quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Inauguração (conto para o Clube da Leitura de 2 de fevereiro de 2016)




Que eu soubesse, que eu lembrasse e que me dissessem, nunca havia matado ninguém. Não à vera, ali, no concreto da arma na mão, da faca decepando peles, ligas, tendões, miolos, não no concreto da vontade que faz com que os músculos se fortaleçam em um só golpe, ou em vários, tanto faz, mas certeiros, provocando o resultado de uma morte, que, de resto e como todas, é irreversível. Não, que eu soubesse, que me dissessem, que minha memória me sinalizasse, eu nunca havia matado ninguém, não ainda, não até ali.

Há um momento de inauguração na vida de todo mundo. E em qualquer âmbito dela. E, depois da inauguração, é a vez do inventário. Inventário de escolhas passadas.

Éramos casados há dezenove anos. “Dezenove anos não é nem tanto tempo, vai.” Essa foi minha consciência falando para uma parte dela mesma. “Não dá tempo de os ressentimentos se tornarem ressecados, mas doídos. Não dá tempo de tragédias inúmeras terem se amontoado entre as colchas e as fronhas da cama de casal, de acontecerem em cadeia deslealdades bem maiores que traições.” Minha consciência 1 tentava argumentar, mas a outra parte dela, a consciência 2, podia retrucar dizendo que o tempo é relativo. Que o ressecamento de um ressentimento é sempre subjetivo, e muito inexato, impossível de medir ou calcular.

Pois bem. Eu o conheci, meu ex-marido, com treze anos. Ele tinha quinze e já me paquerava. Era da turma do meu irmão mais velho. Eu o ignorava porque ainda brincava de Barbie. Depois ele sumiu. Eu o reencontrei na prova de vestibular. Ele não havia passado para medicina. Na falta de opção, de não saber o que fazer da vida pelo resto da vida, eu tentava comunicação, e ele também, na falta de sucessos anteriores. Passamos para a mesma faculdade. Na choppada, uma tentativa malfadada de me seduzir. Eu o ignorei, mas lá pelos últimos períodos, nos beijamos pela primeira vez. Gostei. Ficamos saindo. Mas eu não pretendia nenhum tipo de elo duradouro, ele não era tanto, não me bastava. Foi só aos 24 anos que começamos a namorar. Neste inventário que procuro fazer, não sei apontar o motivo que me persuadiu a namorá-lo. Talvez eu estivesse cansada de outras tantas histórias anteriores que me desgastavam a pele, a nuca, a vontade, o desejo, a crença no ser humano, a boca, a língua, histórias prévias que me usurpavam as digitais dos dedos de carinhos que não mereciam o destino que os recebia, homens cafajestes ou abertamente imbecis. Por que não tentar com ele já que, se não era isso tudo, beijava bem? E foi aos 27 anos que resolvemos casar. Portanto, aos 46 anos de idade, eu tinha 19 anos de casada, mas meu percurso com ele contava 33 anos, uma convivência extenuada. Tratava-se, eu sei, de uma aritmética que fazia mais sentido para a consciência 2, aquela que mataria sem dó, mas que não convencia a consciência 1, aquela que se horrorizava consigo mesma. 

Mas não era só a convivência extenuada. Era vê-lo agindo no mundo, gabando-se de feitos bambos, roubando frases que outras pessoas haviam dito, assumindo ideias geniais que não, não, não eram suas, reclamando com os garçons e sendo grosseiro ainda que controlado, sem contar o fato de ser um jornalista que escrevia bem mas que havia se acovardado diante do desejo antigo de cursar medicina, e o ronco à noite, a apnéia do sono, a flatulência aos domingos, mas não que cada uma dessas coisas fosse motivo suficiente para não querê-lo perto de mim, nem que todas essas coisas juntas constituíssem um rol de motivos necessários. Ele também havia ficado com a Marcela, minha ex-melhor amiga, num revéillon que passamos em seu sítio, e havia cortejado a Luana, que teve uma conversa sincera comigo. E quando o fez - quando eu soube - ele já era uma presença irreversível na minha vida, já era quase impossível renunciar a ele, pois de todos era o que melhor beijava, era aquele cuja pele melhor se adequava à minha, e cujo cheiro me fazia falta quando ele viajava a trabalho, era aquele que insistiu por anos e, quando conseguiu, inverteu a ordem das urgências, das necessidades e dos desejos. Ele representava a única possibilidade, mesmo que eu dissesse que não. Ele era uma espécie de beco sem saída. Um arremedo de felicidade que eu havia construído em minha própria vida, que dizia me amar e que, eu soube dias antes dessa última declaração, havia comido a dona Ester, síndica do nosso prédio. Puta que pariu!

Nada disso justificava, por mais que a consciência 2 se esmerasse em explicar à consciência 1, o motivo de seu afã em acabar com tudo aquilo. O mais certo seria pedir o divórcio. O mais óbvio, o mais rápido. Mas o divórcio não mata uma história. Não dá conta de decepar um nó górdio, não extirpa tumor nenhum de canto algum. O divórcio e a lei não bastam. E não inauguram um rompimento que, às vezes, mesmo que inexplicável, é a única possibilidade de uma vida e é o único desaguadouro legítimo de uma paixão. Um rompimento que requer uma tesoura afiada.

Que me dissessem e que eu acreditasse, antes daquele dia, não havia matado ninguém. Mas quando aconteceu, não parecia uma inauguração. Foi como se eu sempre soubesse o caminho, como se tivesse nascido para aquilo, como se sempre soubesse a melhor forma de executar o procedimento. Foi sem demora, sem volta e sem arrependimento. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Livro: Caralho A4, de Sara Victoria


“Difícil é competir com a realidade”. Esta é a frase de Sara Victoria que abre o Caralho A4, livreto cujo texto é ladeado pelas ilustrações da própria autora. Sara nasceu em Berlim, na então Alemanha Oriental, e veio para Salvador, onde se fixou, depois de passar por Londres e São Paulo. É artista plástica, e Caralho A4 é sua estreia literária. Aliás, o livro, enquanto objeto que se pega na mão, se toca e se manuseia, já é interessantíssimo por si só. Pertence à coleção Cartas Bahianas, é do tamanho e formato de um envelope, e sua capa é vermelhíssima. Foi lançado em 2014, em Salvador, pela P55 Edições e é um convite à leitura, pelo menos para quem gosta de livros de bolso, como eu, que os prefiro mil vezes a qualquer belíssimo e lustroso livro de capa dura.
Os contos que Sara nos apresenta são mesmo árduos, quase tanto quanto a realidade, e pode-se dizer que têm em comum com ela, a realidade, certo aniquilamento existencial e psíquico diante de uma vida que se parte em restos. Essas narrativas curtas são árduas sim, mas não deixam de ser engraçadas e surpreendentes a um só tempo, porque se a realidade sempre está no pódio ocupando os três lugares, ela também faz rir e surpreende. É absurda, irônica e hilária, ainda que aniquiladora. Portanto, Caralho A4 é um livro leve, e nisso ganha da realidade, ouso dizer.
O tema do resto e a presença do cigarro são uma constante nesse opúsculo carmesim. O primeiro conto, o genial ‘O Cara vale’, trata exatamente de um resto de vida e do valor dos restos fisiológicos, bioquímicos e físicos, digamos assim, do corpo humano. O protagonista que nos guia em sua saga parece estar nas últimas de si mesmo. Ele é o resto em si, o puro resto, o arquétipo que condensa todas as sensações que poderiam ser ligadas a esse conceito vago e sofrível. “Sentindo-se um resto de ser, com resto de café, resto de cigarro, deparava-se com um resto de jornal”. O jornal aos restos que o Cara encontra largado traz boas novas: então algumas enzimas suas podem valer dinheiro? Há substâncias biológicas que circulam em seu corpo que podem ser traduzidos em valor monetário? Talvez haja uma solução no fim desse tão comprido túnel, e ele, o Cara, corre atrás dela, entusiasmado, alcançando insights em cascata em seu percurso até a clínica que pesquisa as enzimas através de testes e mais testes. Esse protagonista que espera recuperar sua vida vai imaginando seu valor no corpo: “Temos um preço, viva a ciência!”.
É possível dizer que esse primeiro conto, com sua veia de humor e desespero (aliás, um humor que só é passível de caber no desespero, e cuja função precípua é afrouxar a camada de espinhos que todo desespero contém), é uma espécie de crônica dos nossos tempos: a vida difícil e sem sentido que muitas vezes levamos (tão próxima à vida nua, de que nos fala Agamben, em seuHomo Sacer), uma vida que só adquire significado através de um preço, o qual, por sua vez, está diretamente relacionado à ciência, ao concreto, àquilo que se toca, que se mede, que se pode decupar em números e unidades, que se pode catalogar em manuais fáceis de ler e, de preferência, resumidos, poucas páginas, poucas linhas, texto em formato de lista. E, mais ainda, o valor que confere sentido à vida-resto que levamos, que o Cara leva, ele, seu cigarro e seu jornal, é dado pela medicina, pelo saber médico, sem simbolismo algum. Há trechos brilhantes especificamente sobre esse ponto: “Até que chegou a hora dos resultados. Estava feliz. Saberia finalmente o seu valor exato, tabelado por uma junta médica da mais alta competência.” O motor que move o personagem e o faz correr atrás de alguma coisa é o dinheiro que seu corpo (ou as substâncias que ele produz) pode adquirir. Não é estranho? Ou já faz parte da normalidade? Ou estranha sou eu?
Para dar mais um exemplo específico da literatura de Sara Victoria, tenho de mencionar o quarto conto de Caralho A4. O texto, que ajuda a constituir essa unidade literária cujo mote é o miserê em que a alma humana às vezes se atola, traz um operário exausto que não se reconhece em sua família, seus filhos, sua casa. Há um estranhamento que o leva a se perguntar quem são aquelas pessoas ao seu redor, quem é aquela mulher que o recebe afetuosa, há um estranhamento que o faz abaixar a cabeça, na falta de reação melhor e de afeto recíproco. A narrativa, aqui, é permeada pelo incômodo como resultado do que encontramos de tão propriamente nosso refletido no outro. A mulher é um estranho familiar, tão próprio do Unheimlich freudiano. No texto traduzido para o português como O Estranho, Freud nos fala da estranheza familiar que encontramos no outro e que nos assusta, por ser um irreconhecível que nos pertence, que é tão inequivocamente nosso, um irreconhecível que seria reconhecível se não fosse tão assustador. O personagem de Sara Victoria não sabe mais quem é essa mulher com quem divide a vida, a família, a casa e os filhos, essa mulher que engordou tanto e que pode ter se tornado outra pessoa. Mas, à medida em que se torna outra, ela acaba por indicar a possibilidade de que ele já não seja mais o mesmo. A mulher é um índice do que ele pode ter se tornado, tão ele, tão outro. “Toda a poeira da casa começava a se incrustar em mim. Será que hoje me pareço com eles?”, é o que se pergunta, desolado, enojado, o protagonista.
Eu dizia, à guisa de conclusão, que o cigarro é uma constante nos contos de Caralho A4, junto com a temática do resto. Sim, o cigarro está sempre presente, sobretudo fechando algumas das histórias. Ele é frequentemente uma solução, uma companhia ou o galho que nos impedirá de afundar entre as mágoas guardadas e a vida que nos pertence mas que não mais reconhecemos como nossa. Deve ser por conta desse miserê, da realidade sempre ganhadora (e avassaladora), do vazio que emoldura o território sobre o qual caminhamos, e também por conta de certos inventários que por vezes fazemos de nossas vidas e que levam a frustrações frequentes, deve ser por conta desses elementos, distribuídos pelo livro com ironia e humor, que o cigarro está sempre perto. Ao alcance da mão ou como objeto a ser procurado na vizinhança. O cigarro que sempre fumamos, que nunca havíamos fumado e que iremos, por que não?, acender pela primeira vez. Resumo da ópera: leiam Caralho A4. Dói absolutamente menos do que a realidade.

Livro: Enquanto nossos meninos dormem, de Renato Lemos


Enquanto nossos meninos dormem, lançado pela Editora Oito e meio em 2015, é genial. Essa é a palavra que, a meu ver, melhor o define. Renato Lemos, estreando em livro de contos, estava inspirado quando os escreveu.
O livro reúne histórias cujos protagonistas, em sua maioria homens descasados, tentando aproximações às vezes desajeitadas com os filhos, as filhas, que metem os pés pelas mãos com frequência, carregam um quê de cinismo e olhar aguçado da vida e de si. E é por isso que são textos que fazem rir. Ou sorrir largamente. São personagens que se assumem enquanto cínicos e frágeis, se envolvem em situações complicadas e nem sempre conseguem sair delas facilmente. Os diálogos têm a medida certa e são muito bem-feitos, o que é outro mérito que se pode apontar na obra.
Assim, temos por exemplo o personagem que é servidor público de cartório e que está sendo investigado em esquema de ilicitude. Ele é condenado a certo opróbrio dentro do próprio trabalho, os colegas, em sua maioria, abaixam a cabeça quando ele passa (isso quando não acontece de passarem à agressão verbal), os policiais querem que ele entregue mais informações do que ele diz ter, tudo conspira contra ele. No entanto, em meio a essa crise pessoal e pública, da qual ele tenta poupar sua mulher, o personagem não economizará esforços para proteger o enteado de um bullying violento que o menino vem sofrendo no colégio.
Com a máscara de carnaval da Dilma Rousseff, é capaz de dar uma lição a quem está direta ou indiretamente envolvido no esquema de constrangimento diário a que é submetido o filho de sua esposa. Ou, então, em outro conto, temos um homem cujo pai começa a mostrar os sinais de uma demência que coloca muitas memórias em risco, mas não aquela que consagra a um lugar especial, único e incomparável em termos de beleza, certa região muito particular do corpo de sua mãe.
Algumas homenagens literárias também compõem essa obra, como a William Blake e Adélia Prado, mas o penúltimo conto do livro traz a mais engraçada e brilhante homenagem: a que Renato Lemos faz a Rubem Fonseca. O conto, cujo título já começa muito bem, No cu, pardal (ou o amor segundo Rubem Fonseca), temos um personagem absolutamente obcecado pelo romancista, um advogado que também se permite suas aventuras literárias e que acalenta o sonho de se tornar reconhecido por sua criação ficcional, a qual deseja imensamente compartilhar com seu ídolo. Mas todo amor e toda devoção podem também se transformar em ódio, e o final de No cu, pardal é absolutamente sensacional. Aliás, este conto e Adélia Prado fecham com chave de ouro essa obra que merece destaque entre os lançamentos nacionais mais recentes.
Enfim, os doze contos de Enquanto nossos meninos dormem são dinâmicos e seus personagens são interessantíssimos. Não há enrolação no que eles têm a nos dizer. Os personagens vão diretamente ao ponto, não seguem o ideário politicamente correto que, por vezes, corrói as nossas vidas e a liberdade de pensamento. E, acima de tudo, trata-se de personagens que vão tentando seguir em frente, aos trancos e barrancos, um passo depois do outro, deslize atrás de deslize.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Por que assistir a Táxi Teerã, do iraniano Jafar Panahi?


O novo filme do diretor iraniano Jafar Panahi (O Balão Branco, Cortinas Fechadas) é um emblema de como criar estratégias para dar continuidade àquilo que deve ser feito, mesmo que uma proibição estapafúrdia o queira impedir.
Panahi, condenado à censura em seu país, primeiro não pôde filmar e sair de casa. Havia contornado o problema filmando Isto não é um filme (2011), que tematizava exatamente o impedimento de uma potência de vida, muito mais forte por conter a proibição da própria vida somada à proibição da criação que, neste caso, é o único ofício de um homem, o sentido de sua vida. Proíba um escritor de escrever, proíba um desenhista de desenhar, proíba um cuidador de cuidar, proíba qualquer pessoa de falar, e veja o que acontece. Proíba um cineasta de fazer filmes e ele fará Isto não é um filme, como é o caso de Panahi, que, com isso, conseguiu veicular sua história para além das fronteiras rígidas de seu país.
Com Táxi, ele pode sair, circular, interagir, ver a cidade, retomar os percursos de vida que qualquer um tem a cumprir (e quer cumprir), e aproveita para criar um filme interessante, que se apresenta como um documentário, inicialmente, para, não muito depois, mostrar-se novamente um filme metalingüístico que coloca em questão sua definição, mas que, em aliança com o espectador, define-se claramente como ficção. Uma singular ficção.
Assim, o diretor improvisa um táxi e, pelas ruas de Teerã, vai pegando passageiros aleatórios para, na seqüência, transportar pessoas conhecidas. São encontros interessantes, rápidos e cômicos. São encontros fortuitos plenos de mensagens, com referências a filmes do próprio autor e a dilemas do país.
Uma discussão política, um vendedor de filmes piratas que questiona o próprio filme em que é personagem (real ou fictício?), um acidente e a quase-morte, mulheres absurdas transportando um aquário caricato com dois peixes, mulheres essas que devem cumprir um determinado ritual que, se não for realizado, pode significar a morte de ambas (referência a O Balão Branco). E uma mulher bonita, advogada, que carrega flores bonitas para outras mulheres, presas por tentarem ir a um estádio. Antes de partir, ela deixa uma rosa no táxi de Panahi e a dedica a todas as pessoas que amam cinema. A rosa, a partir daí, vira a moldura da tela no itinerário final do táxi-filme, cuja câmera volta-se para as ruas que estão sendo percorridas, mostrando agora a visão do motorista.
Nesses caminhos percorridos pela câmera, Panahi levanta alguns problemas essenciais: a censura na criação de filmes no país (que representa a censura em todos os outros âmbitos da expressão e da comunicação humanas), a situação das mulheres iranianas, a excessiva e adoecedora crença religiosa, as proibições que assolam o país, as punições direcionadas àqueles que burlam as regras e as formas que são encontradas para delas (das proibições) escapar, quais sejam: greve de fome, filme no táxi, venda de filmes piratas e por aí vai.
Desse modo, o filme mostra, sem precisar escancarar sua temática, a questão básica da ausência de liberdade. E que diante de uma ausência maior de liberdade política e coletiva, é a liberdade interior, de pensamento e de afetos, de sua expressão, da fabricação de subterfúgios que propiciem sua veiculação, é justo essa liberdade interior o que pode construir microcosmos de pequenas liberdades que permitem que a vida se sustente tolerável entre uma proibição e outra. Que se sustente, acima de tudo, vivível.
E é por essas razões e pela veia política de Panahi, uma marca que acompanha o diretor há algum tempo, que devemos assistir a esse interessantíssimo Táxi Teerã, que levou o Urso de Ouro no último Festival de Berlim. E também por sua cena final, que enfatiza o fato assustador de que a liberdade de expressão é sempre algo que se pode perder quando menos se espera, em qualquer lugar, quando nem se pode imaginar, e não apenas no Irã. Talvez pudéssemos pensar que a perda iminente da liberdade seja um aspecto inerente ao conceito geral de liberdade. Liberdade é aquilo que sempre pode nos ser tirado.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Filme: o excelente 45 anos


Andrew Haigh, diretor e roteirista britânico de 45 anos, retrata com paciência o dia a dia da semana que precede a festa de comemoração dos 45 anos de casamento de Kate (Charlotte Hampling) e Geoff (Tom Courtenay). Tudo começa bem e rotineiro: caminhadas com o cachorro, a rotina dos remédios, idas à cidade, compras, mas uma carta muda a vida do casal. Geoff recebe a notícia de que uma antiga namorada, morta em acidente nos Alpes suíços, tem seu corpo congelado redescoberto. Geoff tem a opção de ir à Suíça ver o corpo, desaparecido há mais de 45 anos. Tudo o que ressurge a partir da carta e a mudança visível no jeito como Geoff leva a vida – como se ele também tivesse sido redescoberto ou pudesse finalmente, e por gosto, redescobrir-se – é que poderá se tornar um divisor de águas do relacionamento nessa semana tão crucial para o casal.
Muitas perguntas são suscitadas por esse mote: há 45 anos Geoff convive com essa lembrança paralela à vida compartilhada do casal ou ela foi desenterrada só agora de algum escaninho empoeirado de sua memória, como um doente acamado que sai do coma e volta à vida querendo recuperar todo o tempo perdido? Os segredos que Geoff mantêm escondidos de Kate (e que ela vai aos poucos, silenciosamente, descobrindo) seriam uma traição? Talvez Geoff nunca tenha saído ou flertado com uma mulher durante dos 45 anos de relacionamento com Kate, mas o que cultivou em relação à Katya, a moça morta que se torna idealizada desde então? Kate, como atual esposa e viva, está sempre à sombra da primeira mulher amada, morta? E, finalmente, Kate está comemorando exatamente o quê nessa festa de 45 anos? Se era certa, anteriormente, que se tratava de uma celebração da vida a dois, de um percurso significativo de companheirismo e amor, agora já não podemos ter certeza, Kate já não pode estar segura em relação a isso.
Há, além de tudo, a expectativa dos amigos em relação à festa, ao discurso de Geoff e às emoções que ele deixará ou não visíveis. A amiga de Kate a relembra o tempo todo das lágrimas de seu marido na festa de 40 anos e está convicta de que o mesmo ocorrerá com Geoff, porque os homens acabam sendo os primeiros a se emocionarem, segundo ela.
Alguns spoilers daqui em diante
O que Kate vai percebendo, sem, no entanto, ter coragem de expressar verbalmente ao marido, é que tudo o que eles não tiveram (e as escolhas que fizeram a dois nesse percurso de quase 50 anos), pode ser fruto das escolhas anteriores de Geoff com Katya. Afinal, Kate se dá conta de que eles não têm fotografias dos momentos marcantes ou cotidianos de suas vidas, mas no sótão da casa descobre as fotos que ele tirou, incansavelmente, de Katya. A quantidade de fotos que ela descobre denunciam quase a sacralização (ou devoção) de Geoff em relação à mulher morta. Mas por que será que Geoff nunca se preocupou em tirar fotos de Kate?
Além disso, Katya aparece grávida em uma delas, e Kate nunca poderá ter certeza (mas a probabilidade é grande) de que o filho seja de Geoff. Um filho que nunca nasceu e que talvez esteja congelado com Katya nas montanhas geladas da Suíça. E, finalmente, um detalhe que não é mencionado no filme mas que fica como mais um indicativo de que uma está à sombra da outra, e que tudo na vida do casal é secundário ao breve relacionamento anterior e de trágico final: trata-se da semelhança de nomes entre as duas. Katya é a primeira amada, idealizada, jovem, congelada, desaparecida, mãe de um filho de Geoff. Kate é a segunda, atual, viva, companheira, sem filhos, que zela por sua saúde e que quer brindar a vida a dois.
Trata-se de um filme excepcional, que permite o acompanhamento das minúcias a vida desse casal e das mudanças ínfimas, mas significativas, na percepção que um tem do outro.
O casal de atores britânicos foi premiado com as melhores interpretações do último Festivalde Berlim, o que de fato é merecido. Charlotte Hampling consegue se manter sua personagem em uma periclitante posição que mescla contenção de emoções, ciúme que mal consegue disfarçar e uma crescente insegurança. Já Tom Courtenay consegue manter seu personagem vago em relação ao que sente atualmente em relação às suas memórias, àquilo que viveu com  Katya e a sua consideração face à atual mulher.
Para um final tenso, em que não se sabe a que se devem as lágrimas do marido no discurso da mulher: ele de fato ama Kate (é o que provavelmente ela se pergunta, e que talvez já tenha certeza de que não), e chora por isso, por esse amor, ou chora pela saudade e por tudo o que viveu com Katya, há 45 anos? Qual é o significado dessa festa para cada um deles, Geoff e Kate? Luto ou renovação dos votos?

manejos sutis de mínimos brilhos

e é uma pena que as pessoas não percebam os manejos sutis (de mínimos brilhos) dos processos de privatização que assolam todos os âmbitos dessa nossa vida coletiva. não percebem que as Organizações Sociais (vulgo OS) e as terceirizações no serviço público são maneiras de privatizá-lo que avançam pelas beiradas, pelas bordas, pelos cantos, como quem não quer queimar a língua ao comer o mingau da tarde, e é sempre assim como quem não quer nada, e com os piores dos argumentos, sobretudo aqueles que usam a população. e a população - eu, tu, ele, nós, vós, eles - reforça inocentemente toda essa prática sonsa dizendo que a UPA de perto de casa sempre funcionou muito bem e não tem do que se queixar ou de que a Clínica da Família está funcionando. não sabem da rotatividade de funcionários porque, mesmo ganhando mais, é uma merda trabalhar pelos contratos das OS que administram as contratações dessas clínicas. a saúde do trabalhador que tem contrato nesses cantos vai pro brejo e ninguém vê. e é um pena que no serviço público, mesmo sem privatização direta e voraz, é definitivamente uma pena que as pessoas cada vez mais se comportem com a lógica das empresas, porque têm medo de falar e porque são manipuladas. o medo é tão explícito que dói nos olhos de quem vê. minha vista fica cansada antes dos quarenta. e as pessoas, muitas, muitas, muitas, não entendem que a estabilidade de um servidor público serve para evitar perseguições e a perseguição se faz por qualquer razão e acontece. é uma pena que ainda haja quem defenda qualquer tipo de serviço privatizado ou os cegos e surdos (quem dera fossem mudos) que nada enxergam, e é exatamente por isso tudo que fiquei tão feliz com essa notícia de que a UFRJ está montando grupos de trabalho para discutir a tragédia de Mariana e adjacências, isto é: a tragédia do Brasil. é a universidade pública, não privatizada mas com processos sorrateiros de privatização através de terceirizações impublicáveis, é exatamente ela que está tentando discutir a tragédia do Brasil

resumo de 2015

resumo: está todo mundo louco, todo mundo fala cuspindo de ódio, os perdigotos de saliva, quando se acumulam, ficam enormes e espessos e enormes e espessos, e impedem a visão, e a visão, quando distorcida, atrapalha a audição, a audição é muito mais leitura labial do que qualquer outra coisa, então a consequência lógica imediata de uma produção massiva de perdigotos de alta densidade é que, não, ninguém se vê e ninguém se escuta, e o som chega com ruídos.

solução: desligar a tevê, não comentar nenhum post no facebook, virar a cara para qualquer capa de revista jornal tablóide, sorrir sempre, dizer 'obrigado', 'por favor', 'deus lhe pague', sorrir muito e largamente mesmo que a cor do sorriso seja amarela, e sugere-se também colocar freshtears nos olhos para abrir os caminhos do enxergamento, e dormir bem, muito bem, no ar condicionado de preferência, com blecaute na janela e, se possível, bem mais do que oito horas, essa média de oito horas só pode ser invenção do capital que quer que você durma pouco para trabalhar muito, e que se sinta culpado caso tenha sono após oito horas de sono (quer um segredo de brinde? - oito horas é sempre pouco diante do esmagamento diário a que somos, nossos perdigotos e nossas vidas, submetidos, oito horas não dão conta da reciclagem existencial que eu tu ele carecemos diariamente), então durma durma durma bem mais do que oito horas, pelo menos dez, no mínimo doze, pouco sono aumenta a cegueira que aumenta a raiva que aumenta a surdez que aumenta a produção de saliva que aumenta o volume dos perdigotos que aumentam a probabilidade de ninguém se entender.

no mais: boa noite.

a lista de 2015


eu queria fazer uma lista, qualquer lista, que fosse dos dez melhores livros deste ano, mas não li dez livros inteiros e, se os li, seriam todos juntos os melhores, então talvez as dez melhores peças, quem sabe os dez melhores filmes, os dez melhores encontros ou os dez melhores reencontros de 2015, ou então as dez melhores notícias ou, por que não?, as dez melhores piadas. as dez melhores tardes de sábado, e dessas haveria muitas, ou quem sabe as dez perguntas que ficaram sem resposta. poderia ser uma lista das dez noites menos angustiantes ou os dez contos que eu gostaria de ter escrito. poderia ser uma lista das dez brigas mais contundentes, ou das dez discussões de ideias mais proveitosas. quem sabe os dez posts que mais me marcaram? os dez dias mais longos, as dez sextas-feiras mais empolgantes, as dez manhãs mais insuportáveis, quem sabe os dez momentos mais intrigantes vividos em 2015. eu queria fazer uma lista que condensasse o ano de coisas boas e inteligíveis, ou de coisas marcantes e incompreensíveis, uma lista que o resumisse pra mim de forma precisa, uma lista que tivessse a pretensão de me dizer o que sou, quem sou, quem não posso deixar de ser, uma lista que me definisse em 2015, e de forma clara, dicção perfeita, caligrafia irretocável. mas não dá, não consigo uma lista homogênea. fiz então uma lista que incluíam 15 coisas quaisquer, as 15 melhores quaisquer coisas de 2015, e entre elas havia filmes, peças, momentos, lançamentos, encontros, viagens, mas não seria justa, alguém ficaria de fora e eu me ressentiria com meu próprio esquecimento. se garimpasse na memória com rigor, talvez em outro momento encontrasse 15 outras quaisquer coisas. não, não há como condensar, então apaguei a lista e vou tomar um café. nada melhor do que tomar um café quando nos encontramos em um impasse irrisório, besta, desimportante.