segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Nebraska (resenha)


Sándor Ferenczi, psicanalista defensor da heterodoxia clínica, apontava que o conforto excessivo para aquele que ocupa a posição de analista é algo problemático: índice de certo engessamento e ausência de reflexão, a resistência é mais do analista do que do paciente, embora o conforto possa ofuscar tal percepção. Isso porque ocupar o lugar de analista, mergulhar no terreno afetivo e denso (a intensidade da experiência analítica) do campo transferencial não é nada fácil. O trabalho analítico se dá com pessoas em sofrimento, que buscam sofregamente respostas para perguntas às vezes impossíveis e, sobretudo, se dá com toda a complexidade que os vínculos e as relações afetivas detêm. Nebraska, filme em preto e branco de Alexander Payne (Os descendentes, Sideways) não fala de análise, inconsciente ou setting, mas trata exatamente dessa complexidade das relações e do quanto estamos o tempo inteiro ressignificando as figuras importantes de nossas vidas (assim como ressignificamos a memória e nosso próprio eu, o que pode ser considerado o trabalho básico de qualquer análise ou psicoterapia). Pude ver o filme com um grande amigo de faculdade, apreciador, como eu, do texto freudiano, dos autores da escola inglesa de psicanálise (em época na qual a moda carioca é a escola francesa) e dos teóricos das relações objetais (Balint, Winnicott, Ferenczi) e após a sessão fomos jantar no Fiorino, na Tijuca, conversando sobre o que podíamos considerar como sendo dificuldade em um acompanhamento psicanalítico. Nossa conversa em ziguezague girava em torno das relações e seus percalços, fossem com nossos pacientes, com nossos pares, ou aquelas retratadas em Nebraska, que, aliás, trata-se de filme tão rico que oferece múltiplos aspectos a serem examinados (o envelhecimento e suas perdas, a proximidade da morte, a sinceridade que a doença traz à comunicação humana, o esforço de aproximação entre pares), mas resolvo escolher um - o amor imenso de um filho pelo pai e a dificuldade de sua expressão, de sua realização – para me deter um pouco mais.
                Em Nebraska, Woody Grant (Bruce Dern) é um senhor alcoólatra e em início de processo demencial que acredita ter ganhado um milhão de dólares em uma propaganda enganosa de assinatura de revistas. Ele cisma que irá até Lincoln a pé e é encontrado nos mais diversos lugares, preocupando os filhos e a esposa (uma hilária June Squibb). Após tentar demovê-lo da ideia, o filho caçula, David (Will Forte), resolve acompanhar o pai na jornada a Lincoln, reencontrando familiares que não veem há muito tempo, acertando contas com o passado, revendo antigos cenários.
No início, o ressentimento em relação ao pouco caso que o pai tinha pelos filhos ou face a alguns possíveis ‘erros’ em sua criação, como quando Woody oferecia cerveja a David quando este tinha apenas 6 anos de idade, é o que há de mais relevante. Ross (Bob Odenkirk, de Breaking Bad), o filho mais velho, cogita interná-lo em um asilo. A viagem, porém, permite que a reconstrução da imagem do pai se dê aos poucos, pois David vai recolhendo, aqui e ali, elementos para a ressignificação da figura paterna. Alcoólatra, um pouco inconsequente, ensimesmado, hoje em dia rabugento, Woody foi uma pessoa amável, incapaz de negar um favor.  A jornada, que aos poucos reúne também o primogênito Ross e a esposa de comentários ácidos e impagáveis a respeito de tudo e de todos, evidencia o que antes não era claro. Ao final do filme, a respeito de sua cisma com o prêmio falso, Woody revela: “Eu queria deixar algo para vocês”. 
                O filme tem cenas hilárias, como a família extensa de Woody, em frente à televisão, presa de uma patetice sem precedentes, se deixando levar por tardes modorrentas em Hawthorne e programação insossa de televisão. O diálogo entre Woody, David, Ross e a mãe, quando resolvem resgatar um compressor antigo do pai, sublinha o nonsense, mostrando que a lucidez não é prerrogativa dos mais jovens, saudáveis ou sóbrios.
                Ao final, quando David, que faz tudo pelo amor e atenção do pai, resolve comprar a caminhonete que o interessava e deixá-lo dirigir, Woody retoma a dignidade que havia ficado para trás. Manda que o filho se abaixe e dirige pela cidade, sendo visto pelas pessoas que fizeram parte de seu passado, entre eles o sócio aproveitador e a ex-namorada simpática. Há uma tomada em que David o olha de baixo e Woody aparece grande, admirável, retomando a condução da direção não apenas do carro, como da vida. A cena é simbólica da relação do filho com o pai e sintetiza todos os esforços feitos por David ao longo do filme. Nebraska é despretensioso e calmo, e mesmo seus pontos fracos (a cena do soco, pouco convincente) não estragam a história.

                 Meu amigo disse em algum momento: não conseguimos ver nossos pais como pessoas. Talvez essa capacidade de enxergar as pessoas por trás das imagens que construímos delas seja uma dificuldade em qualquer relação, com nosso amigo mais próximo, com o chefe (especialmente com o chefe!), com o paciente. Em Nebraska, esse é o caminho do olhar de David sobre Woody, o de constante reconstrução. Woody, por sua vez, já se despojou de quaisquer imagens falsas a respeito de si mesmo. E, se apenas acredita no que lhes dizem, como David aponta em determinado momento, ao menos não se deixa levar por autoenganos.

Um comentário:

Danielle Schlossarek disse...

Que bacana, Vi! Adorei sua análise! Verei o filme esta semana!