Maria tinha vergonha de si mesma. Por diversas razões.
Uma das razões era não conseguir fazer de sua vida algo minimamente prazeroso.
O trabalho - não gostava.
O amor - não tinha.
A família - sem comentários.
Os gatos que tinha às vezes lhe faziam cócegas na alma. E era assim surpreendente.
Mas naquele sábado notou o desespero de se sentir inteiramente só. E completamente instável. E sem controle algum. Num mesmo dia, era capaz de sentir todas as gradações das emoções.
Ela estava tão decepcionada, que jogava a culpa em todos, mas sabia, ela sabia, que era a maior responsável por tudo aquilo.
Maria tinha vergonha de si mesma. Por muitos motivos.
E não conseguia esquecer-se deles distraindo-se com aquilo que antes era bom. Maria não criava mais como antes. Maria não era mais Maria. E se tornava um ser detestável para muitos.
Jogou o sábado fora, que era uma de suas únicas brechas de respiração durante a semana. Como os outros podiam entender o quão massacrante era sua rotina de segunda à sexta? Como os outros poderiam não ver aquilo como frescura? Ela não usava bombinha, mas a asma que sentia fazia com que se tornasse um zumbi de segunda à sexta, tentando puxar algum ar no sábado, e voltando a perdê-lo no domingo. Não tinha para onde correr, eram paredes o que via para frente e para trás, e era estreita a passagem. O esforço que ela fazia era desmedido. E talvez por isso acabasse se tornando um ser detestável quando sobrava um tempo: era uma ira acumulada contra tudo e todos (mesmo contra aqueles que não tinham parte em sua ira).
Maria se humilhava. Pedia ajuda. Pedia companhia. Pedia: posso dormir na sua casa só hoje para eu não ficar tão sozinha? Maria recebia a negativa, que não era novidade. E se arrependia de ter feito o pedido, para em seguida pedir de novo. Maria fazia a merda, sentia-se envergonhada, e repetia a merda no minuto seguinte. Maria era uma merda.
E Maria tinha vergonha de si mesma. Sem razão alguma.
sábado, 17 de outubro de 2009
domingo, 30 de agosto de 2009
esquecimento
Ele vai esquecendo que ela existe porque a vida vai levando a outras memórias e outros encontros. Ela vai esquecendo que ele existe porque a vida vai seguindo em outros trajetos, novos objetos podem chamar sua atenção. Ele vai esquecendo que ela existe porque na verdade já não se incomodava tanto com a existência dela. Ela vai esquecendo que ele existe porque não há outro jeito e é assim que tem que ser. Ele vai esquecendo que ela existe e ela adivinha que isso acontece e isso aperta-lhe o peito, angústia! Ela vai esquecendo que ele existe porque é assim que tem que ser, é assim que tem que ser. Ele vai esquecendo que ela existe pois na verdade não gostava dela tanto quanto dizia a si mesmo que gostava e ela sabia disso, ela sabia disso. Ela vai esquecendo que ele existe porque é fácil para ela esquecer que ele existe, embora existam memórias que durem pra sempre e que a acompanham há anos e ele não desconfia delas, ele nunca saberá. Ele vai esquecendo que ela existe. Ela não quer esquecer que ele existe, mas a vida está sufocando-lhe por todos os lados e o que ela mais quer é esquecer que a vida existe.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
apatia
Se Eliana soubesse o que aconteceria, ela saberia exatamente que caminho tomar. Não entendiam os deuses que ela não queria errar? E o destino, não entendia ele que ela queria achar seu trilho, sem tropeços? Ela queria dizer a todos os que assistiam sua jornada que o que ela queria era não errar e viver a vida sem fazer mal a si mesma e aos outros. Nisso ela era quase cristã. Não tinha medo de pecar, não acreditava em diabo, mas tinha fé de que o sofrimento pode matar, nisso ela acreditava piamente, então o que ela queria era viver a vida pegando os atalhos mais próximos, correndo dos vendavais, contornando becos escuros, evitando amigos desleais. Ela queria evitar a fadiga, era partidária da filosofia do carteiro Jaiminho do Chaves. E por causa de não querer errar a porta, equivocar-se na marcha, atropelar-se no afã de cumprir com os prazos e horários que a vida lhe impunha, ela acabava que não fazia nada, não cumpria prazo algum, não entrava por porta alguma, quase que cruzava os braços presa em suas reflexões que nada produziam. Mas ela não deixava de fazer as coisas por preguiça ou má vontade, ela só não queria errar, o motivo da apatia era o receio de colocar tudo a perder. Afinal, se fizesse alguma coisa, se se deixasse levar por alguma opção mal avaliada, que raios de tormentos poderiam lhe alcançar? Ela não queria errar, não entendiam os deuses esse simples desejo?
domingo, 26 de julho de 2009
Ficha
Sua idade: 30 anos e três dias. Algumas horas.
O que mudava: absolutamente nada ou tudo ao mesmo tempo.
O motivo do desespero: nenhum que fosse palpável.
O motivo da alegria: agora sim podia dizer que fora alegre, pois uma festa feliz a esperara sem que ela desconfiasse, e comera quindins, operetas, sanduíches, bolo, estourara bolas e a cor das bolas que estourara era rosa.
A continuidade: já acontecia.
O que a esperava: tudo de antes, ou seja, vida, trabalho, noites, manhãs, incômodos, alegrias, um lançamento de livro próximo, o resto do inverno, barulho no trânsito, pedintes, ambulantes, notícias infames na televisão.
O que ela não queria: continuar dominada por angústias infundadas.
Um dia depois, como estava: feliz da vida e rodeada do sublime que era o filme japonês A Partida e o livro brasileiro A Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy, que ela leu em 48 horas ou menos.
O clima: frio, nublado, chuvoso, do jeito que ela gostava.
Que dia é hoje: domingo, mais uma vez.
O que mudava: absolutamente nada ou tudo ao mesmo tempo.
O motivo do desespero: nenhum que fosse palpável.
O motivo da alegria: agora sim podia dizer que fora alegre, pois uma festa feliz a esperara sem que ela desconfiasse, e comera quindins, operetas, sanduíches, bolo, estourara bolas e a cor das bolas que estourara era rosa.
A continuidade: já acontecia.
O que a esperava: tudo de antes, ou seja, vida, trabalho, noites, manhãs, incômodos, alegrias, um lançamento de livro próximo, o resto do inverno, barulho no trânsito, pedintes, ambulantes, notícias infames na televisão.
O que ela não queria: continuar dominada por angústias infundadas.
Um dia depois, como estava: feliz da vida e rodeada do sublime que era o filme japonês A Partida e o livro brasileiro A Chave da Casa, de Tatiana Salem Levy, que ela leu em 48 horas ou menos.
O clima: frio, nublado, chuvoso, do jeito que ela gostava.
Que dia é hoje: domingo, mais uma vez.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Os trinta anos
Daqui a dois dias a menina ali sentada e digitando ia fazer trinta anos.
Menina?
Daqui a dois dias a moça ali sentada e digitando ia fazer trinta anos.
Moça talvez.
Daqui a dois dias ela, ali sentada - e digitava - faria trinta anos e começaria a ler Balzac.
Que ninguém a visse assim translúcida. Era um horror. Agitavam-se nós na garganta e nos ouvidos. Ela sentia ecoar um grito que nunca deixara de ouvir. Porque:
Dali a dois dias a moça com raivas de velha ia fazer trinta anos. E digitava.
Porque não queria e queria muito. E não sabia o quê. Queria ultrapassar os quarenta, logo, se pudesse. Mas a proximidade dos trinta não ajudava. A astróloga desconhecida anunciara um retorno de Saturno. Ela não queria Saturno de volta e então era por isso todo o seu amargor? Todo o desespero?
E nisso ela digitava. Para tentar não lembrar muito bem. De quê? Bem, faltavam dois dias. Ou menos até. Um dia e algumas horas. Para? Os trinta anos. Era aquilo que a esperava. E ela não queria esperar mais.
Menina?
Daqui a dois dias a moça ali sentada e digitando ia fazer trinta anos.
Moça talvez.
Daqui a dois dias ela, ali sentada - e digitava - faria trinta anos e começaria a ler Balzac.
Que ninguém a visse assim translúcida. Era um horror. Agitavam-se nós na garganta e nos ouvidos. Ela sentia ecoar um grito que nunca deixara de ouvir. Porque:
Dali a dois dias a moça com raivas de velha ia fazer trinta anos. E digitava.
Porque não queria e queria muito. E não sabia o quê. Queria ultrapassar os quarenta, logo, se pudesse. Mas a proximidade dos trinta não ajudava. A astróloga desconhecida anunciara um retorno de Saturno. Ela não queria Saturno de volta e então era por isso todo o seu amargor? Todo o desespero?
E nisso ela digitava. Para tentar não lembrar muito bem. De quê? Bem, faltavam dois dias. Ou menos até. Um dia e algumas horas. Para? Os trinta anos. Era aquilo que a esperava. E ela não queria esperar mais.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Nosso livro

Depois da fama e da celebridade mundial na programação da OFF FLIP (sem exageros desmedidos, afinal, alguns de nosso bando deram entrevista para a BBC de Londres e, se eu não estava presente e não vi, acredito piamente e tenho provas, te-nho pro-vas!!!), o lançamento agora em Copacabana!!!
O conto que escrevi e que faz parte desse sonho foi o primeiro conto que levei ao clube, sendo que, quando foram escolhidos os contos, eu tinha apenas 2 contos no clube. Lembrando que todos os contos necessariamente fizeram parte do clube da leitura. A idéia é essa!!! Eu sou a mais nova integrante da confraria (não de idade, lembrem, mas de participação!) e a mais neurótica no que se refere a levar um conto para ser lido em voz alta na minha presença. Tanto que, quando foi lido o conto, não agüentei e fiquei lá fora, no boteco ao lado, conversando com o Ribas. Atualmente, já consegui levar 4 contos e, no último, consegui estar presente enquanto era lido pela Carmen, que o defendeu magnificamente através de sua sensível leitura. Bem, espero que gostem e que possam ir à festa!
domingo, 24 de maio de 2009
Borrão 2
No ponto exato em que me encontro, perco-me daquilo que antes era. Pois em cada momento é-se algo e quem me contou foi Clarice Lispector. No ponto exato. Onde me perdi. Volto a me achar no momento mesmo em que escrevo o que nem sequer pensara antes. É aqui que escrevo de forma solta. Forma solta? Solta-se a forma e o que se tem é borrão. Textual. Gramatical. Liberal. Literal. Literário, quiçá. Até que se fechem os livros todos e o mundo volte a ser o que era: água, insetos, leguminosas, nuvens, gente que olhava sem ter o que dizer, sombras, pingos. No ponto exato em que me manifesto, devo mostrar o que sei. E o que sei é tudo o que não interessa saber. Vou ler na Revista algo que interesse na conversa, mesmo que se perca em todo o depois de hoje. Vou ler na Revista algo bom pra repetir e contar. No ponto exato em que viro linha, deixo de ser intervalar. E o que quero com isto aqui? Alguém poderá dizer... Alguém poderá gritar e até mesmo ser ouvido o seguinte lance sem replay: que não há moral da história, que não há informação valiosa, que não há linearidade, mas que inventamos os contornos disso tudo e nos encaixamos bem nas rotas previamente destinadas. No ponto exato. Em que me encontrei. Foi no livro entreaberto que jamais ousei fechar.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
De esguelha
Não tinha coragem de sair de casa. Morava em uma vila, numa das primeiras casas. E quem saía era sua avó, que comprava comida, que pagava contas, que ajeitava o quintal, que dava suas caminhadas vespertinas. Mas ela não saía de casa. Apenas espreitava o mundo. Cheirava-o, e bem de longe. Não era raro ir até a janela e, numa fresta da cortina, ver o movimento de crianças que havia no pátio da vila, ver a chegada do carteiro, sempre simpático e cantarolante, observar a ida dos moradores para o trabalho e sua chegada, todos eles meio exauridos e esvaziados. Ela não saía. Mesmo com as insistências da avó, que tentava de tudo e uma vez deu de chamar um médico para que ele a convencesse de sair. Era um médico proctologista, mas simpático, com dom de cuidar do outro, e ainda que aquela não fosse sua especialização profissional, aceitou de bom grado o que a velhinha lhe pediu e, uma vez lá chegando, nada conseguiu, nenhuma persuasão ou convencimento foi capaz de fazê-la sair de casa, nenhuma receita e nem os anos e anos de faculdade e estudo. Porque ela - ela olhava o mundo muito de esguelha. Via televisão e sabia das coisas do mundo também por esse canal. Comia bastante, assistia novelas e telejornais e observava o movimento do mundo de esguelha. Assim era melhor. Assim era prudente. Ela não ousaria colocar os pés para fora de casa e dar de cara com o turbilhão que o mundo é. Não ainda.
(texto publicado no número 4 da revista digital Rabiscos e Afins).
(texto publicado no número 4 da revista digital Rabiscos e Afins).
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