sábado, 18 de julho de 2015


Se você fosse chamado a representar o Inconsciente, essa instância obscura colocada em teoria por Freud, e não houvesse como fugir da tarefa, como o faria? Um quadro de Bosch, de Salvador Dalí, um filme do Buñuel? René Magritte? Que imagens escolher? Você poderia devolver com uma pergunta: e por que não representá-lo com a música, dado que apenas ela pode indicar as moções que nascem e se movimentam no inconsciente, apenas a música pode dar conta dessa força propulsora que produz arte e loucura, sonhos e chistes?
Pois eu diria que, se quisesse representar o inconsciente, teria de unir imagem e música, e  já indicaria como opção o cenário e a iluminação do espetáculo Pulsões, que estreou dia 11 de junho no Teatro Poeira, com texto inédito de Dib Carneiro Neto e direção de Kika Freire, que mergulhou no pensamento da Dra. Nise da Silveira após ver um filme em que o assassino era perdoado e o louco não (não há mesmo perdão para a loucura). Cenário e iluminação, parceria fantástica dessa obra de arte que é Pulsões, já fazem com que o espectador se situe nesse terreno misterioso que é o inconsciente, nicho de associações impensáveis de ideias. Esses são os primeiros elementos da peça que fazem com que o espectador de fato se situe, se aproxime e sinta o cheiro do inconsciente, uma vez que só podemos conhecê-lo e supor que exista através de seus sinais (como o sonho, o lapso de linguagem), como assinalou Freud diversas vezes.
A atmosfera inicialmente rósea e os móbiles nela espalhados já transportam a plateia para essa ideia de que o Inconsciente é próximo a um terreno sem chão, desprovido da lógica conhecida, embora dotado de uma outra lógica, aquela que se constitui por associação de imagens e sons que podem nos chegar das formas mais insuspeitas. É como se a bailarina,  essa personagem louca que quer e não quer se lembrar, sabe e não sabe de si, e que já nos espera no palco, é como se ela pudesse acessar as imagens de seu inconsciente levantando o braço e tocando ou puxando um desses objetos, com suas mãos, tão lindas quanto perigosas: então ela toca uma esponja, como se tocasse uma lembrança, ela mexe em uma caixinha de música, como se desse corda a um raciocínio, ela balança uma outra bailarina e vai movimentando esses objetos como se eles estivessem sob seu domínio, mas sabemos que não estão, somos cúmplices de sua falta de controle, de seu horror, do vaivém de sua razão. Por outro lado, trata-se aí de um inconsciente a céu aberto, como é costume dizer da instância psíquica do psicótico. É possível vê-lo (o inconsciente) através das séries de imagens que ele revela em sonhos, em chistes, em produções gráficas, e era com isso que a Dra. Nise da Silveira trabalhava, filiada que foi à tradição junguiana.
Mas a música que acompanha o espetáculo Pulsões, esse sub-texto formado por piano, violoncelo e acordeón, e interpretados lindamente porJoão Bittencourt e Maria Clara Valle é outra maneira de aproximar a plateia das moções inconscientes (e também das emoções conscientes) que impulsionam os personagens, seu discurso e seus sintomas.
Do inconsciente, não se escapa, e é isso o que a peça mostra, cercando-nos, de modo completo e primoroso, por todos os lados: imagens, música, gestos e texto. Para Lacan, o inconsciente era estruturado como uma linguagem. Apesar de Kika Freire ter mergulhado na obra da Dra. Nise da Silveira para criar o espetáculo que tematiza também as fronteiras sutis entre arte e loucura, não podemos deixar de citar Lacan e a importância dada à cadeia de significantes. Teatro pode ser também texto, além de corpo, além de música, além de luz, teatro é voz e é palavra. Teatro é enunciação.
Assim, o belíssimo texto de Dib Carneiro Neto, interpretado com urgência por Fernanda de Freitas e Cadu Fávero, toca os temas principais da loucura e do Inconsciente, num diálogo que é dança entre a bailarina e o maestro. Nesse sentido, a ausência de linearidade e a menção à atemporalidade própria do inconsciente (“não há mais essa contagem”, dizem os personagens quando um deles se refere a horas, a passado, a futuro) mostra que não há antes nem depois, não há nexo causal. A bailarina diz que gosta de “evidências”, como “azulejo encardido”, mas não se lembra das evidências de sua história. O maestro indaga quando foi a “última vez que você morreu”, e se lembra da sua própria vez derradeira. A bailarina se incomoda com “polissílabos”, o maestro concorda que “está ficando puxado”. Ele a ajuda a se lembrar, mas acaba por admitir que também se esquece de si, enquanto se perde, fascinado, no corpo e na dança da bailarina. Ele a conduz e por ela é conduzido, ele é como o afeto catalisador (para usar o conceito da Dra. Nise de que uma relação afetiva acelera a cura) da bailarina, mas não deixa de ser também movido por ela, seu sentido da vida.
A voz cheia de força de Fernanda de Freitas a princípio traz um descompasso interessante em relação à figura frágil e delicada da bailarina que ela incorpora, um descompasso próprio da loucura e do estranhamento que dela se origina. A atriz é capaz ainda de interpretar o olhar ‘sem eu’ que é típico do sujeito psicótico que só quem já caminhou pelas alamedas de um hospício viu. Cadu Fávero, por sua vez, se mantém equilibrando-se na corda bamba de uma racionalidade que tenta conduzir os disparates e as emoções dentro de um possível tolerável, que tenta abrir caminho para memórias esquecidas, mas se dobrando a eles – disparates, emoções – ao final. Os atores e os músicos sustentam texto, música e espetáculo sem derrapar nos labirintos nodosos de uma obra densa e de forte carga emocional.
Muito mais poderia ser dito dessa peça primorosa. Mas esse é só o começo. Pulsões, esse espetáculo do Primeira Página Produções,merece ser visto e revisto.

Crítica teatral: Doidas e Santas em ótima reestreia no Imperator


No último dia 10 de julho, reestreou no Rio, no Imperator, o espetáculo Doidas e Santas, que fica na cidade até 26 de julho em curta temporada. A peça é estrelada por Cissa Guimarães, no papel de uma psicanalista em crise no casamento, e o texto de Regiana Antonini é livremente inspirado no livro homônimo de Martha Medeiros. A direção é deErnesto Piccolo e, na temporada atual, Oscar Magrini interpreta o marido da protagonista. A atriz Jose Antello, por sua vez, se desdobra interpretando a filha, a irmã e a mãe da protagonista.
No espetáculo, Cissa Guimarães está quase o tempo inteiro em cena, ora se questionando sobre a sua vida e escolhas, ora se relacionando com os outros quatro personagens: as 3 mulheres de sua família e o marido. Ela faz paralelos entre casos que atende no consultório, seus sentimentos em relação aos pacientes, mas, principalmente, ela se questiona sobre seu casamento e se pergunta se é feliz.
A comédia romântica consegue fazer a plateia rir ao retratar os tipos mais comuns de um casamento: o marido que só escuta e não quer falar, que encara a vida de modo mais simples, que talvez não seja capaz de entender por que a mulher faz tempestade em copo d’água e cuja felicidade pode se resumir a sentar no sofá e ficar com uma cerveja e um controle remoto em frente à TV, e que, além disso, acha a cunhada e a sogra um pouco doidas, tanto quanto a mulher; a esposa insatisfeita, que fala, fala, fala e não consegue obter nenhum eco de suas demandas contínuas, que não encontra respostas às suas perguntas e que talvez sequer encontre alguma consideração em relação a tudo o que verbaliza; a irmã, que mora distante e que leva uma vida completamente diferente; a filha adolescente que não tem paciência para os destemperos do casal de pais; e, finalmente, a mãe da protagonista (a sogra), que é uma figura de autoridade, imiscuindo-se na vida do casal, mas, ao mesmo tempo, demonstrando irreverência e bom humor.
É uma combinação convidativa, pois, como a protagonista diz, em certo momento, dirigindo-se à plateia, todos mais ou menos se identificam com alguma parte da história ou com alguns dos personagens. A comédia romântica é um ótimo programa de entretenimento.
Poderia ser ainda mais interessante se, intermediando as situações e algumas passagens do tempo, a protagonista não se dirigisse à plateia em tom de auto-ajuda, explicando-se e explicando a vida, o que, de certo modo, até possui o seu lugar se nos lembrarmos que a peça remete a um livro de crônicas e às reflexões que são inerentes a uma crônica como gênero literário. Entretanto, nos momentos em que Cissa Guimarães (ou Beatriz, sua personagem), reflete sozinha e ao mesmo tempo com a plateia, há ali algo de didático, como se o público precisasse de certa prótese de pensamento. Ainda que se possa deduzir ser uma referência ao livro de crônicas, talvez pudesse haver liberdade suficiente para pular esses pedaços, que se tornam excessivos na peça.
Mas os três atores estão ótimos e inspirados. Jose Antello está excelente nos papeis de irmã, filha e mãe. Cabe um destaque aqui para o momento em que interpreta a mãe de Beatriz, com suas exigências esdrúxulas quanto ao fim de sua vida. A plateia vem abaixo com seus trejeitos, maneiras de andar, tiques e com suas referências desarvoradas ao marido, já falecido. Também arranca risadas no papel da irmã, logo no início do espetáculo. Oscar Magrini também consegue arrancar risadas e aplausos, sobretudo quando, com muita dificuldade, consegue falar de seus sentimentos, o que, para o personagem, é um tremendo esforço. E Cissa Guimarães, orquestrando o vaivém de personagens e sustentando as pequenas modificações no cenário e interagindo com a plateia, explora bem a veia cômica que possui e na qual é boa.
A peça é um projeto idealizado por Cissa Guimarães, que convidou Maria Siman, da CPrimeira Página Produções para uma parceria, e seu desejo era encenar uma peça que trouxesse as questões que a atriz vive no palco através de sua personagem psicanalista: o difícil manejo de uma vida que conjuga marido, filho, família extensa, trabalho, beleza, lazer e todos os papeis que são exigidos de uma mulher. Ao fim e ao cabo, a plateia sai de alma lavada.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Resenha: O Susto de Saber-me Deste Jeito, de Daniel Seidl de Moura

O susto de saber-me deste jeito é um livro de poesia que o pessoal que escreve prosa deveria ler, porque o pessoal que escreve prosa (incluo-me entre esse pessoal) muitas vezes sente-se incapaz de produzir algum sentido diante de poesia ou, simplesmente, sente chiados no ouvido ao ouvir poesia. Mas O susto de saber-me deste Jeito, do Daniel Seidl de Moura, não chia. Não gera nenhum tipo de ruído estridente. É um livro que provoca impacto, o tipo de impacto lírico de quem aprecia o ofício da palavra. O livro possui três partes, Fumaça, Taxímetro Perpétuo e Susto, muito bem construídas. Aqui permito-me, por gosto, vontade e algum tempo, fazer as minhas construções de sentido face à poesia de Daniel Seidl. São minhas tais construções, são fruto de um subjetividade qualquer que posso traçar agora, por enquanto, sem contrato, mas, como todo bom livro, o texto aqui indicado se presta a muitas outras construções.

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segunda-feira, 1 de junho de 2015

Crítica teatral: 2 x 2 = 5 O Homem do Subsolo


Tudo começa estranho. Sorrateiro. Nebuloso. A plateia vai entrando no teatro do Espaço Sesc, descendo a rampa que dá acesso ao teatro de arena, em Copacabana, tentando enxergar o caminho à frente, mas a nuvem de um subsolo lôbrego já nos insere em um clima curioso, que se encaixa como luva na proposta da peça. Não há instalação melhor para o texto que iremos acompanhar e para os desvarios desse homem do subsolo. No centro do palco, lá está ele e sua barriga imensa, deitado sobre a mesa, resfolegando, esse homem que não hesitará em nos olhar nos olhos, nos apontar as miudezas que queremos deixar de lado e que vai descascar, minuciosamente, as camadas que nos fazem pessoas de bem, ou de bom gosto, ou de bom senso, para chegar enfim a algum âmago perturbador. É assim o início da peça 2×2=5: O Homem do Subsolo, de Memórias do Subsolo, texto igualmente lôbrego desse russo que nos encanta e nos assusta, esse Fiódor M. Dostoiévski.

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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Crítica teatral: Paraíso Zona Sul


A peça Paraíso Zona Sul está em cartaz em sua última semana, no Teatro da Sede das Cias, no bairro da Lapa. O texto inédito, de Jô Bilac, com direção de Nirley Lacerda, é uma costura de fragmentos que têm como temática encontros e desencontros, esquetes em que a histeria e o histrionismo dos personagens, confrontados com impasses e fraquezas, parecem ser a única maneira que encontram para lidar com situações-limite.
O histrionismo parece, então, ser a linguagem e a solução, em suma: uma ferramenta de comunicação. Referências a Nelson Rodrigues dão um toque especial a alguns desses esquetes, e a cidade é o que parece ligar cada um deles, representada por marcas no palco que remetem a Dogville, do cineasta Lars Von Trier, que, por seu turno, também remete ao teatro. O Grupo Fragmento tem a atuação de Ana Carolina Dessandre, Carolina Ferman, Diogo de Andrade Medeiros, Elio de Oliveira e Monique Vaillé, que se desdobram com engenhosidade para dar corpo e voz aos dezessete personagens do espetáculo.
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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Apreciação sobre a peça Grand Théatre Pão e Circo: um espetáculo


Grand Théâtre Pão e Circo, peça em cartaz durante este mês de maio no aconchegante Teatro da Sede das Cias, na Escadaria do Selarón, no bairro da Lapa, é um espetáculo. E isso não apenas por ser baseada no texto crítico de Guy Debord, o clássico A Sociedade do Espetáculo.
A peça começa com um grande alarido, uma sacudidela que inaugura os primeiros momentos do espetáculo, colocando a platéia pronta para um mergulho nas imagens projetadas no palco e para o monólogo que alterna diversas vozes e perspectivas na excelente atuação da atriz Carol Kahro, que é também a diretora e roteirista. A partir daí, tudo é irreversível: o texto, forte, nos coloca o tempo inteiro em frente a nós mesmos, porque nós mesmos somos os outros, nós mesmos somos cada um de nós, nós mesmos somos aquilo que não queremos ver de nós mesmos, nós mesmos somos Madalena, Zé Felipe, Das Dores, Carol, Marcelo, Eliesér e até Sílvio Santos nos recortes audiovisuais projetados nas telas espalhadas no cenário, nós mesmos somos o que é possível e, sobretudo, somos os componentes dessa sociedade imagética que, cada vez mais, se sustenta em eventos espetaculares (e especulares) do belo e do horrível, do espantoso e do insípido. Cada vez mais, trata-se, esse “nós mesmos” dificílimo de definir e resumir, de uma trilha de selfies onde todos viram celebridades de seus próprios mundos, onde suas biografias, editadas nas redes sociais, têm todo o brilho que a lente de um filtro do instagram ajuda a conferir nessa fuga desesperada da monotonia, do tédio e da solidão.
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sábado, 2 de maio de 2015

Cartoondelia, de Johandson Rezende (resenha)



Foi só agora, em abril de 2015, que o cartunista, quadrinhista e desenhista Johandson Rezende lançou sua primeira coletânea de quadrinhos, Cartoondelia, pela Editora Oito e Meio. O título, a junção das palavras ‘cartoon’ e ‘psicodelia’ são a perfeita síntese da forma e do conteúdo dos quadrinhos do artista. Aos que acompanham seus trabalhos, projetos e eventos há mais de uma década, foi o momento de dizer “até que enfim”. O livro, uma joia belíssima que dá gosto de ter em mãos, permite a organização das histórias que o desenhista não se cansa em espalhar pelo mundo (mais ainda depois do advento das redes sociais). Como bem escreve na orelha do livro o crítico de cinema Rodrigo Fonseca, “O poeta Johandson faz poema com nanquim, canetinha, grafite e lapiseira”.

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terça-feira, 7 de abril de 2015

Débito


Foto: Aline Germano

O máximo grau do esquecimento, a poeira sobre objetos cansados, o pó, o chão, de tudo aquilo, o que eu era? Utensílios sem sentido, sentido sem gancho, um emaranhado de coisas sem nome, um esparramado de dúvidas abertas. A sobra de tudo, o resto disforme pronto pra uso, a tinta seca, o desenho sem cor, e que mais?, e que mais?, e até quando?, e até quando? Eu era, quem sabe, e aí sim fico na dúvida, uma paisagem desconexa, o desejo de fazer coisas impossíveis, a própria impossibilidade das coisas. Mas também, e mais que tudo, o desejo atrelado ao chão, o chão derramado na cidade inteira, eu era interinamente a cidade raspada da geografia oficial. Eu era, sem dúvida alguma, era só dizê-lo assertivamente, eu era o relógio que engolfa em sua bocarra de ponteiros insanos o tempo cada vez mais anêmico. E não se trata do meu tempo, do seu tempo, do nosso tempo, o tempo não se sujeita a pronomes possessivos. Meu eu obsoleto, esse sim assujeitado, perdido entre a anemia que palpita em cada uma das coisas inertes, meu eu, menor que o tempo, magrinho, bambo, trouxa, meu eu, até que se prove o contrário, é a lona em cujo regaço tudo descansa, um monte de troços podres e trôpegos pedindo perdão. E não só, mas também: a espera por um destino melhor, a ânsia pelo desejo de alguém, a bolsa vazia, o vazio da bolsa, o fecho estragado. O caos, o desinteresse dos transeuntes perdidos, a lata de lixo mais próxima, o cenário triste de um comércio decadente. A decadência assumida e irrestrita, era isso o que eu talvez fosse e (pasme, mas pasme em silêncio) negociava, esse eu escancarado, esse eu desdentado, pedaços perdidos de mim, partes esfaceladas, unhas roídas. Eu era a incerteza confessa, o horror aos guardados imundos. 

Eu era, e agora falo sério goste-se ou não, a capacidade de jogar tudo fora. Eu era, e falo sem ironia, a capacidade de dar as costas a tudo. Se alguém perguntasse, eu diria, convicta, sem delongas, que sim, sim, com certeza: aceito cartão de débito. E divido em cinco vezes.