que cobre situações delicadas em zonas de conflito de guerra. O filme se inicia com a sua participação em uma preparação para um ataque terrorista. Ela acompanha todo o processo e o ritual em que uma mulher é vestida com bombas que serão detonadas em um centro movimentado. Rebecca, munida de sua máquina fotográfica, testemunha as etapas delicadas que levarão à morte de dezenas de inocentes, e seu trabalho é documentar, através das fotografias, essa e outras situações limítrofes. Seu trabalho é de alto risco e após viver um acidente e a quase-morte, volta para casa, onde encontra o marido e as duas filhas, que, por sua vez, convivem com a constante ameaça de morte de Rebecca, uma vez que seu trabalho implica risco permanente.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Festival do Rio: Uma Boa Menina (Appropriate Behavior). Crítica.



Uma Boa Menina (Appropriate Behavior), de Desiree Akhavan, uma produção Estados Unidos/Reino Unido, relata uma fase difícil na vida da jovem Shirin, protagonizada pela própria Desiree Akhavan. Ela está em um momento de repensar sua vida profissional, é oriunda de uma família iraniana moradora do Brooklyn, tem um irmão comportado em um relacionamento que vai dar certo e é bissexual. O filme começa com o rompimento de Shirin com a namorada. Ela começa, então, uma tentativa de reconstruir sua vida amorosa e tem dificuldades de falar claramente sobre sua sexualidade com a família, talvez por perceber uma tácita rejeição à temática por parte de seus pais e irmão. Além disso, quer esquecer a ex-namorada e tenta a qualquer custo um novo amor. Shirin perambula por festas, encontros, eventos, exibindo um comportamento despojado e recalcitrante a qualquer timidez que a impeça de seduzir quem a interessa, seja por qual motivo for.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Saudades



Ele foi para outra cidade, produziu família e alunos, mas ainda falava com pássaros.

Ele rodopiava em filosofias, matemáticas, notas musicais, e era o mesmo, era o mesmo, ainda que fosse um punhado de diversos outros.

Ela foi para outra cidade, produziu matriarcado e carreira, criou um chão por onde caminhar (às vezes eu caminhava junto).

Ele voltou a ser louco, depois de ir embora, e já não se ouvia sua bateria.

Ela foi para outro país, produziu um inglês fluente, dava notícias aqui e ali.

Ela sumiu por 20 anos, trazia agora histórias tristes: tromboses, sustos, remédios.

Ele viajou sem volta, porque voltar era definitivo demais para ele.

Ele estava aqui, mas era outro, era outro, e não se via mais o mesmo.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Festival do Rio: Ela perdeu o controle (She's lost control) - crítica


Ela perdeu o controle (She’s lost control) não é um filme sobre a banda Joy Division, antes que alguém pergunte. Inclusive, na exibição de sábado à noite no Festival do Rio, ao ser perguntada sobre o que a motivou a fazer o filme, a diretora Anja Marquardt não citou a banda inglesa, nem a música homônima. O filme trata de Ronah, espécie de “profissional da intimidade”, cuja função é ajudar seus clientes (pacientes?) na aprendizagem de habilidades de se relacionar amorosamente, chegando às vias de fato (sexuais) com seus clientes, encaminhados por um supervisor que supostamente conhece a fundo as dificuldades psicológicas, emocionais e comportamentais de cada um deles. Ronah mora de aluguel em um apartamento com problemas de encanamento e infiltração, está fazendo seu mestrado em Behaviorismo(Psicologia Comportamental) e não tem amigos. Ela, cuja ocupação profissional é ajudar os clientes a desenvolver habilidades de relacionamento íntimo, não parece por sua vez ter nenhum relacionamento desse tipo e, quando quer uma companhia para o jantar, é à vizinha que recorre.

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sábado, 20 de setembro de 2014

Antes de o mundo acabar, Vivian Pizzinga lê O Explicador, de Leonardo Villa-Forte (resenha)



Antes de o mundo acabar, é preciso pegar um livro de contos recente, esse O Explicador, do Leonardo Villa-Forte, lançado pela Editora Oito e Meio, e ler de um fôlego só. Antes de o mundo acabar é preciso também agradecer a existência de uma editora que dá oportunidade a novos autores de lançarem seus textos e algumas preciosidades literárias, preciosidades essas que, desconfio, não ganhariam o terreno do mundo tão logo. Antes de o mundo acabar, é preciso ler o conto que fecha O Explicador, Notícias de antes do fim, que nos pega pela mão numa jornada de cenas e acontecimentos que se dão antes do fim do mundo e que, consequentemente, nos impelem a um jogo mental bem típico de obsessivos – um labirinto tortuoso e prazeroso – de hipóteses a respeito do fim. Mas, antes de o mundo acabar, é preciso ler também os contos A mulher que não soube fantasiar, O batismo do objeto ou Comunicação, para pinçar alguns num jogo de menções honrosas difíceis de destacar.

Bem, eu queria ter lido antes o primeiro livro do Leonardo Villa-Forte, mas só pude agora. E aí vem o espanto quando me dou conta de que este é o primeiro livro do autor. A maturidade da linguagem, a maneira como aborda os temas escolhidos para seus contos e os projetos literários que vem criando talvez tenham incutido em mim a certeza de que O Explicador era, no mínimo, o segundo livro de Leonardo Villa-Forte (ah, essas certezas psicóticas que abalam a convicção de normalidade de uma neurótica como eu... De onde tirei a certeza de que esse livro seria o segundo do autor, nem mesmo minha analista seria capaz de explicar). Mas, não, é o primeiro. Antes disso, vieram tantas coisas que vou destacar apenas duas: a premiação de Villa-Forte no Prêmio Off-FLIP de contos e o belíssimo Paginário, intervenção urbana que espalha pela cidade (e além dela, há Paginário em Petrópolis também!) trechos literários escolhidos por autores diversos. Aliás, antes de o mundo acabar, é preciso conferir um desses Paginários.

Como diz Paulo Scott na orelha do livro, Villa-Forte trata das “funções e disfunções da existência humana, das suas percepções variadas, da sua inclusão inevitável na mecânica dos relacionamentos e rotinas”, e é exatamente isso. É como se Villa-Forte escolhesse situações e impasses para tratá-los de modo cru, sem abrir mão, contudo e ainda bem, de conduzir o leitor por uma história interessante, no que tem de metafórica e de realista a um só tempo. 

Afinal, quem nunca se viu perplexo diante de um informe ou de uma dizer publicitário, ficou pensando sobre aquilo e se imaginou tratando longamente do assunto com quem de direito? Esse é o caso do cliente do restaurante vegetariano, amofinado com a placa que diz que “a verdade está no verde” e que não se furta a esmiuçar a questão com o gerente, no conto Peça Publicitária. Por outro lado, no conto Necessita-se de Profissional do Medo, título por si só instigante, as verdades são colocadas na mesa e ninguém finge intenções outras: o comunicado e o pedido são claros, contrata-se o funcionário que tem tudo para dar certo na empresa, e seu requisito essencial (o título já nos diz qual seria) é o que garantirá a sua permanência no emprego. Já O Explicador, conto que dá nome ao livro, trata desse problema crucial do homem que se faz ausente nas ocasiões em que sua presença é esperada. “- Querem ou não querem que eu explique os motivos dele não vir quando é chamado?”, é o que tenta o explicador, mas a tarefa é árdua, o assunto é espinhoso, os ânimos estão aflorados e a comunicação ganha aí seus maiores ruídos. Assim é a narrativa de Leonardo Villa-Forte: acentos irônicos e personagens ao mesmo tempo inocentes e perspicazes, insistentes e cismados, que se deparam constantemente com os absurdos das rotinas, dos hábitos, das instituições.

Quando dou por mim, o livro vai chegando ao seu final. Concluo, então, que antes de o mundo acabar é preciso terminar o livro e, se der tempo, reler alguns contos. Em voz alta, de preferência.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

Crítica: "Paraíso"

Ok, talvez Paraíso, segundo longa-metragem de ficção dirigido pela mexicana Mariana Chenillo, não esteja entre os melhores filmes do mês. Provavelmente, não estará entre os melhores do ano. Mas não é por isso ou por ser um filme nota 6,8 ou 7,0 que não mereça ser visto. Há muitas razões que fazem com que um filme mereça ser visto, e Paraíso tem algumas.
O filme trata de um casal de gordinhos que se chamam, mutuamente, de Gordo e Gorda. Trata-se do apelido carinhoso que cada um endereça ao outro. O Gordo é Alfredo (Andrés Almeida), a Gorda é Carmen (Daniela Rincón). Eles se dão bem e são felizes. Dançam em festas, transam e se beijam com frequência. E por que não? (A pergunta não é sem propósito na medida em que, em algum momento do filme, outros personagens se questionarão, de modo debochado, sobre a vida sexual do casal.) Tudo vai bem, até que o marido, o Gordo, é transferido no trabalho e deve ir morar na Cidade do México. Carmen, a Gorda, o acompanha e deverá construir uma nova vida.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon (resenha)



Uma viagem idealizada há anos, uma viagem cujo maior prazer (inicialmente) talvez fosse não a sua concretização, mas a sua maquinação em conjunto. Uma viagem que talvez nunca fosse se realizar e que, enfim, acontece. Falo da viagem de Cora e Julia, protagonistas de Todos nós adorávamos caubóis, romance de 2013 da escritora gaúcha Carol Bensimon, pela Companhia das Letras, e que será publicado na Espanha pela Editora Continta Me Tienes. Carol Bensimon estreou pela Não-Editora, em 2008, com o livro Pó de Parede e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009, e do Prêmio Jabuti, em 2010, por Sinuca em baixo d’água. Em 2012, foi selecionada pela Revista Granta entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros.

Todos nós adorávamos caubóis trata de uma viagem e de um reencontro. Essa é, em linhas gerais, a premissa do ótimo romance da autora, que eu já estava há tempos querendo ler.

Mas havia aquelas filas caóticas de livros me esperando. Havia as filas físicas (os livros empilhados na estante) somando-se às filas mentais (aqueles que você mais ou menos ordenou na sua cabeça, os títulos que precisa ler embora ainda não os tenha em mãos), sem contar os títulos penetras: livros-canetas-bic, que surgem na sua mão sem que você se dê conta da rapidez de sua aparição, e que mostram que o acaso faz suas maiores benesses no seu mundinho particular de leitura (tal qual o acaso que se insere em qualquer viagem, o inesperado inerente aos reencontros). Bem, tudo isso adiava o início da minha leitura particular de Todos nós adorávamos caubóis. Enfim, consegui iniciar a leitura e aviso logo que, se você for começar também, não o faça em data próxima a um concurso público para o qual deveria estar se preparando, ou com nenhum outro compromisso inadiável, para não se embananar por dificuldade de fechar o livro antes de chegar ao final. 

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