Tenho um amigo que vende pedras.Ele não é poeta. Ele vende pedras. Rochas. Granitos. Granizos? Aí não sei.
Não sendo poeta, ainda assim consegue milagres com as palavras, mas só de vez em quando quase nunca.
Primeiro há que se dizer que Araken que se diz Lugosi,ops!, Araken Lugosi, entrou no meu mundo psíquico a partir de 2005, exatamente 29 de setembro (i.e., até ali não existia). O mais legal do Araken Lugosi é sua namorada Ana Paula, que também entrou no meu mundo psíquico nesse dia, quando ele se referiu a ela, antes de eu a conhecer.
O problema do Araken é a síndrome da acumulação de coisas aguda que se junta à síndrome de preguiça tripla aguda e mais o mal de furão incorrigível, somado à dupla personalidade que desdiz o que a primeira disse, ou que diz coisas que a primeira não disse, e por aí vai. Aí, meu irmão, fica muito confuso sacar o Araken. Porque, se vc não o conhece bem, quando ele liga pra você aos sábados e pergunta "qual é a boa?", vai achar que ele tá no pique, até que ele suma o resto da semana, para ligar no próximo sábado novamente e fazer a mesmíssima igualzíssima exatíssima pergunta e sumir novamente. Ou quando ele realmente pergunta isso e marca algo que parece interessantíssimo e não dá as caras, simplesmente assim. E depois diz que não marcou nada, mas se você faz o mesmo com ele, ah, não fica na frente não que vais é ouvir muito. Porque como o Araken Lugosi acumula todas essas síndromes - que, para os leigos, é bom esclarecer que não são doenças, mas sim conjuntos de sinais e sintomas - ele não consegue arredar o pé de casa acumulando-se nas cadeiras e sofás, ao passo que adora também acumular tudo que é objetinho inútil, desprezível e sem porquê desse mundo, principalmente se saiu de uma promoção "fodantástica"... Ah, essa palavra aí é de autoria dele, já chego lá. Antes devo dizer que o Araken gosta de comprar o que não quer nem precisa e nem gosta só porque está na promoção. Se encontrar dez batons por um real cada, vai comprar, mesmo que não lhe interesse lhufas. Se souber que o cinema tá na promoção de 1 real, ele vê dez filmes no mesmo dia. Isso ele gosta: cinema. Mas é capaz de ver o filme mais chumbrega só porque está na promoção.
Enfim, o que eu queria mesmo dizer sobre o Araken Lugosi é sua sutileza poética e sua capacidade de criar neologismos - e copiar alheios também - que muito me encantam justo porque as palavras me encantam. Então, se encontro alguém que sabe fazer delas gato e sapato e emprestar a poesia ao discurso chulo do quotidiano - sem forçar a barra e ao natural - aí já crio uma simpatia por essa pessoa (mesmo com todas as síndromes que a constituem e a atravessem). Entre seus muitos neologismos, está o novíssimo 'fodantástico', que saiu inteiramente de sua mente vendedora de pedras ao se referir à diversidade humana de Copacabana. E ao comentar sobre um primo que estava com 'fogo no rabo' para dar umas voltas pela cidade, foi nobilíssimo ao dizer que o primo estava era com o 'rabo em labaredas', mas não saiu porque a namorada dele o 'encoleirou'. A capacidade discursiva desse nosso amigo Araken é muito boa; pena que não é acompanhada por sua sabedoria, pois, com raiva da prima que encoleira o primo com o rabo em labaredas para dar umas voltinhas, não devia se irritar com a prima, mas com o primo, que, queimando-se todo de baixo pra cima, baixa a cabeça para o que a namorada ordena, submisso e passivo que é.
Enfim, muito mais poderia ser dito sobre o fodantástico mundo de Araken Lugosi, inclusive o fato de sua melhor qualidade ser a namorada gente boa que gosta de boa música e boa diversão, e creio que seus amigos de anos a fio conhecem muito mais síndromes e doenças que o maltratam, amarrotam e amassam ininterruptamente, tadinho!, mas como isso aqui é blog e as pessoas cansam, fica prumoutra vez...
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Clube da Leitura e o exercício de ser um pouco mais macho
Essa semana aconteceu uma coisa legal mas eu não sou macho o suficiente pra agüentar, não ainda. Quem sabe chego lá.
Tem Copacabana?
Então.
Tem Barata Ribeiro?
Então.
Tem o Baratos da Ribeiro, ali pertim da Siqueira Campos?
Então.
Ah, o nome do sebo é bom mesmo e é fidedigno: baratos mesmo! E bons, muito bons. Very very good.
Continuando: tem o sebo.
Aí, o que acontece?
Tem a semana?
Então.
Tem terça-feira?
Então.
Quinzenalmente rola lá o clube da leitura, nesse lugar aí que eu disse que é nesse bairro aí que eu falei e que é no Rio de Janeiro (isso eu não tinha falado, erro im-per-do-á-vel!).
Então, voltando: lá tem o clube da leitura que, de fato, pra mim, foi um grande achado de 2008. Um lugar onde as pessoas se reúnem para ler suas coisas e ler coisas alheias. Fica um monte de coisa sendo lida e um monte de coisa sendo comentada.
Continuando:
Tem 2009?
Então.
Tem a primeira semana de 2009?
Então.
O primeiro clube da leitura calhou de ser na primeira semana e na primeira terça de 2009.
Achei até que não ia ter o clube e de fato houve pouco conto dos participantes, daí que ficou disperso e interessante: a cada texto que se lia, mil e um comentários intermináveis. O pessoal estava frenético, maníaco, resquícios do réveillon!
Aí eu levei meu novo livreto, já é o terceiro.
Distribuí para algumas pessoas quando calhou de dar coragem. Sabe coragem? Pois é, isso aí é troço difícil... Nem sempre vem. É preciso catá-la nalgum canto de mim mesma e às vezes encontro migalhas, as quais aproveito ao máximo, sorvo-as desesperadamente e sempre dá certo (imagine se eu encontrasse mais pedaços de coragem!).
Então, aí distribuí.
Tem o Maurício?
Então, não é que já no final de tudo, depois de ter lido o trecho dele, ele resolve pegar um livro gigante do Charles Dickens, falar que vai ler um texto dele e começar a ler um texto meu? MEU! Começou dizendo que se chamava Cláusulas e passou vagamente pela minha cabeça que eu tenho um texto com um nome igual. Leu a primeira linha e eu não atinei. Leu a segunda e só aí que eu acordei pra vida! Fiquei moooooooooooooorta de vergonha e não consegui: saí do recinto, fui lá pra fora e tive que ser resgatada pelo Ribas. Quase fumei um cigarro, mas não fumo. Vergonhíssima. Migalhas de coragem, cadê vocês, suas cachorras?!?!
Mas de fato eu adorei o gesto. Ah, se fosse mais macho... Ficava lá. Só que não güento. Quer dizer, não tem trema mais, ah, foda-se, fico com o trema e não abro: não güento e fiz a desfeita de sair rubramente da sala e ficar rindo de nervoso lá fora. Ninguém diria que tenho um CRP... Deixa quieto, shhhhhh!
Mas foi ótimo! Valeu a pena! Não fui macho pra ver a reação das pessoas, mas quem sabe um dia?
Valeu a força, galera do Clube da Leitura!
Ah, e tem também a Dani, a esposa sorridente do Maurício! Essa aí é muito legal também e adora beber as coisas mais doidas em festa de réveillon...
Pois é, ela ainda botou meu texto lá na lista dos que estavam sendo lidos e se vi bem (pode ter sido uma alucinação visual sim) colocou um voto lá!!! Quase meti a cara na terra, mas o chão não tinha terra e eu não sou minhoca...
Tem o fim?
Então: fim.
Tem ps?
Então, ps: Cláusulas é um texto que fiz tropeçado e soluçado (não no sentido de choro, mas no sentido de repentino, que fiz aqui pro blog e que retoquei pouquinho... Sobrou uma pag em branco do livreto e achei q valia a pena, já que havia tido comentários...).
Tem Copacabana?
Então.
Tem Barata Ribeiro?
Então.
Tem o Baratos da Ribeiro, ali pertim da Siqueira Campos?
Então.
Ah, o nome do sebo é bom mesmo e é fidedigno: baratos mesmo! E bons, muito bons. Very very good.
Continuando: tem o sebo.
Aí, o que acontece?
Tem a semana?
Então.
Tem terça-feira?
Então.
Quinzenalmente rola lá o clube da leitura, nesse lugar aí que eu disse que é nesse bairro aí que eu falei e que é no Rio de Janeiro (isso eu não tinha falado, erro im-per-do-á-vel!).
Então, voltando: lá tem o clube da leitura que, de fato, pra mim, foi um grande achado de 2008. Um lugar onde as pessoas se reúnem para ler suas coisas e ler coisas alheias. Fica um monte de coisa sendo lida e um monte de coisa sendo comentada.
Continuando:
Tem 2009?
Então.
Tem a primeira semana de 2009?
Então.
O primeiro clube da leitura calhou de ser na primeira semana e na primeira terça de 2009.
Achei até que não ia ter o clube e de fato houve pouco conto dos participantes, daí que ficou disperso e interessante: a cada texto que se lia, mil e um comentários intermináveis. O pessoal estava frenético, maníaco, resquícios do réveillon!
Aí eu levei meu novo livreto, já é o terceiro.
Distribuí para algumas pessoas quando calhou de dar coragem. Sabe coragem? Pois é, isso aí é troço difícil... Nem sempre vem. É preciso catá-la nalgum canto de mim mesma e às vezes encontro migalhas, as quais aproveito ao máximo, sorvo-as desesperadamente e sempre dá certo (imagine se eu encontrasse mais pedaços de coragem!).
Então, aí distribuí.
Tem o Maurício?
Então, não é que já no final de tudo, depois de ter lido o trecho dele, ele resolve pegar um livro gigante do Charles Dickens, falar que vai ler um texto dele e começar a ler um texto meu? MEU! Começou dizendo que se chamava Cláusulas e passou vagamente pela minha cabeça que eu tenho um texto com um nome igual. Leu a primeira linha e eu não atinei. Leu a segunda e só aí que eu acordei pra vida! Fiquei moooooooooooooorta de vergonha e não consegui: saí do recinto, fui lá pra fora e tive que ser resgatada pelo Ribas. Quase fumei um cigarro, mas não fumo. Vergonhíssima. Migalhas de coragem, cadê vocês, suas cachorras?!?!
Mas de fato eu adorei o gesto. Ah, se fosse mais macho... Ficava lá. Só que não güento. Quer dizer, não tem trema mais, ah, foda-se, fico com o trema e não abro: não güento e fiz a desfeita de sair rubramente da sala e ficar rindo de nervoso lá fora. Ninguém diria que tenho um CRP... Deixa quieto, shhhhhh!
Mas foi ótimo! Valeu a pena! Não fui macho pra ver a reação das pessoas, mas quem sabe um dia?
Valeu a força, galera do Clube da Leitura!
Ah, e tem também a Dani, a esposa sorridente do Maurício! Essa aí é muito legal também e adora beber as coisas mais doidas em festa de réveillon...
Pois é, ela ainda botou meu texto lá na lista dos que estavam sendo lidos e se vi bem (pode ter sido uma alucinação visual sim) colocou um voto lá!!! Quase meti a cara na terra, mas o chão não tinha terra e eu não sou minhoca...
Tem o fim?
Então: fim.
Tem ps?
Então, ps: Cláusulas é um texto que fiz tropeçado e soluçado (não no sentido de choro, mas no sentido de repentino, que fiz aqui pro blog e que retoquei pouquinho... Sobrou uma pag em branco do livreto e achei q valia a pena, já que havia tido comentários...).
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
ligação
- Alô?
- Sim?
- Sou eu.
- Oi...
- Tudo bem?
- Indo...
- Indo bem?
- Mais ou menos...
- Quando chega?
- Em breve.
ou... poderia ser assim:
- Alô?
- Alow!
- Sou eu.
- Ah, oi...
- Tudo certo?
- Tudo indo.
- Indo aonde?
- Não sei bem.
- Indo bem?
- Não sei bem.
- Chega logo?
- Aonde?
- No lugar para onde você está indo.
- Mas não estou indo. Estou parado.
- Ah, pensei...
- Sim?
- Sou eu.
- Oi...
- Tudo bem?
- Indo...
- Indo bem?
- Mais ou menos...
- Quando chega?
- Em breve.
ou... poderia ser assim:
- Alô?
- Alow!
- Sou eu.
- Ah, oi...
- Tudo certo?
- Tudo indo.
- Indo aonde?
- Não sei bem.
- Indo bem?
- Não sei bem.
- Chega logo?
- Aonde?
- No lugar para onde você está indo.
- Mas não estou indo. Estou parado.
- Ah, pensei...
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Um mês e meio - parte 3
(Continuação da postagem de 20 de novembro)
Beatriz chegou pra Roberta, outro dia, na Lapa, e disse:
- Amigaaa! E Roberta arregalou os olhos verdes que andavam combinando com o brinco (caso pensado ou não), olhos esses principalmente arregalados porque Beatriz não era de dizer "amigaaa" e menos ainda naquele tipo de palpitação. Beatriz disse então: - Falta um mês e meio! Um mês e meio para o ano acabar. Sabe lá o que é isso?
Roberta, após fazer as contas, disse: - Acredito que quarenta e cinco dias...?
- Significa que uma nova era vai começar, e não é de Aquário não! E eu vou fazer um mapa astral, você conhece alguém pra me indicar, já liguei pra alguns, estou indecisa...
Roberta já tinha feito mapa astral, embora não tantos quanto Luísa. Gostava da coisa, mas era menos aficciona. Pegou imediatamente seu celular e deu o telefone de sua astróloga para casos emergenciais e Beatriz guardou bem guardadinho na agenda. Faltava um mês e meio e antes disso ela precisava marcar seu mapa astral e ver se aquilo que ela achava ia mesmo acontecer. Mesmo que fosse um tanto quanto vago o que ela achava que ia aconter - muito mais questão de afeto e coisa boa do que de definição objetiva de acontecimentos. E ela ia ligar pra astróloga e decidir qual consultar, no dia seguinte mesmo! E ver se era luxo ou lixo o que a astróloga iria dizer e se era certo ou verdade sua intuição sobre o ano que viria, 2009...
continua........
Beatriz chegou pra Roberta, outro dia, na Lapa, e disse:
- Amigaaa! E Roberta arregalou os olhos verdes que andavam combinando com o brinco (caso pensado ou não), olhos esses principalmente arregalados porque Beatriz não era de dizer "amigaaa" e menos ainda naquele tipo de palpitação. Beatriz disse então: - Falta um mês e meio! Um mês e meio para o ano acabar. Sabe lá o que é isso?
Roberta, após fazer as contas, disse: - Acredito que quarenta e cinco dias...?
- Significa que uma nova era vai começar, e não é de Aquário não! E eu vou fazer um mapa astral, você conhece alguém pra me indicar, já liguei pra alguns, estou indecisa...
Roberta já tinha feito mapa astral, embora não tantos quanto Luísa. Gostava da coisa, mas era menos aficciona. Pegou imediatamente seu celular e deu o telefone de sua astróloga para casos emergenciais e Beatriz guardou bem guardadinho na agenda. Faltava um mês e meio e antes disso ela precisava marcar seu mapa astral e ver se aquilo que ela achava ia mesmo acontecer. Mesmo que fosse um tanto quanto vago o que ela achava que ia aconter - muito mais questão de afeto e coisa boa do que de definição objetiva de acontecimentos. E ela ia ligar pra astróloga e decidir qual consultar, no dia seguinte mesmo! E ver se era luxo ou lixo o que a astróloga iria dizer e se era certo ou verdade sua intuição sobre o ano que viria, 2009...
continua........
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Um mês e meio - parte 2 (continuação)
Na birosca na esquina de casa, disse à outra amiga:
- Carolina, 2009 vai ser O ANO! Escuta bem o que eu tô te dizendo: vai ser O ANO! Anota, pode anotar.
Que Carolina tinha mania de escrever muito e andar pra cima e pra baixo com uns caderninhos que, às vezes, até dentro da sala de cinema, bem no meião lá do filme bombando, ela sacava de dentro da bolsa de couro e, enxergando sabe-se lá como na sala escura, anotava alguma coisa e não mostrava pra ninguém (e olha que Beatriz já havia implorado mil vezes para ver o que a amiga escrevia, mas tudo em vão, Carolina escrevia muito, sem parar, infinitamente e tudo só pra ela).
- E por que você diz isso? - Carolina pergunta, também intrigada com a convicção da outra.
- Eu sei. Eu tenho certeza. Estou intuindo, e olha que intuição não é lá muito fácil de explicar, é mais fácil explicar o que é id, ego e superego. E até ideal do ego e ego ideal, embora esses aí sejam assim um pouquinho mais confusos...
- Sei... - e Carolina não dava crédito, abria seu caderninho, escrevia um mistério qualquer ali e o fechava, muda e brilhando nos olhos azuis.
Então, naquela de que sabia que algo de muito bom e extraordinário aconteceria no próximo ano que já se avizinhava sorrateiro, Beatriz correu pra procurar um bom astrólogo, sendo que só a Luísa deu-lhe cinco indicações, falando vantagens e desvantagens de cada um (do quanto custaria até a sensibilidade de cada um e dos acertos também, embora essa última questão não convecesse Beatriz, que contra-argumentava num piscar de pestanas: "os acertos têm a ver com a capacidade do dono do mapa de seguir as diretrizes que são implicitamente jogadas, depende da persuasão do astrólogo de te convencer, sub-repticiamente, a fazer exatamente aquilo que ele desenhou no mapa, sabendo-se ele ou não ser o autor do desenho e nenhuma instância inter-planetária maior"). Estranhamente, Beatriz achava aquilo e ainda assim queria fazer o tal mapa, queria ver se casaria com sua intuição o que o astrólogo ia dizer. E ela ia realmente fazer o mapa astral, antes que terminasse o ano.
(continua)
- Carolina, 2009 vai ser O ANO! Escuta bem o que eu tô te dizendo: vai ser O ANO! Anota, pode anotar.
Que Carolina tinha mania de escrever muito e andar pra cima e pra baixo com uns caderninhos que, às vezes, até dentro da sala de cinema, bem no meião lá do filme bombando, ela sacava de dentro da bolsa de couro e, enxergando sabe-se lá como na sala escura, anotava alguma coisa e não mostrava pra ninguém (e olha que Beatriz já havia implorado mil vezes para ver o que a amiga escrevia, mas tudo em vão, Carolina escrevia muito, sem parar, infinitamente e tudo só pra ela).
- E por que você diz isso? - Carolina pergunta, também intrigada com a convicção da outra.
- Eu sei. Eu tenho certeza. Estou intuindo, e olha que intuição não é lá muito fácil de explicar, é mais fácil explicar o que é id, ego e superego. E até ideal do ego e ego ideal, embora esses aí sejam assim um pouquinho mais confusos...
- Sei... - e Carolina não dava crédito, abria seu caderninho, escrevia um mistério qualquer ali e o fechava, muda e brilhando nos olhos azuis.
Então, naquela de que sabia que algo de muito bom e extraordinário aconteceria no próximo ano que já se avizinhava sorrateiro, Beatriz correu pra procurar um bom astrólogo, sendo que só a Luísa deu-lhe cinco indicações, falando vantagens e desvantagens de cada um (do quanto custaria até a sensibilidade de cada um e dos acertos também, embora essa última questão não convecesse Beatriz, que contra-argumentava num piscar de pestanas: "os acertos têm a ver com a capacidade do dono do mapa de seguir as diretrizes que são implicitamente jogadas, depende da persuasão do astrólogo de te convencer, sub-repticiamente, a fazer exatamente aquilo que ele desenhou no mapa, sabendo-se ele ou não ser o autor do desenho e nenhuma instância inter-planetária maior"). Estranhamente, Beatriz achava aquilo e ainda assim queria fazer o tal mapa, queria ver se casaria com sua intuição o que o astrólogo ia dizer. E ela ia realmente fazer o mapa astral, antes que terminasse o ano.
(continua)
domingo, 16 de novembro de 2008
Um mês e meio - parte 1
Faltava assim certinho um mês e meio - um-mês-e-mei-o! - para que o ano acabasse e Beatriz andava assim com a pulga atrás da orelha com piercings e brincos, desconfiadíssima, é verdade, de que o ano que vem ia ser muito bom. E aí deu-lhe na telha da cabeça, da casa, do ofício, fazer um mapa astral. Inaugurar sua presença nesse campo das perspectivas de mundo. Ela sempre rejeitara esse tipo de atividade, que achava que mapa astral dá de criar o destino que nunca jamais em tempo algum - nun-ca-ja-mais-em-tem-po-al-gum! - existiu.
- Ô, Luísa, destino não existe. Esses mapas aí fazem com que a gente faça aquilo mesmo que o astrólogo disse que ia acontecer. Não é que tava lá já, entendeu, não é isso. Não se trata disso. O que acontece é que a gente ouve aquilo lá e cisma, cisma mesmo!, e aí vai fazendo tudo o que tava dito que ia acontecer. Sacou?
Mas a Luísa achava que não e volta e meia fazia um mapa astral, tentando convencer a amiga de que devia fazer um também, sinastria, revolução solar, mil nomes que não interessavam tanto assim à Beatriz.
Não interessavam tanto até o dia em que ela passou a cismar que o ano que vem traria muita coisa boa. E ela ia correr atrás disso para tirar a dúvida...
(Continua)
- Ô, Luísa, destino não existe. Esses mapas aí fazem com que a gente faça aquilo mesmo que o astrólogo disse que ia acontecer. Não é que tava lá já, entendeu, não é isso. Não se trata disso. O que acontece é que a gente ouve aquilo lá e cisma, cisma mesmo!, e aí vai fazendo tudo o que tava dito que ia acontecer. Sacou?
Mas a Luísa achava que não e volta e meia fazia um mapa astral, tentando convencer a amiga de que devia fazer um também, sinastria, revolução solar, mil nomes que não interessavam tanto assim à Beatriz.
Não interessavam tanto até o dia em que ela passou a cismar que o ano que vem traria muita coisa boa. E ela ia correr atrás disso para tirar a dúvida...
(Continua)
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Cláusulas
Quais são as cláusulas?
Eu quero saber quais são as cláusulas!
Me diga quais são as cláusulas desse contrato de vida.
Porque nasci.
E eu não sabia de nada.
Mas há quem ache que sim, que tudo é questão de escolha, inclusive o nascimento.
Então me mostre o contrato.
Onde assinei?
Que seria assim, assim, assado?
Onde está escrito, cadê os asteriscos, eu quero os asteriscos!!!!
Esses asteriscos duvidosos são os mais traiçoeiros. E para os desavisados, eles passam batidos. É comum, muito comum aliás, eles não serem sequer notados.
Estão onde menos se espera e lá embaixo vem a legenda que explica o que eles querem dizer, mas essa legenda...?
Ah, eu te conto sobre esse tipo de legenda, eu te conto sim...
É preciso de lupa pra ler. Pra conseguir enxergar! Para ver o que tem lá!
E lá tem muita coisa, nessas notas de pé de página, nesses asteriscos que contam a realidade de uma situação que, na primeira olhada rápida, você não vê, você não atina.
Então...
Mostre-me!
Cadê as cláusulas? Onde rubriquei? Os asteriscos? Onde a lupa, para eu poder decifrar? Cadê o dicionário? Isso é feito manual, que você não entende e aprende no tapa, isso quando aprende alguma coisa?
Quero ver o contrato de vida e tudo explicadinho, item por item, que ia ser assim como está sendo...
Eu quero saber quais são as cláusulas!
Me diga quais são as cláusulas desse contrato de vida.
Porque nasci.
E eu não sabia de nada.
Mas há quem ache que sim, que tudo é questão de escolha, inclusive o nascimento.
Então me mostre o contrato.
Onde assinei?
Que seria assim, assim, assado?
Onde está escrito, cadê os asteriscos, eu quero os asteriscos!!!!
Esses asteriscos duvidosos são os mais traiçoeiros. E para os desavisados, eles passam batidos. É comum, muito comum aliás, eles não serem sequer notados.
Estão onde menos se espera e lá embaixo vem a legenda que explica o que eles querem dizer, mas essa legenda...?
Ah, eu te conto sobre esse tipo de legenda, eu te conto sim...
É preciso de lupa pra ler. Pra conseguir enxergar! Para ver o que tem lá!
E lá tem muita coisa, nessas notas de pé de página, nesses asteriscos que contam a realidade de uma situação que, na primeira olhada rápida, você não vê, você não atina.
Então...
Mostre-me!
Cadê as cláusulas? Onde rubriquei? Os asteriscos? Onde a lupa, para eu poder decifrar? Cadê o dicionário? Isso é feito manual, que você não entende e aprende no tapa, isso quando aprende alguma coisa?
Quero ver o contrato de vida e tudo explicadinho, item por item, que ia ser assim como está sendo...
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Mais Revolta

Hoje sou pessoa revoltada, porque perdemos a oportunidade de ter um prefeito íntegro e coerente. Hoje sou pessoa revoltada, porque estudados e informados da Zona Sul deixam de votar para talvez curtir o feriado do funcionário público, como se seu voto não fizesse a diferença. Hoje sou pessoa revoltada porque, apesar de toda a conscientização feita pela internet e outros meios de comunicação, as pessoas ainda preferem votar num candidato que coloca a Saúde como prioridade de governo mas nada entende de SUS, porque se entendesse não colocaria as UPAs como o grande chamariz da solução do acesso à saúde. Hoje sou pessoa revoltada porque outras votam no Gabeira meio irritadas por causa de suas alianças políticas, como se se pudesse traçar perfis estanques de direita e esquerda no mundo atual. Hoje sou pessoa revoltada de ver que muita gente acha que não tem nada a ver com isso e depois bota a culpa no governo. Hoje sou pessoa revoltada porque as pessoas ainda amarram a tolos estereótipos os candidatos a prefeitos e falam mal do Gabeira, chamando-o de maconheiro ou gay. Hoje sou pessoa revoltada porque, vendo o debate de sexta-feira, há quem caia nas pegadinhas e perguntas restritinhas idiotas do candidado eleito. Hoje sou pessoa revoltada porque o que mais vemos é reclamações que dizem que político é corrupto, safado e ladrão e, de repente, quando temos Gabeira, deixamos de votar por argumentos tolos. Hoje sou pessoa revoltada porque em todas as eleições me irrito com a sujeirada das campanhas e antes mesmo de se alardear que Gabeira não distribuiu panfletos, meus olhos já procuravam nas ruas para ver se os encontravam e nada de folhetos de Gabeira, enquanto que o outro, o eleito, sujou a cidade inteira. Hoje sou pessoa revoltada porque ainda em campanha Gabeira foi produtivo e seus voluntários promoveram uma doação de sangue, enquanto que a campanha do outro gastou rios de dinheiro e ainda teve merendas escolares desviadas apreendidas. Hoje sou pessoa revoltada porque por muito pouco, mas muito pouco, não tivemos a chance de um prefeito com histórico que causa orgulho e traz esperança a muita gente, inclusive a pessoas que só vinham votando nulo. Perdemos a chance e hoje? Hoje sou pessoa revoltada.
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