Era um cacto e não era deserto, era sol e não fazia calor, éramos três pessoas caminhando solitárias e havia companhia, eram nuvens também, era um dia depois do outro trazendo um dia depois do outro, eram dias e dias seguidos uns dos outros, eram dias de mãos dadas que já nem se olhavam mais.
Eu enveredava pelo suor do cacto, imaginando como seria para um cacto suar. Eu enveredava pela lógica do sono imaginando como era penoso para o sono acordar. Eu enveredava pela estrutura da letra tentando entender o que ela fazia no mundo, a letra, qualquer letra, todas as letras, o que elas compunham, além do cacto, além do sol, além das nuvens, além de dias desérticos, além de dunas e areias, "isto não é um cachimbo" e isto aqui também não é uma letra.
Éramos três pessoas caminhando de olhos bem abertos e pestanas bem fechadas e sobrancelhas estritamente arqueadas e não falávamos mais nada do que se pudesse ouvir, sussurrar também não sussurrávamos, mas nos enroscávamos em nossas próprias digressões, fiéis que éramos ao nosso estar conosco mesmos, e éramos felizes em meio a toda a nossa tristeza que se acumulava há décadas. Era uma tristeza de décadas que não cabia em si.
Era um dia depois do outro, um passo seguido de outro, uma paisagem dando lugar a outra, eram outros os nossos eus que ali estavam, era outra coisa o que queria relatar, mas enveredei por isso mesmo e agora não me largo mais daqui.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Quanto ao ofício da vida, o que dizer?
Ando questionando o ofício, qualquer que seja, porque não perco essa mania do ponto de interrogação.
(Se cada frase na minha cabeça mudasse a pontuação, a vida teria mais claridades. Claridades como Clara Nunes e Clarice Lispector e clara de ovo com sal. Mas no final de cada frase na minha cabeça, constante mesmo é a interrogação, antes intercalada com dez exclamações. Ou grito ou pergunto. Preciso aprender a sussurrar...)
Ando questionando o ofício, uns ofícios, tais ou quais ofícios, ofícios quaisquer e quantos. O do médico, o do psicanalista, o do engenheiro, o do gatinho doméstico com ração à espera. O ofício de ser gato não é lá dos mais difíceis, mas só sendo gato pra saber. Ando questionando o ofício de escrever, de desenhar, de pintar, de datilografar, de costurar uma blusa. E o ofício de viver é aquele maior, de onde resultam todos os outros. Sendo que também é a fonte de todas as questões, enquanto no final de cada frase minha vier o ponto de interrogação mais redondinho do que nunca.
(Se cada frase minha fosse escrita em letras menores do que as minúsculas e privilegiassem as reticências, mas as reticências brandas, não as reticências duvidosas e angustiantes, minha vida teria mais claridades...)
O que dizer do porquê da vida? Há muitos ofícios e muitas pontuações. E quanto a este, que comentários posso ter e que frases posso formular? Com que pontuação no final de tudo?
(Se cada frase na minha cabeça mudasse a pontuação, a vida teria mais claridades. Claridades como Clara Nunes e Clarice Lispector e clara de ovo com sal. Mas no final de cada frase na minha cabeça, constante mesmo é a interrogação, antes intercalada com dez exclamações. Ou grito ou pergunto. Preciso aprender a sussurrar...)
Ando questionando o ofício, uns ofícios, tais ou quais ofícios, ofícios quaisquer e quantos. O do médico, o do psicanalista, o do engenheiro, o do gatinho doméstico com ração à espera. O ofício de ser gato não é lá dos mais difíceis, mas só sendo gato pra saber. Ando questionando o ofício de escrever, de desenhar, de pintar, de datilografar, de costurar uma blusa. E o ofício de viver é aquele maior, de onde resultam todos os outros. Sendo que também é a fonte de todas as questões, enquanto no final de cada frase minha vier o ponto de interrogação mais redondinho do que nunca.
(Se cada frase minha fosse escrita em letras menores do que as minúsculas e privilegiassem as reticências, mas as reticências brandas, não as reticências duvidosas e angustiantes, minha vida teria mais claridades...)
O que dizer do porquê da vida? Há muitos ofícios e muitas pontuações. E quanto a este, que comentários posso ter e que frases posso formular? Com que pontuação no final de tudo?
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Encasquetei
Encasquetei. O assunto não me saía da cabeça. Prendi-me nele e ele a mim e o abraço não mais se desfez. Fixo e apertado, assunto grudado. Era o mesmo assunto aquele que me cobria tal qual cobertor, de modo que outros assuntos viram impermeável a barreira no meu cérebro.
Cérebro? Por que cérebro?
Mania de cérebro no mundo atual, talvez o laço amarrado e fixo e forte de assunto comigo tenha sido na mente, ou na perna, no coletivo das unhas, ou até no cotovelo.
Cotovelo?
Aquele que eu uso pra apoiar o braço que apóia a cabeça que apóia o vago olhar que nada enxerga. Mas vê mais do que todos se se trata do assunto amarrado, e nenhum outro assunto adentra meu cotovelo, senão aquele que comigo anda de braço dado.
Qual assunto mesmo? Aquele assunto.
Cérebro? Por que cérebro?
Mania de cérebro no mundo atual, talvez o laço amarrado e fixo e forte de assunto comigo tenha sido na mente, ou na perna, no coletivo das unhas, ou até no cotovelo.
Cotovelo?
Aquele que eu uso pra apoiar o braço que apóia a cabeça que apóia o vago olhar que nada enxerga. Mas vê mais do que todos se se trata do assunto amarrado, e nenhum outro assunto adentra meu cotovelo, senão aquele que comigo anda de braço dado.
Qual assunto mesmo? Aquele assunto.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Sem início, meio e fim
Eu o encontrei na rua e lá se iam dez anos.
(Recomece, recomece... dez anos é muito redondo. Quem vai acreditar?)
Eu o encontrei na rua e lá se iam oito anos, dois meses e dezoito dias.
(Recomece, por favor! Quem acredita que o personagem, qualquer que seja, pode saber exatamente dias e horas que separam o presente de um último encontro? Recomece!)
Eu o encontrei na rua e lá se iam... lá se iam... oito anos, mais ou menos, que não nos víamos.
(Continue e vamos ver se é capaz. Mas não hesite tanto.)
E ele não me reconheceu, prontamente. Era um dia chuvoso e cada guarda-chuva que passava, apressado, era um obstáculo entre nós.
(Continue, vejo que está se esforçando...)
Eu o encontrei na rua e lá se iam oito anos, mais ou menos, que não nos víamos. E ele não me reconheceu prontamente. Era um dia chuvoso e cada guarda-chuva que passava, apressado, era um obstáculo entre nós. Acenei e gritei seu nome e, até que dissesse 'Virgínia!' com aquele tom de quem encontra uma agulha no palheiro, ainda pude notar seu olhar de dúvida esquadrinhando meu rosto. Nos abraçamos, depois de ele enfim lembrar meu nome. Assim mandava a velha etiqueta entre nós, aquela dos toques calorosos e amigáveis. Então ele perguntou, porque era o mais fácil, porque era o imediato, porque era o de sempre, porque era universal: E aí, me conta, o que tem feito?
(E o que tem feito a Virgínia? Essa sua personagem que se espanta com o que quer que seja, o que ela tem feito? Continue o texto!)
Nada. Virgínia não tem feito nada de que se possa falar num esbarrão após oito anos.
(Recomece!!!!! Recomece!!!!! Escreva outra coisa!!!).
Fim.
(Recomece, recomece... dez anos é muito redondo. Quem vai acreditar?)
Eu o encontrei na rua e lá se iam oito anos, dois meses e dezoito dias.
(Recomece, por favor! Quem acredita que o personagem, qualquer que seja, pode saber exatamente dias e horas que separam o presente de um último encontro? Recomece!)
Eu o encontrei na rua e lá se iam... lá se iam... oito anos, mais ou menos, que não nos víamos.
(Continue e vamos ver se é capaz. Mas não hesite tanto.)
E ele não me reconheceu, prontamente. Era um dia chuvoso e cada guarda-chuva que passava, apressado, era um obstáculo entre nós.
(Continue, vejo que está se esforçando...)
Eu o encontrei na rua e lá se iam oito anos, mais ou menos, que não nos víamos. E ele não me reconheceu prontamente. Era um dia chuvoso e cada guarda-chuva que passava, apressado, era um obstáculo entre nós. Acenei e gritei seu nome e, até que dissesse 'Virgínia!' com aquele tom de quem encontra uma agulha no palheiro, ainda pude notar seu olhar de dúvida esquadrinhando meu rosto. Nos abraçamos, depois de ele enfim lembrar meu nome. Assim mandava a velha etiqueta entre nós, aquela dos toques calorosos e amigáveis. Então ele perguntou, porque era o mais fácil, porque era o imediato, porque era o de sempre, porque era universal: E aí, me conta, o que tem feito?
(E o que tem feito a Virgínia? Essa sua personagem que se espanta com o que quer que seja, o que ela tem feito? Continue o texto!)
Nada. Virgínia não tem feito nada de que se possa falar num esbarrão após oito anos.
(Recomece!!!!! Recomece!!!!! Escreva outra coisa!!!).
Fim.
Mundos Bissextos
Em ano bissexto, bissexta me encontro. Torno-me bissexta igual a um vaga-lume. Que pisca quando quer, onde pode e quase nunca. Bissexta sou agora, pois nem sequer consigo sentir a pele sob o toque de minha própria pele. Dedos, tenho todos. Mas tato me falta. Bissexto é o ano em que procuro a mim mesma e encontro algo fácil de ser aglutinado em um conceito. Ao meu lado, nesse ônibus incerto e duro, vejo pessoas insones e bissextas. Dessas que nunca se vêem mas que possuem suas existências paralelas. Eu me ocupo de mim e os outros se ocupam de si, sem que saibamos de nossas mútuas existências. Bissextos somos uns para os outros e uma vez na vida, outra na morte, nos esbarramos pela rua, sem que nem nos reconheçamos – “ah, você é aquela que há três anos atrás tomou o mesmo ônibus que eu, saltando cinco pontos antes e que agora cruza a mesma rua que eu, indo para o lado oposto, com pressa e preocupação, eu lembro de você...”. Ninguém diz isso jamais e o reconhecimento é tão bissexto quanto um conhecimento pleno que posso ter de tudo ao meu redor. O dia 29 de fevereiro foi ontem e pude pensar naqueles que comemoraram seus aniversários apenas de quatro em quatro anos. Não têm a sorte – ou a infelicidade, para alguns trata-se de sofrimento puro – de brindar mais um ano de 365 dias em 365 dias. Esta é uma ocupação que não os visita, esses aniversariantes bissextos e raros, todo ano. E o dia 29 de fevereiro é sempre inigualável. - Todos os dias o são! – alguém objeta. Objeções que não são bissextas não merecem respeito e atenção. Continuo o pensamento. Continuo a caminhada. Bissexta que sou, desisto de pensar no assunto. É hora de enfrentar o março que se anuncia.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Ínfimo Texto (ilustração de Johandson Rezende)

Perto de casa, não havia paradeiro. Fui pra longe, na intenção de descobrir o que de mim se esvaíra. Era um dia para todos, para tantos, para tudo. Era um dia em que se espraia o sumo de cada ser que não se ausenta da vida.
Mas eu corria, pois me perdera do caminho que levava à minha casa. E corria porque correr era mais seguro do que parar. Topei com a pedra, e com o poste, e com o pasto. Contornei os obstáculos e dei de cara com uma moita rechonchuda. Era um gato branco, felino estático, rabo instável, também perdido, também autômato.
Anonimamente entrei no primeiro táxi que resolveu me reconhecer como existência perdida e fazendo sinal. No volante, o ser de bigode era um personagem que saíra de um filme de dois anos atrás. Que dia é hoje? O motorista bigodudo não cobrou a passagem, desligou o taxímetro, estava perdido tanto quanto eu e me propôs que eu fosse sua guia. Nada se concatenava com nada, ele queria que o guiasse, eu?
Disse-lhe, velozmente, antes que não houvesse escape: Mas eu não sei onde me encontrar, como poderei te levar? Ele, impaciente, respondeu: E você, não reconheceu que tirei o bigode? O que enxerga para além desses seus óculos embaçados?
O motorista que já não tinha bigode (segundo me revelou) soltava atrás de si migalhas de pão carcomido que permitissem a volta do táxi ao ponto de partida. Onde estávamos? Eu não sabia para onde ir e corria, e o motorista sem bigode corria também, e a moita rechonchuda espreguiçava-se, muito pouco preocupada com o dia de amanhã. Era um gato imprudente e descansado, enquanto eu ofegava na corrida. Uma nova semana estava prestes a começar e topei com um relógio apitando as horas.
Onde estava meu amigo taxista? Agora eu era solta no mundo, avulsa nas ruas, correndo ao redor de mim mesma, eu era aquela, perdida, continuava esbaforida, a passos ágeis, tentando encontrar o ponto de final de cada ínfimo texto.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
A vida impressionista
A vida me impunha coisas e eu tinha de agarrá-las. A vida se impunha, soturna, a vida era isso, era grande, bem maior do que eu, e eu me perdia na vida tão cheia e tão farta.
A vida trazia coisas e coisas. A vida era ávida de agitação, movimento, compromissos, acordos, decoros. A vida me impunha um ritmo que não era meu e eu tinha de adestrá-lo. A vida me empurrava ladeira abaixo e rolando eu acenava à segunda, à terça, à quarta, à sexta, ao domingo, eu acenava às tardes e às noites, eu acenava aos produtos enfileirados em cada estante e à tão tediosa programação de televisão, eu acenava ao dia das mães e ao dia dos pais e a todas as celebrações automáticas, eu acenava com dedos bem abertos, pois nada me cabia nas mãos.
Eu não cabia na vida que assim se assumia bem perto de mim, então eu caí para o lado de fora da vida, para ver o que achava por perto. Do lado de fora, espiei para dentro da vida. Dali, eu percebia bem, a vida era impressionista. Gerava bolor. Tentei me afastar apressada, aquela vida impressionista e bolorenta já crescia para cima de mim.
A vida novamente me abocanhava, me mastigava, me engolia, me digeria, voraz, atroz e sôfrega. Novamente, deslizo vida abaixo, sem freios. Sabe-se lá para onde.
A vida trazia coisas e coisas. A vida era ávida de agitação, movimento, compromissos, acordos, decoros. A vida me impunha um ritmo que não era meu e eu tinha de adestrá-lo. A vida me empurrava ladeira abaixo e rolando eu acenava à segunda, à terça, à quarta, à sexta, ao domingo, eu acenava às tardes e às noites, eu acenava aos produtos enfileirados em cada estante e à tão tediosa programação de televisão, eu acenava ao dia das mães e ao dia dos pais e a todas as celebrações automáticas, eu acenava com dedos bem abertos, pois nada me cabia nas mãos.
Eu não cabia na vida que assim se assumia bem perto de mim, então eu caí para o lado de fora da vida, para ver o que achava por perto. Do lado de fora, espiei para dentro da vida. Dali, eu percebia bem, a vida era impressionista. Gerava bolor. Tentei me afastar apressada, aquela vida impressionista e bolorenta já crescia para cima de mim.
A vida novamente me abocanhava, me mastigava, me engolia, me digeria, voraz, atroz e sôfrega. Novamente, deslizo vida abaixo, sem freios. Sabe-se lá para onde.
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