segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ainda estou pensando



ainda estou pensando em Boyhood, o filme, ainda estou pensando na continuidade terrível da vida, ainda estou pensando que mesmo quando tapamos os ouvidos não podemos deixar de ouvir, ainda estou pensando na descontinuidade incrível da vida, ainda estou pensando na personagem da Patricia Arquette, ainda estou pensando que o dia 25 de dezembro é um dia sui generis, ainda estou pensando que fui deixando de fazer coisas que eu gostava e que não tenho mais tempo pra fazer as coisas que eu gostava, ainda estou pensando que, se eu pudesse, faria outras coisas daqui pra frente, ainda estou pensando que não poderei fazer outras coisas daqui pra frente, ainda estou pensando naquele menino, o Mason, de Boyhood, uma graça de menino, um artista e não um atleta, ainda estou pensando que a vida é terrivelmente contínua, ainda estou pensando que se eu pudesse ficaria dias e dias e dias em casa sem sair, apenas lendo, ainda estou pensando que não gosto mais de estudar, ainda estou pensando que estudar é pra quem tem tempo, ainda estou pensando que o tempo é algo longo e curto ao mesmo tempo, ainda estou pensando no que todo mundo pensa, não há originalidade alguma em mim, nunca houve, ainda estou pensando que escrevo porque senão já era, ainda estou pensando que não quero escrever certas coisas, ainda estou pensando que estou tendo insônia todos os dias e que não posso ter, ainda estou pensando que esse foi um ano em que a dor física se instalou mas já tá saindo, ainda estou pensando que o fígado é um órgão complicado à beça, ainda estou pensando em Boyhood e nas coincidências da vida, ainda estou pensando que não queria saber de coisas mas elas chegaram aos meus ouvidos, ainda estou pensando que meus ouvidos doem menos do que deveriam doer, ainda estou pensando que tenho um romance, ou melhor, uma narrativa longa que é preciso terminar de escrever, ou melhor, que é preciso terminar de reescrever, que preciso terminar de retocar, ainda estou pensando que odeio tudo o que escrevo, ainda estou pensando que há certos textos que são cópias de outros, ainda estou pensando que penso muito nas mesmas coisas, ainda estou pensando que uma década é pouco para uns, ainda estou pensando que uma década é pouco para mim, ainda estou pensando que sou uma obsessiva incorrigível, ainda estou pensando que faltam poucos dias para o ano acabar, que passou devagar e rápido ao mesmo tempo, ainda estou pensando que o fígado é um órgão à beça, mas nada promissor, ainda estou pensando que posso ficar escrevendo infinitamente no que estou pensando, porque estou pensando muito, mas também tomando guaravita, que me deu uma insônia terrível ontem, ainda estou pensando que faltam duas décadas, mas duas décadas é infinitamente longo para mim, ainda estou pensando que se eu pudesse eu viajaria mesmo para a Rússia, ainda estou pensando que, se eu pudesse, tocava bateria, ainda estou pensando que ninguém vai ler este post até o fim, ainda estou pensando que gertrude stein se repetia menos do que eu.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

pretérito perfeito

e então acordou, se arrumou e saiu, trabalhou, conversou e sorriu, almoçou, retornou e ouviu, e falou, e falou, se calou, e pensou e voltou e dormiu, despertou e lanchou e saiu, e bebeu e brindou e sorriu, conversou, se aprumou e voltou, e jantou, se despiu, se deitou.
suspirou, se esticou, vomitou.
e chorou, e chorou, e chorou

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Sobre BOYHOOD e a difícil continuidade de cada dia



Somos contínuos. Não é incrível? Somos contínuos. Não é terrível?

Pelo lado do otimismo e da alegria de viver, sermos contínuos é algo incrível. Ou melhor, é sempre incrível que os outros que nos acompanham, pais, mães, filhos, namorados, amigos, sejam contínuos. Que bom que a maioria daqueles que me cercam são contínuos e me acompanham em minha continuidade. Torço ardentemente para que sejam muito mais contínuos do que eu. Para que me ultrapassem em sua continuidade. Mas, vendo Boyhood, talvez pela lente do meu eventual pessimismo, cheguei à conclusão de que ninguém é feliz, salvo honrosas exceções. E que podemos até pensar: somos contínuos, não é terrível?

Esse é um texto que não combina com a véspera de natal e me desculpem aqueles que tiveram um ano feliz no facebook e colocam aí essa foto circular com a legenda 'o ano de fulana - obrigada por fazer parte dele'. Não é um texto propício, não é um texto alvissareiro, mas é preciso falar sobre continuidade e interrupção vendo Boyhood. Trata-se de um filme adequadíssimo (existe superlativo de adequado? ou adequado é tão adequado que é fixo nele mesmo?) a um fim de ano, momento em que muitos pensam e repensam suas vidas. Momento em que a continuidade é colocada em questão, tratada como objeto manipulável. Enfim, vendo Boyhood e vendo aquela mulher interpretada pela Patricia Arquette, não há como não pensar que ninguém está satisfeito, salvo quando estamos no facebook colocando selfies alegrinhos.



Aquela mulher venceu na vida enquanto mulher e mãe. Aquela mulher soube criar os filhos, passando por perrengues sem conta, educou-os lindamente como o pai não foi capaz de fazer, porque ao pai cabiam os finais de semana, as férias, as eventualidades prazerosas e prazenteiras, ao pai cabiam as celebrações, mas à mãe, surpreenda-se agora ou nunca mais: cabia o todo dia, cabia a continuidade, cabia o café-almoço-e-janta, cabiam as contas, cabia tentar ser feliz no amor dando conta de duas crianças, cabia renunciar ao prazer egoico, mais uma vez, em nome de duas crianças, cabia retomar a faculdade e tentar não pagar dois aluguéis ao mesmo tempo, cabia marcar na parede a altura do Mason e sua irmã enquanto cresciam, cabia a solução para a dislexia do menino, e ela conseguiu, e ela os fez crescer vivos, contínuos, sãos, salvos, ela conseguiu retomar a faculdade e se formar, ela conseguiu se tornar professora universitária, e como ela mesma diz à certa altura do filme, ela conseguiu passar metade da vida comprando uma casa para passar a próxima metade se desfazendo dela. Ela conseguiu milagres diários impensáveis. E, enfim, quando essa grande mulher envia o caçula à faculdade, há aquela crise de choro e desespero porque o tempo urge, porque somos contínuos apenas até a nossa descontinuidade, até o colapso de algo que se chama vida, e a vida é essa continuidade exasperante que uns amam, muitos outros odeiam. Maldita continuidade que queremos e que odiamos. Essa mulher - a mãe do adorável Mason - se dá conta de que o próximo evento de sua vida só pode mesmo ser a morte. E ela achava que haveria um pouco mais. Uma fatia do bolo onde houvesse algum recheio. No entanto, ela pergunta, e com razão, e com desespero: o que sobrou para ela?

Essa mulher que se desespera no momento em que o último filho sai de casa é uma mulher que eu admiro, essa mulher nós todos admiramos, nós todos invejamos, porque ela não atirou no colo de ninguém os efeitos de suas causas, as consequências de suas escolhas. Ela deixou de ir ao cinema inúmeras vezes e talvez não seja tão culta, embora saiba muitíssimo bem sobre behaviorismo. Ela educou dois filhos e não morreu ao mesmo tempo.

Mas não está feliz. A personagem de Patricia Arquete está tão infeliz quanto eu às vezes estou, e eu não seria capaz de ser como ela. Mas ela? Ah, ela foi lindamente capaz de ser como ela. Mas não, não está feliz. Porque não há ninguém feliz, não há ninguém satisfeito, salvo honrosas exceções, já disse ali em cima, e essas exceções são aquelas que se sustentam com a cerveja nossa de cada dia, o escitalopram nosso de cada noite ou a religião nossa de cada esquina.

Mas é um belo filme. Mesmo que em algum ponto o Mason adolescente pergunte: what's the point? E o pai, o Ethan Hawke, diz: sei lá. O objetivo é talvez o improviso. Isso ele diz.

Donde deduzo que: a vida é jazz.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

vazio

te coloquei dentro do meu vazio.
mas o meu vazio ficou largo em você.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

mundo



Há um excesso de mundo ao meu redor. 

vida

em que pé tá a vida?
já nem sei.
que ela escorre - bandida, capeta, espinho - à minha revelia.
e nem crua. e nem nua. ingênua

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

objeto interno



o que ele tinha? um objeto interno de quatro patas, talvez seis. um objeto interno feroz, desses que saliva muito e não cochila. um enredo particular, desagradável. uma partitura de música ausente.
ele tinha uma dor que não se esvaía, e volúvel. uma espécie de panóptico íntimo que o perseguia desde dentro.
ele tinha aquela angústia estriada, rugosa, áspera. umas bolhas prontas pra estourar, todas ao pé do ouvido, tímpano frágil, esguio. um barulho dentro das bolhas, a certeza do colapso.
o que ele tinha era uma unha cortante, enorme (centímetros), apontada pra garganta. uma incapacidade de dormir. dificuldade em acordar.
o que ele tinha era uma tragédia polissêmica assentada no chão do quarto. um horror sem nome encostado nas paredes. um medo terrível, a cada dia renovado.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

As horas mortas (Crítica)



As Horas Mortas (Las Horas Muertas), de Aaron Fernandez, uma produção México/França/Espanha de 2013, é um filme que eu adjetivaria como “mineiro”, no sentido de que, segundo o estereótipo arraigado, é quietinho, não faz alarde, vai mostrando a que veio devagar e, quando menos se espera, estamos completamente seduzidos pela história e pelos personagens.

O cenário é um motel na costa de Veracruz, no México, um lugar de pouco movimento e muita tranquilidade. Sebastián (Kristyan Ferrer), de 17 anos, é chamado a gerenciar temporariamente o motel de seu tio. Ele aceita ajudá-lo e passa a conviver com a rotatividade de casais nas tardes de ventania da costa, um movimento quase inexistente, enquanto tenta passar as horas (aparentemente mortas) como se não houvesse opções de entretenimento (não se vê um computador, o telefone celular não tem sinal praticamente em lugar nenhum, a televisão é inexistente). Todos os problemas do motel é ele que deve resolver, enquanto não se encontra uma camareira que possa fazer o serviço. Tudo parece meio morto, até ela conhecer Miranda (Adriana Paz), uma cliente do motel que vai se encontrar regularmente com seu amante, Mario, que sempre se atrasa. Miranda mistura certa frustração com o amante e a viva curiosidade pelos casais frequentadores do motel e pelo trabalho do jovem Sebastián, com quem vai travando uma intimidade cada vez maior.

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González (Crítica)



González, do diretor Christian Diaz Pardo, exibido no Foco México, teria tudo para ser um bom filme. E começa bem, mostrando o protagonista, González perdido pela cidade grande entre telefonemas de cobranças de dívidas, ligações da mãe e entrevistas para empregos. Ele tem o aluguel atrasado, assim como as prestações de uma televisão, que, por sinal, está sempre ligada em programas com apresentadoras de vozes estridentes. Os sons por onde González passa são inicialmente um personagem à parte, sejam aqueles oriundos da TV, constantemente ligada, ou de vendedores de bugigangas no transporte coletivo.

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Mil Vezes Boa Noite (crítica)



Mil Vezes Boa Noite, de Erik Poppe, é um filme denso. Retrata o drama de Rebecca (Juliette Binoche), uma respeitada fotógrafa que cobre situações delicadas em zonas de conflito de guerra. O filme se inicia com a sua participação em uma preparação para um ataque terrorista. Ela acompanha todo o processo e o ritual em que uma mulher é vestida com bombas que serão detonadas em um centro movimentado. Rebecca, munida de sua máquina fotográfica, testemunha as etapas delicadas que levarão à morte de dezenas de inocentes, e seu trabalho é documentar, através das fotografias, essa e outras situações limítrofes. Seu trabalho é de alto risco e após viver um acidente e a quase-morte, volta para casa, onde encontra o marido e as duas filhas, que, por sua vez, convivem com a constante ameaça de morte de Rebecca, uma vez que seu trabalho implica risco permanente.

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Festival do Rio: Uma Boa Menina (Appropriate Behavior). Crítica.



Uma Boa Menina (Appropriate Behavior), de Desiree Akhavan, uma produção Estados Unidos/Reino Unido, relata uma fase difícil na vida da jovem Shirin, protagonizada pela própria Desiree Akhavan. Ela está em um momento de repensar sua vida profissional, é oriunda de uma família iraniana moradora do Brooklyn, tem um irmão comportado em um relacionamento que vai dar certo e é bissexual. O filme começa com o rompimento de Shirin com a namorada. Ela começa, então, uma tentativa de reconstruir sua vida amorosa e tem dificuldades de falar claramente sobre sua sexualidade com a família, talvez por perceber uma tácita rejeição à temática por parte de seus pais e irmão. Além disso, quer esquecer a ex-namorada e tenta a qualquer custo um novo amor. Shirin perambula por festas, encontros, eventos, exibindo um comportamento despojado e recalcitrante a qualquer timidez que a impeça de seduzir quem a interessa, seja por qual motivo for.

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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Saudades



Ele foi para outra cidade, produziu família e alunos, mas ainda falava com pássaros.

Ele rodopiava em filosofias, matemáticas, notas musicais, e era o mesmo, era o mesmo, ainda que fosse um punhado de diversos outros.

Ela foi para outra cidade, produziu matriarcado e carreira, criou um chão por onde caminhar (às vezes eu caminhava junto).

Ele voltou a ser louco, depois de ir embora, e já não se ouvia sua bateria.

Ela foi para outro país, produziu um inglês fluente, dava notícias aqui e ali.

Ela sumiu por 20 anos, trazia agora histórias tristes: tromboses, sustos, remédios.

Ele viajou sem volta, porque voltar era definitivo demais para ele.

Ele estava aqui, mas era outro, era outro, e não se via mais o mesmo.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Festival do Rio: Ela perdeu o controle (She's lost control) - crítica


Ela perdeu o controle (She’s lost control) não é um filme sobre a banda Joy Division, antes que alguém pergunte. Inclusive, na exibição de sábado à noite no Festival do Rio, ao ser perguntada sobre o que a motivou a fazer o filme, a diretora Anja Marquardt não citou a banda inglesa, nem a música homônima. O filme trata de Ronah, espécie de “profissional da intimidade”, cuja função é ajudar seus clientes (pacientes?) na aprendizagem de habilidades de se relacionar amorosamente, chegando às vias de fato (sexuais) com seus clientes, encaminhados por um supervisor que supostamente conhece a fundo as dificuldades psicológicas, emocionais e comportamentais de cada um deles. Ronah mora de aluguel em um apartamento com problemas de encanamento e infiltração, está fazendo seu mestrado em Behaviorismo(Psicologia Comportamental) e não tem amigos. Ela, cuja ocupação profissional é ajudar os clientes a desenvolver habilidades de relacionamento íntimo, não parece por sua vez ter nenhum relacionamento desse tipo e, quando quer uma companhia para o jantar, é à vizinha que recorre.

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sábado, 20 de setembro de 2014

Antes de o mundo acabar, Vivian Pizzinga lê O Explicador, de Leonardo Villa-Forte (resenha)



Antes de o mundo acabar, é preciso pegar um livro de contos recente, esse O Explicador, do Leonardo Villa-Forte, lançado pela Editora Oito e Meio, e ler de um fôlego só. Antes de o mundo acabar é preciso também agradecer a existência de uma editora que dá oportunidade a novos autores de lançarem seus textos e algumas preciosidades literárias, preciosidades essas que, desconfio, não ganhariam o terreno do mundo tão logo. Antes de o mundo acabar, é preciso ler o conto que fecha O Explicador, Notícias de antes do fim, que nos pega pela mão numa jornada de cenas e acontecimentos que se dão antes do fim do mundo e que, consequentemente, nos impelem a um jogo mental bem típico de obsessivos – um labirinto tortuoso e prazeroso – de hipóteses a respeito do fim. Mas, antes de o mundo acabar, é preciso ler também os contos A mulher que não soube fantasiar, O batismo do objeto ou Comunicação, para pinçar alguns num jogo de menções honrosas difíceis de destacar.

Bem, eu queria ter lido antes o primeiro livro do Leonardo Villa-Forte, mas só pude agora. E aí vem o espanto quando me dou conta de que este é o primeiro livro do autor. A maturidade da linguagem, a maneira como aborda os temas escolhidos para seus contos e os projetos literários que vem criando talvez tenham incutido em mim a certeza de que O Explicador era, no mínimo, o segundo livro de Leonardo Villa-Forte (ah, essas certezas psicóticas que abalam a convicção de normalidade de uma neurótica como eu... De onde tirei a certeza de que esse livro seria o segundo do autor, nem mesmo minha analista seria capaz de explicar). Mas, não, é o primeiro. Antes disso, vieram tantas coisas que vou destacar apenas duas: a premiação de Villa-Forte no Prêmio Off-FLIP de contos e o belíssimo Paginário, intervenção urbana que espalha pela cidade (e além dela, há Paginário em Petrópolis também!) trechos literários escolhidos por autores diversos. Aliás, antes de o mundo acabar, é preciso conferir um desses Paginários.

Como diz Paulo Scott na orelha do livro, Villa-Forte trata das “funções e disfunções da existência humana, das suas percepções variadas, da sua inclusão inevitável na mecânica dos relacionamentos e rotinas”, e é exatamente isso. É como se Villa-Forte escolhesse situações e impasses para tratá-los de modo cru, sem abrir mão, contudo e ainda bem, de conduzir o leitor por uma história interessante, no que tem de metafórica e de realista a um só tempo. 

Afinal, quem nunca se viu perplexo diante de um informe ou de uma dizer publicitário, ficou pensando sobre aquilo e se imaginou tratando longamente do assunto com quem de direito? Esse é o caso do cliente do restaurante vegetariano, amofinado com a placa que diz que “a verdade está no verde” e que não se furta a esmiuçar a questão com o gerente, no conto Peça Publicitária. Por outro lado, no conto Necessita-se de Profissional do Medo, título por si só instigante, as verdades são colocadas na mesa e ninguém finge intenções outras: o comunicado e o pedido são claros, contrata-se o funcionário que tem tudo para dar certo na empresa, e seu requisito essencial (o título já nos diz qual seria) é o que garantirá a sua permanência no emprego. Já O Explicador, conto que dá nome ao livro, trata desse problema crucial do homem que se faz ausente nas ocasiões em que sua presença é esperada. “- Querem ou não querem que eu explique os motivos dele não vir quando é chamado?”, é o que tenta o explicador, mas a tarefa é árdua, o assunto é espinhoso, os ânimos estão aflorados e a comunicação ganha aí seus maiores ruídos. Assim é a narrativa de Leonardo Villa-Forte: acentos irônicos e personagens ao mesmo tempo inocentes e perspicazes, insistentes e cismados, que se deparam constantemente com os absurdos das rotinas, dos hábitos, das instituições.

Quando dou por mim, o livro vai chegando ao seu final. Concluo, então, que antes de o mundo acabar é preciso terminar o livro e, se der tempo, reler alguns contos. Em voz alta, de preferência.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

Crítica: "Paraíso"

Ok, talvez Paraíso, segundo longa-metragem de ficção dirigido pela mexicana Mariana Chenillo, não esteja entre os melhores filmes do mês. Provavelmente, não estará entre os melhores do ano. Mas não é por isso ou por ser um filme nota 6,8 ou 7,0 que não mereça ser visto. Há muitas razões que fazem com que um filme mereça ser visto, e Paraíso tem algumas.
O filme trata de um casal de gordinhos que se chamam, mutuamente, de Gordo e Gorda. Trata-se do apelido carinhoso que cada um endereça ao outro. O Gordo é Alfredo (Andrés Almeida), a Gorda é Carmen (Daniela Rincón). Eles se dão bem e são felizes. Dançam em festas, transam e se beijam com frequência. E por que não? (A pergunta não é sem propósito na medida em que, em algum momento do filme, outros personagens se questionarão, de modo debochado, sobre a vida sexual do casal.) Tudo vai bem, até que o marido, o Gordo, é transferido no trabalho e deve ir morar na Cidade do México. Carmen, a Gorda, o acompanha e deverá construir uma nova vida.

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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon (resenha)



Uma viagem idealizada há anos, uma viagem cujo maior prazer (inicialmente) talvez fosse não a sua concretização, mas a sua maquinação em conjunto. Uma viagem que talvez nunca fosse se realizar e que, enfim, acontece. Falo da viagem de Cora e Julia, protagonistas de Todos nós adorávamos caubóis, romance de 2013 da escritora gaúcha Carol Bensimon, pela Companhia das Letras, e que será publicado na Espanha pela Editora Continta Me Tienes. Carol Bensimon estreou pela Não-Editora, em 2008, com o livro Pó de Parede e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009, e do Prêmio Jabuti, em 2010, por Sinuca em baixo d’água. Em 2012, foi selecionada pela Revista Granta entre os 20 melhores jovens escritores brasileiros.

Todos nós adorávamos caubóis trata de uma viagem e de um reencontro. Essa é, em linhas gerais, a premissa do ótimo romance da autora, que eu já estava há tempos querendo ler.

Mas havia aquelas filas caóticas de livros me esperando. Havia as filas físicas (os livros empilhados na estante) somando-se às filas mentais (aqueles que você mais ou menos ordenou na sua cabeça, os títulos que precisa ler embora ainda não os tenha em mãos), sem contar os títulos penetras: livros-canetas-bic, que surgem na sua mão sem que você se dê conta da rapidez de sua aparição, e que mostram que o acaso faz suas maiores benesses no seu mundinho particular de leitura (tal qual o acaso que se insere em qualquer viagem, o inesperado inerente aos reencontros). Bem, tudo isso adiava o início da minha leitura particular de Todos nós adorávamos caubóis. Enfim, consegui iniciar a leitura e aviso logo que, se você for começar também, não o faça em data próxima a um concurso público para o qual deveria estar se preparando, ou com nenhum outro compromisso inadiável, para não se embananar por dificuldade de fechar o livro antes de chegar ao final. 

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domingo, 27 de julho de 2014

A Cova da Serpente (The Snake Pit): notas sobre o filme e sobre a iatrogenia das instituições totais



Foi uma grata surpresa descobrir esse filme que é um clássico mas que, para mim, até aqui, era novidade. A Cova da Serpente, The Snake Pit, de 1948, teve várias indicações ao Oscar e foi o 6º lugar de bilheteria no seu ano de exibição. As indicações incluem: melhor filme, melhor atriz (Olivia de Havilland, a Melanie de E o vento levou), melhor direção (Anatole Litvak) e melhor roteiro adaptado (Frank Partos e Millen Brand), uma vez que o filme é baseado em relato semi-autobiográfico de Mary Jane Ward.

É preciso dizer que o início me assustou um pouco (e aviso àqueles que forem conferir), dado que o pensamento de Virginia, a protagonista, era explicitado no desenrolar das primeiras cenas. A personagem interagia com pessoas ao seu redor, muito acuada, e, entre uma e outra interação, todo o seu pensamento vinha de graça para que nós, espectadores, tivéssemos certeza de sua loucura, de que algo não ia bem. Por sorte, isso não se manteve no filme, e não o estragou. Ao contrário, ele foi ficando cada vez melhor e mais dinâmico.

Na trama há Virginia em um sanatório, sinais e sintomas do que não parece ser, nem de perto, uma síndrome psicótica, um doutor legal que mistura eletroconvulsoterapia (numa indicação estranha) e psicoterapia (vá entender...), e as sessões se desenrolam com o aval do retrato do Freud em diversas cenas.
 
Há, no filme, certa ideia muito questionável de que o sofrimento psíquico pode ser desvendado de maneira exata ao fim e ao cabo e de que os meandros do inconsciente são decifráveis, mesmo que após longa investigação clínica. Trata-se da concepção, presente no roteiro, de que tudo tem um motivo, de que tudo se encaixa, de que a neurose é questão de causa e efeito e seus desdobramentos são lineares. Novamente, apesar de tais noções serem questionáveis, nada disso estraga o filme, e o torna até mais interessante, se nos lembrarmos de que em 1948 a psicanálise e a saúde mental, a loucura, por assim dizer, eram ainda mais polêmicas do que hoje em dia (não, infelizmente não deixaram de ser).

Mas o mais interessante é que o filme tem importância e certa atualidade. Importância porque, em 1948, escolheu como temática a ser exibida na tela grande as polêmicas que menciono acima. E não são polêmicas pequenas. O filme encara a loucura de frente: há um médico que “consegue bons resultados só com psicoterapia”, como um doutor da junta médica afirma, em certo momento do filme. É claro que há outros métodos terapêuticos no começo (o choque, como já mencionei), mas depois o tratamento de Virginia deslancha através da palavra, da talking cure, do cuidado, do afeto, do manejo e da clássica transferência.

Além disso, e talvez até mais importante, o filme mostra de modo sutil e brilhante, a iatrogenia das “instituições totais”, para usar o conceito clássico de Erving Goffman, em Manicômios, Prisões e Conventos, ou seja: a forma como a loucura de um modo de funcionar institucional adoece mais do que trata, mais do que cura. O lugar em que se busca a saúde é aquele que intensifica a doença, daí ser iatrogênico.  

No filme, a cova da serpente - esse manicômio em que Virginia está internada - tem seus exemplos de iatrogenia: há uma enfermaria onde um enorme tapete retangular não pode ser pisado e as pacientes devem ficar circulando em volta, um tapete que deve ser poupado e a enfermeira “surta” se alguém se senta sobre ele; ou um baile em que a regra é clara: não se pode dançar mais de três vezes com a mesma pessoa, senão... ; ou as enfermarias, com alimentação e tratamentos diferenciados, talvez de acordo com o grau de adoecimento... de quem? Do paciente, do funcionário ou da instituição como um todo? Esses são apenas alguns pontos emblemáticos que o filme mostra muito bem, lembrando-se sempre que o ano é 1948.

Não havia ainda, no Brasil, a Reforma Psiquiátrica, a abertura política (até porque o filme é anterior ao Golpe Militar de 1964), a reforma sanitária, o SUS ou Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM). E sim, o filme não trata de Brasil, mas trata de algo universal: médicos sobrecarregados, profissionais de saúde cansados, poucos leitos e, sobretudo, a loucura das instituições. Acima de tudo, o filme toca nessa questão que não perdeu sua importância e deve ser sempre o ponto de partida de qualquer prática clínica, não apenas no âmbito da saúde mental: a dignidade no tratamento e acompanhamento de pessoas com sofrimento psíquico, seja ele leve, moderado ou grave.  

sábado, 19 de julho de 2014

Idiossincrasias (conto escrito para o Clube da Leitura)



No dia da mudança, resolvi deixar tudo pra trás. Tudo ou quase tudo. Porque tudo incluiria eu mesma. Incluiria minha imagem de mim mesma. Incluiria memórias, idiossincrasias. Não sei dizer o que são idiossincrasias, mas tenho certeza de que fazem parte do tudo que eu teria de deixar para trás.

No dia da mudança, eu não queria levar nada comigo. Fui com a roupa do corpo, nem vestidos, nem sapatos, nem aqueles que eu usara pouco, nem os que ainda não experimentara, sapatos aguardando ocasião. Eu compraria tudo novo. Não levei tampouco os livros. Parte deles, doei para a biblioteca do Méier. A outra parte eu deixaria na casa dos meus pais, para pensar melhor depois. Vai que eu me arrependesse. Os documentos eu levaria, que jeito? As fotos, resolvi queimar. Só as de infância ficaram com a mamãe, que não aprovava aquele meu modo súbito de fazer as coisas.

Eu tinha 40 anos e segui minha geração (ou o que falam dela em reportagens de revistas de domingo) ao sair de casa, pontualmente, aos 40 anos. Até ali, morara com o papai e com a mamãe, no apartamento do Méier, por todo aquele tempo. Por 40 anos, dormi no mesmo quarto, na mesma cama, e talvez tenha trocado de colchão duas vezes na vida. Mamãe me chamou pra conversar quando soube da minha decisão de sair de casa. Ela disse: Você não está satisfeita com a gente, minha filha? Estou. Eu e seu pai não te damos liberdade suficiente? Dão. Você não é feliz? A essa última pergunta, nada respondi. Decidi me levantar e encerrar o assunto. Vai que eu não fosse feliz mesmo e descobrisse isso na hora de lhe dizer. Papai, por outro lado, fechou a cara por dias quando soube que eu os abandonaria. Mas não é abandono, tentei explicar. Em vão. Eles nada entendiam. Espantosamente, papai estava disponível e de bom-humor no dia da mudança, talvez porque eu não fosse levar nada, não precisaria encaixotar objetos, coisinhas, pertences, apenas me levar ao apartamento novo, no Grajaú.

Mas, antes de sair, minha mãe me chamou até meu quarto, abriu uma das gavetas da bancada, apontou três cadernos, um preto, um amarelo e um azul. E isso?, ela disse. Estavam ali meus diários. Ela havia mexido nas minhas coisas, descobrira minhas memórias, todas ali, em garranchos que eu esperava que ela não tenha sido capaz de decifrar. Você leu?, perguntei, após uma pausa de surpresa. Não, ela disse, sem me encarar nos olhos. Fiquei olhando aqueles cadernos. Peguei o preto e o folheei, ouvi meu pai nos apressar da sala, depois peguei o azul, que ainda não havia acabado. A última data em que eu registrara alguma coisa havia sido meses antes. Recoloquei-o na gaveta, não peguei o último caderno. O que eu faria? Levaria as minhas memórias? Ou as deixaria com os sapatos novinhos em folha, os vestidos caros e todo o resto? Minha mãe aguardava, a consternação escurecendo seus olhos. Eu queria deixar tudo pra trás, inclusive idiossincrasias, mas e aqueles escritos? Minha mãe, silenciosa, nada dizia. Tem certeza de que você não leu?, tornei a perguntar. Ela, dessa vez, nada disse, e meu pai chamou de novo, impaciente. Fechei a gaveta. O que eu faria? Meu raciocínio, tartamudeando dentro de mim, não me levava a uma conclusão sequer. Olhei para minha mãe, visivelmente consternada, cínica e calada, e disse a ela: faça o que quiser com as minhas memórias. Prefiro levar comigo as idiossincrasias.

E fui embora, com a roupa do corpo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

um pouquinho bem pouquinho sobre filmes



Se, vendo um filme, eu bocejar muito, o problema é meu ou é do filme? Da mesma forma, se eu leio um texto e não entendo, eu sou burra ou autor mandou um pouco mal? Enfim, a capa do DVD me indicava a duração: 146min. Todo um preparo psicológico poderia ser necessário. Meu ânimo seria capaz de sustentar a atenção? De quantos cafés eu precisaria? Mas Uma Mulher Sob Influência, esse filmaço do John Cassavetes, em que Gena Rowlands dá um show interpretando a problemática Mabel, me lembrou novamente que o tempo é relativo (ou não existe, sei lá!). O filme me prendeu do início ao fim e os 146min objetivos duraram menos. Não falo mais nada sobre esse filme que eu não tinha visto ainda, só uma coisa: é maravilhoso e Mabel está muito verossímil (só o psiquiatra que tenta medicá-la é que está um pouco perdido na história). Pois é, ainda tô aqui vendo muitos filmes, e vou falar de alguns, atendendo a pedidos. Outro filmaço, que revi outro dia, foi Fatal, da Isabel Coixet, com a Penelope Cruz e o Ben Kingsley. Eu só lembrava do básico, um professor universitário que não estabelece laços afetivos duradouros (salvo com o melhor amigo e uma mulher com quem ele se encontra há 20 anos mas com quem não conversa, praticamente) e a relação que estabelece com sua aluna. Mas o filme é absolutamente mais do que essas linhas muitos gerais. Consuela, a personagem de Penelope Cruz, diz, em dado momento: ‘quanto tempo perdi dormindo. passei a vida dormindo.’ O que fazemos de nossas vidas é a pergunta chave do filme. E, pra concluir essas impressõezinhas rasas, dois filmes com Olivia de Havilland: To each his own (com o título cafonésimo em português Só resta uma lágrima) - achei que poderia ser arrastado, mas o tempo é essa coisa bandida e confusa difícil de definir, o filme não é nada arrastado e levou o Oscar de Melhor Atriz, além da indicação de Melhor Roteiro Original, e A Cova da Serpente (foto), com indicação de melhor filme, entre outras indicações. Mas, sobre esse último, vou escrever um pouco mais em breve. Aguardem!

domingo, 6 de julho de 2014

prazo


ela só não queria morrer antes do prazo certo. havia um prazo. a ser dado por ela mesma no futuro e que só saberia no momento de. a gente sempre sabe, era o que ela dizia quando lhe perguntavam como ela iria saber o momento de. intuição? não, ela dizia, cansada de mesmices. intuição é explicação rápida, rasa, raquítica. por causa das mesmices e de muito raquitismo, saiu do facebook. não tinha mais tempo, nem paciência, as redes sociais reproduziam em excesso a vida social ao vivo, facebook era sua agrura, vida social era seu horror. pra que mais? pra que tanto? não, não queria cansar dos amigos mais do que poderia se cansar deles na vida real, saiu do facebook, pôs-se a escrever poesia ou, melhor, pôs-se a escrever o que torcia (dedos cruzados) para que poesia fosse. no caderninho azul que denise havia trazido da inglaterra, fez um diário da dor, esse sim nada poético. mas cru. um diário milimétrico, obsessivo, minucioso, espantoso. ela perquiria sua dor, passo a passo. depois, toda sexta-feira, lia o inventário em letra de mão. criava a si mesma por intermédio dos itinerários da dor. vez ou outra, acordava no meio da noite resfolegando. teria corrido alguma maratona num desses pesadelos cujo conteúdo a gente esquece mas cujo tom permanece? o tom do pesadelo impedia que adormecesse novamente, às vezes se levantava. lavava as mãos, sem pressa. na sala, acendia a luz, olhava ao redor. o caderno azul sobre a mesa, as dores ali encerradas. só não queria morrer antes do prazo certo, mas aquelas dores, todas elas, agrupadas, separadas, intermitentes, insistentes, quentes e frias, dores que embaralhavam o entendimento de seu próprio corpo, todas elas faziam com que temesse um adiantamento qualquer. contanto que fosse deliberado, tudo bem. 
mas assim, à sua revelia, fora de seu controle, isso não estava certo.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Anti-Duração - conto n'Algo a Dizer (junho de 2014)

Conto meu na revista Algo a Dizer, edição de junho de 2014.

Existe um minuto congelado dentro de cada minuto normal. Existe também um coágulo de segundo dentro de cada segundo padrão. É aquele pedaço de tempo dentro do tempo em que tudo para, é um cantinho de vida que passa ao largo de tudo o mais que está acontecendo. É o coágulo de tempo dentro do tempo, e entrei nesse coágulo de tempo quando estava no táxi, a caminho daquela festa, imersa em certa euforia e expectativa que precede as grandes noites. 

Continue lendo na Algo a Dizer.

domingo, 29 de junho de 2014

Kafka: Por uma Literatura Menor (aventura textual e impressões de leitura)



É preciso dizer, para começar, que não sou deleuziana. Nem bacharel em filosofia. É preciso confessar que, por um bom tempo, torci o nariz para Deleuze e Guattari. Ou talvez para deleuzianos. Há alguns anos, no início da faculdade de psicologia, tivemos contato com Deleuze, que perpassa as ciências humanas. Seus textos e seus diálogos com Foucault e Guattari são usados por aqueles que querem pensar a saúde mental, as instituições, a psicanálise. Meu nariz torcido talvez se devesse à forma como me foi apresentado, há 10 anos. De lá pra cá, minha relação com o pensamento de Deleuze e Guattari não teve continuidade e foi ‘aos pingadinhos’.

Por motivos de força maior, entrei em contato com o livro de Deleuze e Guattari que saiu em nova edição pela editora Autêntica, em 2014. Trata-se de Kafka: Por Uma Literatura menor, com tradução de Cíntia Vieira da Silva e revisão de tradução de Luiz B. L. Orlandi. A leitura do livro me trouxe um início (não sei se posso me comprometer…) de uma ressignificação de Deleuze e Guattari dentro de mim. Não sei que lugar irão ocupar, mas uma simpatia (das grandes) cresceu, porque o texto, antes de tudo, aponta para uma produção de pensamento. Entenda-se tudo o que ali diz ou não, tenha-se lido antes qualquer texto dos autores ou não, ache-se fácil ou difícil, o livro permite uma leitura histérica (usando o termo psicanalítico, em provacação-brincadeirinha com os próprios autores, que dialogam incessantemente com a psicanálise, ainda que para dela caçoar), deixando de lado uma leitura obsessiva, isto é: não é preciso entender tudo, ou entender 70% do livro, ou 65%, vá lá, para que se prossiga na leitura e para que ela desperte interesse. Na verdade, o erro aqui é a ideia do entendimento. Prefiro, de novo, a ideia de produção. A leitura produz algo. Algo a se pensar, um estranhamento, uma vontade de retornar a Kafka, uma vontade de fazer o inventário do que, em Kafka, ainda não foi lido. Uma vontade de cotejar cartas, novelas e romances, seguindo o brilhante quarto capítulo em que os autores examinam cada um desses três elementos do que chamam de “máquina literária, máquina de escrita ou de expressão em Kafka” (p. 58). O exame minucioso das cartas é uma joia à parte dentro da joia maior do livro, o pacto diabólico que Kafka faz através delas. A leitura dessa nova edição aponta para a produção de uma nova visão de Kafka (e, para mim, pessoalmente, de uma nova visão de Deleuze e Guattari).
Continue lendo a resenha completa no Portal AMBROSIA.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Nenhuma metáfora

Volto a dizer. A minha pulsão é de vida. Mas há uma febre à espreita. Uma dor menos tímida. Arrepios avulsos. Um mal-estar cortejando a pele. E nenhuma metáfora.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Resenha de Estranhas Criaturas Noturnas, livro de Jozias Benedicto.



Li há poucas semanas Estranhas criaturas noturnas, livro de contos de Jozias Benedicto, que saiu em 2013, pela Apicuri. Há quem torça o nariz para a narrativa curta em literatura, como se fosse algo menor, como se o contista não soubesse escrever romance e se resignasse com o conto. Felizmente, em 2013, o Nobel de Literatura foi para Alice Munro, escritora de 82 anos conhecida por escrever somente narrativas curtas, mostrando que não há hierarquia entre narrativas. O livro de Jozias Benedicto, finalista no Concurso SESC de Literatura 2012/2013 - Conto, não deixa a dever a nenhuma narrativa longa.

O primeiro conto fornece uma senha dos personagens e situações que permeiam o livro. De um caderno de capa cinza traz uma lista de deveres que nos mostram, de modo cínico (e essa é a graça) que certas condutas razoáveis, saudáveis, corretas, que certos hábitos minuciosamente pensados e quantificados (“comer no máximo 5 ovos por semana”, “manter a regularidade diária no esvaziamento do intestino”) podem esconder outras condutas, tão obsessivas quanto, mas um pouco mais bizarras. 

Leia a resenha na íntegra no Portal Ambrosia.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

texto meu no blog do plástico bolha

novo texto meu no blog do Jornal Plástico Bolha. depois de 5 anos ou quase, here we go again. com vocês: segunda.

http://jornalplasticobolha.blogspot.com.br/2014/06/segunda.html

quarta-feira, 18 de junho de 2014

avaria

a minha pulsão é de vida. mas todo pânico é receio de uma avaria sem volta. toda angústia é um medo da falência múltipla de órgãos.

sábado, 14 de junho de 2014

Brócolis

Canoro é palavra bonita. Canoro: que tem som musical. Bonito também é chocolate  e tem gosto. Troglodita é bonita, mas difícil de falar. Gosto de rupestre. E chacoalhar. E linhaça. E liame. E caraminguá, com c como canoro, sendo que só é musical se forem moedas tilintando. Gosto da palavra palavra. E de verborragia. Hemorragia. Taquicardia. Picardia. Putaria. Enciclopédia. Lacustre. Tempestade. Chuvisco. Gosto de querosene. Berimbau. Bricolagem. Furúnculo não é mal. Ardósia serve. Relento, às vezes. Querubim é mais ou menos, mais pra menos que pra mais. Quermesse. Sacripanta. Escrotidão. Rabanete. Floresta. Brócolis. Pensando bem, brócolis é a melhor.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Palavrório (conto para o clube da leitura de 10 de junho de 2014)


Nunca imaginei os percalços de namorar uma mulher. Sofri no começo, no meio e no fim. Quatro anos em que minha voz já não é a mesma, tornei-me afônica de um modo surpreendente. Falamos tanto sobre nós duas que já não mais me reconheço. Por experiência posso dizer que namorar uma mulher é cansativo. Verborrágico.  Palavroso. Não no sentido de que as mulheres falam demais. Sendo eu mulher, não reproduziria estereótipos assim. Mas duas mulheres juntas precisam muito se explicar e nomear cada partícula de sentimento, cada minúcia de movimento, cada parcela de gesto. E o caso é que as mulheres (isso reproduzo, não é estereótipo) são profusas em sentimentos, ricas em movimentos, e o que mais sabem fazer são gestos.

Antes da Mércia, eu havia tido dois namoros estáveis, primeiro com o Carlos, cinco anos. Depois, engatei no Lucas, sem pausa pra respiração, e durou um ano. Com o Carlos e com o Lucas, foi totalmente diferente, e não só por características anatômicas e timbres de voz. Não havia discussões com eles. Rusgas. Conflitos. Não sei se eu concordava com tudo o que eles diziam, se eles acatavam todas as minhas ordens, ou se éramos tão maduros que íamos contrabalançando aqui e ali. Com Carlos e com Lucas, alavanquei o que se pode chamar de namoro com estabilidade, namoro serviço público. Em ambos os casos, o término foi também pacífico, quase uma exoneração em que as duas partes concordam.

No caso do Carlos, eu estava enjoada há meses, fui me distanciando e ele percebeu. Me ligou e disse que queria conversar. Fomos a um bar inteiramente novo, pedi cerveja, o que nunca fazia. A estabilidade dava mostras de seu fim. Ele iniciou dizendo que eu estava mudada. Eu aquiesci e tomei um gole de cerveja. Falei, enfim, que talvez estivesse mudada mesmo, mas não tinha certeza. Ele não hesitou antes de perguntar se eu queria um tempo pra pensar. Como nunca bebia cerveja, credito a ela minha resposta automática: sim. E mais ainda o alívio que senti ao me despedir. Ele estava ansioso para que eu estivesse mudada, hoje percebo. Com o Lucas foi diferente, ele me propôs o fim. Foi tudo repentino, mas igualmente estável e pacífico. Pelo telefone, disse que queria conversar. Eu deduzi o motivo, disse que não precisava. Como assim?, fez ele. Respondi que, se ele estava insatisfeito, era melhor que não nos víssemos mais. Ele ficou mudo do outro lado da linha, aposto que não esperava tanto pragmatismo. Estou falando sério, resolvi enfatizar. Você está bem?, ele perguntou. Mais ou menos, mas vou ficar, respondi, madura, estável, servidora pública de nós dois. E terminamos, sem mais palavras.

Com a Mércia, tudo foi diferente, do início ao fim. O começo foi uma declaração de amor que ela me fez gritando após sairmos de uma night gay em que ela me iniciara. Eu ria de chorar porque era tudo muito novo e divertido. Começamos ali, segredo de estado. Seguiram-se um ano de cobranças e conversas infindáveis, ela queria que eu dissesse tudo, que eu falasse os motivos de não assumi-la. Eu ficava horas falando que não tinha nada a dizer, no fim das contas terminava rouca, a boca seca, pedia pastilha. Tinha medo, não queria contar a ninguém, era simples, mas ela não entendia. Depois, quando assumi o namoro, os motivos de palavrório eram outros. E o final foi aquele horror que durou um ano de idas e vindas, uma discussão de relação que não tinha prazo pra acabar. Marcávamos cafés, sucos, tudo para discutir o que nós éramos, e quando chegávamos à conclusão de que já não éramos mais nada, os encontros eram para discutir o que havíamos sido, e quando percebíamos que era impossível dizer o passado, marcávamos para discutir o que pretendíamos ser, se nos cumprimentaríamos na rua, se nos telefonaríamos, se eu a bloquearia no facebook e vice-versa. Aquilo não terminava nunca e, nos interregnos entre os cafés, a discussão se mantinha por mensagem, ainda bem que eu não tinha whatsapp.

Estamos há dois anos afastadas. Eu a bloqueei no facebook, percebi o vício que tínhamos em nos explicar, em conjecturar tudo, em decodificar cada trecho de conversa antiga. Para tudo uma análise, uma pegadinha.

Há seis meses conheci Matias. O Matias é ótimo, meu terceiro homem plural. A gente marca de ir ao cinema e vai. A gente marca o japonês e vai. A gente faz uma piada e ri e depois para de rir. Sem assuntos, sem contendas, sem porquês. Até o início do namoro foi translúcido. Ele colocou, no facebook, que estava num relacionamento sério e me marcou. Eu fiz o mesmo. E nem falamos sobre isso depois. Simples assim.

festa óbvia



Uma festa óbvia com som alto e horrendo invade o silêncio musical do meu domingo. E eram meus (o domingo, o silêncio) dentro dos limites do apartamento. O apartamento, agora devassado, já não me reconhece mais, me escapou. Nem com as janelas fechadas a coisa funciona. E eu estava aqui porque não queria me relacionar com o mundo ou, ao menos, não com um mundo sonoro que não fosse da minha escolha. Mas meu plano deu errado.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Resenha no Ambrosia

Minha estreia no site Ambrosia é com um resenha-crônica, se posso assim chamar, ou indicação de leitura com parcelas autobiográficas, do livro do Deleuze e do Guattari, Kafka: Por uma Literatura Menor, edição de 2014. Perdoem-me filósofos e deleuzianos de plantão (não sou coisa nem outra), essa é apenas uma aventura textual. E o livro é muito bom!

http://ambrosia.virgula.uol.com.br/resenha-kafka-por-uma-literatura-menor/

domingo, 25 de maio de 2014

circuito

existe essa violência diária de começo de dia, dos ritmos entubados para manter o olho aberto, a remela oculta, tudo dentro do tempo certo. existe essa violência diária do metrô e a voz que anuncia que estamos aguardando para a liberação da estação 'de' Central. existe essa violência diária da avenida brasil sentido centro, da marechal rondon sentido uerj, da via dutra sentido rio, às oito da manhã, às sete, às seis. existe essa violência diária de trens descarrilados, frenagens bruscas. existe essa violência simbólica dos preços nas vitrines, das roupas que não me cabem, dos objetos que não me pertencerão. existe essa desumanização diária que a gente pensa que aguenta. essa angústia diária, que é corrente elétrica em circuito em série, ela vem acendendo as lâmpadas, essa angústia elétrica diária que segue em minha direção. eu sou a próxima lâmpada.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

EU SOU CONTRA A COPA

Eu sou contra a copa. Sou a favor da greve de rodoviários. A favor da greve de professores. Sou a favor do Rio. Sou a favor de que o poder aquisitivo dos cariocas se mantenha, no mínimo, igual, para poderem continuar pagando seus aluguéis dignamente e também o cafezinho, na hora do intervalo. Metrô 3,50, aumento de quase 10%, lata de sardinhas operárias tentando chegar em casa às 6 da tarde, quanto meu salário aumentou? Ônibus 3 reais porcaria móvel, mais de 10% de aumento, quanto meu salário subiu? Sou contra a copa, a favor do SUS, a favor da luta antimanicomial. Sou contra a copa e a favor da greve. Das greves. Sou contra a copa. sou contra a copa. sou contra a copa, serei eu vândala?

(e mais um motivo é a Lei da Copa, que, entre outros absurdos, permite que a FIFA seja dona da palavra PAGODE até o fim do ano - quem usá-la para fins comerciais, deverá pagar à sua nova dona - além da expressão NATAL 2014 - MEDO PÂNICO HORROR!)

sábado, 10 de maio de 2014

Homem Cansado (escrito para o Caneta, Lente, Pincel)

O que você vê?, Um homem cansado, Um homem cansado?, Exausto, um homem exausto, com a boca entreaberta em um suspiro de dor, Um homem exausto?, Extenuado, e ele olha para cima, a cabeça cercada de enxaquecas, ele quer chorar mas não sabe como, quer dizer algo mas não tem a quem, está sozinho na penumbra, esse homem sem forças, e um facho de luz do apartamento vizinho incide sobre seu rosto de séculos.

Calei-me e traguei o cigarro. Esperei. Olhávamos o céu, era véspera de abril, o calor embalsamava minha vontade de viver. Devolvi a pergunta.

O que você vê?, Vejo uma bruxa, uma feiticeira, uma mulher antiga fazendo uma prece, Uma prece?, Ela pede pela volta de alguém, tem três dedos apontados para cima, um pouco dobrados, uma mulher com manias diversas e histórias detalhadas, Quais, quantas?, Uma octogenária que ainda tem esperança, De quê?, De esquecer tudo, E que mais?, Ela tem um passado tão comprido que, toda noite, antes de dormir, põe-se a dobrá-lo com paciência e asco, e o faz diversas vezes, de modo que caiba na gaveta de cima da cômoda, Ela tem uma cômoda?, De mogno, E o que mais ela guarda na cômoda?, Meias, casacos, uma caixa de gargantilhas que não usa mais, dentes de leite dos netos, cartas que pretende queimar, diários que não almeja reler.

Apaguei o cigarro quando ela acabou de falar. Ficamos em silêncio. Continuei olhando o céu, que já se desfazia, com a noite. Pus-me de pé, afanei parcelas de ar com a força dos meus pulmões e, sem vontade de sorrir, entrei em casa, cansada do jogo.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

quem fala mal do bolsa família

Quem fala mal do bolsa família tem sua renda boa e garantida todo mês (herança? mesadinha? salário?). Quem fala mal do bolsa família mora em uma casa onde há um quarto para cada morador, e pelo menos dois banheiros. Quem fala mal do bolsa família janta ou almoça fora pelo menos de 2 a 3 vezes na semana, tem frutas à vontade sobre a mesa. Quem fala mal do bolsa família mora em lugares onde não há dificuldade de acesso a transportes públicos, escola, saúde. Quem fala mal do bolsa família tem fácil acesso a bens culturais e, se quiser, pode comprar um livro por mês. Quem fala mal do bolsa família nunca entrou em uma casa de 20 metros quadrados (um pouco menos, um pouco mais), onde moram 10 pessoas, sem divisão de cômodos, atoladas sabe-se lá como, e onde o calor é tão forte que estufa seria um nome mais apropriado para designar aquilo que nunca foi um lar. Quem fala mal do bolsa família viaja com regularidade, tem tv a cabo, banda larga e netflix, um hometheatre confortável em casa. Quem fala mal do bolsa família fez faculdade, estudou em ótimos colégios, provém de uma família onde o letramento existe desde a mais tenra idade e tudo fica mais fácil. Eu ousaria dizer que quem fala mal do bolsa família até ganhe uma bolsa família de outra espécie, que não é programa de governo e que ninguém questiona, uma bolsa família informal, ajuda financeira do papai ou da mamãe. Há os acomodados, é o que dizem os que falam mal do bolsa família, mas os que ganham bolsa família informal de seus papais ou mamães são ou não são acomodados, já têm conforto, moram bem e têm tudo próximo e não precisam correr atrás? Eu convido quem fala mal do bolsa família a fazer uma visita à Baixada Fluminense, a Guadalupe, a Cordovil, pegar o trem ramal Belford Roxo às 18h, ou o metrô sentido Pavuna às 17h30, baldear, sofrer a violência urbana tácita de todos os dias. Porque aqueles que falam mal do bolsa família não sabem a diferença entre Méier, Cascadura e Senador Camará, mas se incomodam profundamente quando o gringo mistura Brasil e Buenos Aires. As pessoas deveriam pensar duas vezes antes de falar. 

link sobre o prêmio concedido ao Bolsa Família:
http://www.brasil247.com/+hnk5t

terça-feira, 6 de maio de 2014

Resenha sobre Dias Roucos e Vontades Absurdas

Em 17 de julho de 2013, lancei meu primeiro livro de contos, pela Editora Oito e Meio. Aqui, a resenha sobre meu livro, no portal Ambrosia.

http://ambrosia.virgula.uol.com.br/dias-roucos-e-vontades-absurdas-de-vivian-pizzinga/

domingo, 4 de maio de 2014

Livreto para Mojobooks, de 2009 - Secos e Molhados

http://urano789.digiweb.psi.br/mojo_inteira.php?idm=396

Em 2009, escrevi um livro para a Mojo Books, baseado no álbum número 1 dos Secos e Molhados. A Mojo Books é essa editora virtual que tem essa ideia interessante faz com que escritores transformem em pequenos livros seus álbuns preferidos.

Hoje eu escreveria tudo beeeem diferente, mas, vale recordar. Eu estava custando a achar esse link, tomara que fique acessível sempre.

Três Horas (para o Caneta, Lente, Pincel)



Naqueles tempos, era por volta das três horas que eu me levantava, um pouco antes do café da tarde, e me dirigia, fingindo tranquilidade, à caixinha do correio. 

A palpitação que se insinuava na garganta, eu tentava ignorar, e respeitava meu ritmo letárgico de ficar na ponta dos pés, alcançar a caixinha, apalpar seu interior.

Quando eram contas, informes publicitários, campanhas políticas, eu bufava mais durante as tardes. E às vezes me dava soluço. Refluxo. Diarreia. Diarreia era muito comum.

Quando chegava a carta, minha velocidade se tornava um processo aleatório, e eu nem era capaz de perceber o passo depois do outro que me levava de volta para casa. O café era mais vibrante, a temperatura que ele fornecia à minha língua era mais densa, prenhe de contornos. O céu da boca amolecia de prazer.

Eu lia a carta, que era sempre de uma só página. Na letra, algum tremor que me emocionava.

Quando terminava, corria para preparar o café, e a hora do café era a hora da releitura, de espichar os significados dentro de mim, extraí-los da carta e dispô-los, um a um, como objetos da minha sala, como almofadas novas sobre o sofá, como quadros na parede. Era o momento de produzir alguma saudade.

Depois eu cheirava a carta, deixava-a sobre a mesa, como o destaque necessário da minha vida. Até vir outra carta. Ele sabia que eu precisava de uma notícia com cheiro, com itinerário.

Minhas respostas, geralmente de meia página que eu demorava uma tarde para escrever, uma noite para reler, outra tarde para passar a limpo, minhas respostas talvez ele as esperasse sem café, sem ritual, sem almofadas.

E respondia no seu tempo. Naqueles tempos. Em que as cartas eram mensais.

Hoje, ele não me escreve mais.


***

O texto foi escrito para o coletivo Caneta, Lente, Pincel, inspirado na fotografia de Danielle Schlossarek. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

segunda


segunda-feira e o prognóstico da semana, o recomeço sempre à espreita, o bote dos dias úteis. o metrô e seu humor negro diário, sua piada de mau agouro. as pessoas paramentadas de bolsas, documentos, rugas na testa. as pessoas e seus itinerários urgentes, intransigentes. as pessoas. ------- eu.

domingo, 27 de abril de 2014

Tédio





Maluco, bateu agora um tédio abissal, abismal, abstruso, abestado, absurdo, abilolado, abirutado, aberto, abjeto, abestalhado, abiscoitado, abnegado, abjurado, abusado, abesourado, abrilhantado, amarfanhado, amartelado, amarrotado, amarronzado, amarrado, apalermado, apatetado, apadrinhado, apagadaço, aparvalhado, avacalhado, empoeirado, empoleirado, empertigado. 

Podem apagar a luz.

(na foto, uma cena do filme Kapo, que ajudou a combater outros tédios.)

sábado, 26 de abril de 2014

sublingual


ela achava que sabia. mas só naqueles dias descobriu o que era dor. pensava em yuka, contava o tempo de um modo inaugural em sua vida, quanto faltava para completar as malditas 12h, a próxima dose do remédio. nunca olhara um analgésico com tanta gratidão. não tivera dor de dente, desconhecia dor de parto, e o quinto metatarso que quebrara em 98 era já café com leite. pensava em yuka, yuka, yuka, sentia a presença do corpo latejando nas frinchas da pele, pensava: eu tenho um corpo, pensava: que horas são, pensava: eu tenho mesmo um corpo, não é que ele está aqui?, coincide comigo, yuka, yuka, já tá na hora, comprimido ou sublingual? queria ambos.