No Brejeiro a Vivian encontrou a Mariana do mestrado e foram juntas, no meio da multidão, cantando alalaô! Depois esbarrou na Juliana e no Chico, que reencontrou depois, e ouviu piadas malévolas e politicamente incorretas. Reencontrou o Daniel e a Anne e atualizou sua vida em poucos minutos. Mas a cerveja acabou e todos meteram o pau no Eduardo Paes e em seu fascista choque de ordem e voltaram pra casa, ela trocando as pernas.
No dia seguinte, foi parar no Sassaricando, na Glória, onde conheceu um-dois-três-quatro-cinco-seis-sete-quantos-mesmo? paulistas. Johandson apertava um, Salvador puxava o bonde, mas era expert em sumiços e reaparições instantâneas. Um dos paulistas tinha um olho que crescia a cada bloco de carnaval e resolveram denominá-lo Terçol, pois era mais fácil assim. A Márcia Vitari também apareceu e se juntou ao grupo. Antes que o calor e o sol esturricassem os moles miolos da trôpega trupe, foram à Lapa, que era ali ao lado, e discutiram sotaques e bairros e zonas sul-leste-oeste de São Paulo e do Rio. Havia ainda os pênaltis do Vasco e Fluminense, que todos torceram como se fossem vascaínos roxos - os vascaínos e os conrintianos. Dali combinaram a noite, cada um foi prum lado, tomou banho, voltou e se acabaram no set do Maurício, onde ninguém teve teto preto. Terçol ficou de cueca na beira da pista, a Luísa dançou rock e ficou com saudades de Oxford, o Maurício tinha os olhos murchos pois faltava alguém essencial, o Ribas quase caiu no chão e entrou no banheiro das mulheres e tudo acabou bem depois.
No domingo a Vivian estava de noiva 7h30 da manhã com a Carolina e Giselle enfrentando o sol no Boitatá, o Gota apareceu ao seu lado, porque o Gota sempre aparece, mas a noiva do Kill Bill teve piriri e nenhum banheiro químico tinha espaço para a sua alergia. Voltaram pra casa, Vivian dormiu a tarde toda, foi parar no Bloco Cru, onde por acaso encontrou novamente o Salvador e a turma de paulistas e ainda novos paulistas. Havia um furão também, chamado Benjamin, porque só lê Walter Benjamin. Do Bloco Cru foi parar no Bip Bip, sambinha pacato, onde encontrou a Luísa, a Carolina, a Dani e o Johandson e todos ficaram amigos, mas a Dani foi embora logo, porque tinha que guardar mil coisas na geladeira e também tinha os olhos tristonhos.
Segunda-feira era dia de morrer esturricado no bairro dos atores-poetas: Santa Teresa e os mambos do Songoro Cosongo, mas a Vivian não agüenta Santa Teresa por muito tempo e arrastou todo mundo de lá. À noite, no Rancho Flor do Sereno, até o Guilherme Preger e a Ula apareceram, e diz o Ribas que viu a Deborah, mas ninguém mais viu. Fizeram uma quadrilha, todos eles e mais os desconhecidos ao redor, cantaram Guantanamera em altíssimos brados com estranhos de Copacabana umas trezentas e vinte e cinco vezes e partiram pro Pavão Azul, que topou fazer mais cinco pastéis para o Carlos e seu furão, que vieram de São Paulo es-pe-ci-al-men-te para prová-los.
No dia seguinte, todos se encontraram no metrô da Cinelândia para a Orquestra Voadora. Ninguém foi capaz de voar, mas a orquestra e o céu azul, além do calor de oitenta e oito graus e mais a ausência de vendedores de cerveja fizeram com que todos quase alucinassem. Dali, o Salvador (que não é Salvador Dalí) puxou o bonde pra Copacabana, apareceu o Marcelo, todos cantaram sambas e dances e funks e marchinhas na beira da praia. É preciso dizer que o Salvador era o mais animado de todos, tanto que arrastou os que sobraram para seu jogo transcendental onde você é o vento e semeia as cores. Nesse jogo, a Vivian e a Carolina viram Deus, cada uma a seu modo, e cada uma com uma concepção diferente de Deus, mesmo sem acreditar que ele exista, mas viram, alguma coisa elas viram, e a primeira prendeu o choro, mas a segunda chorou desbragadamente, deram-se as mãos, puxaram a Luísa, tentaram enrolar o motorista de táxi e foram embora.
E tudo se acabou na quarta-feira!
(E se tudo isso servir para o Pitel, o Terçol, o Carlos, a Maricota, o Cadu entrarem no facebook, e para o Estêvão, a Ju e a Dani paulista bolarem um tour maravilhoso por São Paulo pra toda essa destrambelhada trupe carioca, tudo vai ter valido mais ainda a pena!)
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
sábado, 30 de janeiro de 2010
Novas versões do de repente
Quando menos se espera, você reencontra aquele cara de cinco anos atrás e trocam telefones.
Quando menos se espera, um familiar que não queria te ver retorna e exige e complica e te abraça e range os dentes. Te faz chorar.
Quando menos se espera, o ano novo chega, você olha pra trás e percebe que não fez nada. Ou fez tudo, mas equivocadamente.
Quando menos se espera, uma poesia sua é publicada no site de alguém especial e você sorri, lisonjeado, honrado, agradecido, orgulhoso, envergonhado.
Quando menos se espera, alguém em quem você confiava te vem com uma bomba. Você chora uma tarde inteira e sente o desamparo despencando você nos porões da vida.
Quando menos se espera, você pega sífilis. Mas tem cura. Ainda bem...
Quando menos se espera, você passa naquele concurso que não imaginava que tivesse possibilidades de concorrer. Quando menos espera, é convocado. Quando menos espera, entra em exercício. Quando menos espera, odeia o trabalho, os colegas, o ambiente. Mas o salário é bom. Você olha pra trás e pensa, ironizando o destino: eu quis tanto isso e choraria tanto se não passasse. Agora estou aqui, esmagado pela rotina nojenta do serviço.
Quando menos se espera, você conhece uma pessoa que será, em breve, seu melhor amigo.
Quando menos se espera, alguém morre e você se apercebe de que sempre adiava uma conversa, um reencontro, uma atenção. Não dá pra fazer mais nada agora.
Quando menos se espera, você ganha um prêmio. Em dinheiro. E faz aquela viagem.
Quando menos se espera, você encontra alguém na noite e se apaixona.
Quando menos se espera você se apaixona por aquela pessoa que, em outras circunstâncias, talvez não te dissesse nada. Por alguém totalmente fora dos seus padrões atrativos. E se apaixona perdidamente. Perdidamente? Apaixona-se, sim, achadamente!
Quando menos se espera, você recebe a proposta de um trabalho novo.
Quando menos se espera, você deve voltar para seu país porque na Inglaterra não aceitam mais seu visto. Os planos todos mudam da noite pro dia, da água pro vinho, e o subdesenvolvimento volta a te circunscrever. Lide com isso, sem chorar demasiadamente!
Quando menos se espera, você desce do ônibus e quebra alguns dos seus metatarsos. Ficará em casa durante semanas, sem nada poder fazer, a não ser ler todos os livros que esperavam empoeirados e rever filmes do Bergman, do Spike Lee e do Tarantino.
Quando menos se espera, você reencontra um antigo amor de seis anos atrás, que julgava morto e enterrado sem sombra de dúvida. É que não havia luz sobre essa dúvida para projetar a sombra...
Quando menos se espera, você está falido.
Quando menos se espera, você vai ser papai!
Quando menos se espera, serão gêmeos.
Quando menos se espera, você tem que se mudar.
Quando menos se espera, um melanoma tatua sua pele.
Quando menos se espera, você obtém a cura.
Quando menos se espera, tudo muda. Ou tudo fica como está.
Quando menos se espera, um familiar que não queria te ver retorna e exige e complica e te abraça e range os dentes. Te faz chorar.
Quando menos se espera, o ano novo chega, você olha pra trás e percebe que não fez nada. Ou fez tudo, mas equivocadamente.
Quando menos se espera, uma poesia sua é publicada no site de alguém especial e você sorri, lisonjeado, honrado, agradecido, orgulhoso, envergonhado.
Quando menos se espera, alguém em quem você confiava te vem com uma bomba. Você chora uma tarde inteira e sente o desamparo despencando você nos porões da vida.
Quando menos se espera, você pega sífilis. Mas tem cura. Ainda bem...
Quando menos se espera, você passa naquele concurso que não imaginava que tivesse possibilidades de concorrer. Quando menos espera, é convocado. Quando menos espera, entra em exercício. Quando menos espera, odeia o trabalho, os colegas, o ambiente. Mas o salário é bom. Você olha pra trás e pensa, ironizando o destino: eu quis tanto isso e choraria tanto se não passasse. Agora estou aqui, esmagado pela rotina nojenta do serviço.
Quando menos se espera, você conhece uma pessoa que será, em breve, seu melhor amigo.
Quando menos se espera, alguém morre e você se apercebe de que sempre adiava uma conversa, um reencontro, uma atenção. Não dá pra fazer mais nada agora.
Quando menos se espera, você ganha um prêmio. Em dinheiro. E faz aquela viagem.
Quando menos se espera, você encontra alguém na noite e se apaixona.
Quando menos se espera você se apaixona por aquela pessoa que, em outras circunstâncias, talvez não te dissesse nada. Por alguém totalmente fora dos seus padrões atrativos. E se apaixona perdidamente. Perdidamente? Apaixona-se, sim, achadamente!
Quando menos se espera, você recebe a proposta de um trabalho novo.
Quando menos se espera, você deve voltar para seu país porque na Inglaterra não aceitam mais seu visto. Os planos todos mudam da noite pro dia, da água pro vinho, e o subdesenvolvimento volta a te circunscrever. Lide com isso, sem chorar demasiadamente!
Quando menos se espera, você desce do ônibus e quebra alguns dos seus metatarsos. Ficará em casa durante semanas, sem nada poder fazer, a não ser ler todos os livros que esperavam empoeirados e rever filmes do Bergman, do Spike Lee e do Tarantino.
Quando menos se espera, você reencontra um antigo amor de seis anos atrás, que julgava morto e enterrado sem sombra de dúvida. É que não havia luz sobre essa dúvida para projetar a sombra...
Quando menos se espera, você está falido.
Quando menos se espera, você vai ser papai!
Quando menos se espera, serão gêmeos.
Quando menos se espera, você tem que se mudar.
Quando menos se espera, um melanoma tatua sua pele.
Quando menos se espera, você obtém a cura.
Quando menos se espera, tudo muda. Ou tudo fica como está.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
videoclipe
A vida pareceria um videoclipe se fosse sempre assim com o fone de ouvido. Era melhor ainda dentro do ônibus, quando Ana pegava aquele que ia pelo Aterro do Flamengo. Ouvindo Creedence, era então ótimo. Num clima nublado, anunciando pingos, as cenas poderiam parecer o prenúncio da catástrofe ou o preâmbulo da melancolia. De modo que, se ela estivesse já previamente arrastando-se em certo humor triste, ainda que de leve, ainda que sutil, ainda que pálido, ainda que esboço, tudo se tornaria mais sugestivo de um dia cinza em todos os sentidos.
Era tanta a alegria acumulada nas últimas sete semanas ou mais, que até estava estranhando todo aquele negrume amarronzado. Tinha se esquecido de como era ficar triste. Tinha se esquecido de como era aquela coisa de sorriso endurecido, falta de vontade de botar o pé pra fora de casa e horror de pensar em ficar o dia inteiro dentro de casa. Surpreendente era ter se esquecido, pois a rigidez no sorriso e nos gestos e na coagulação sangüínea era algo de tão costumeiro para Ana - tão sempre, tão mesmo, tão todo dia - que agora era quase inverossímil o esforço que estava empreendendo para reter aquilo tudo novamente e ter que redescobrir como se movimentar naquelas condições.
Estava triste. Os pingos já caíam. As árvores e os ciclistas e as gramas do Aterro do Flamengo pareciam ter ensaiado com a música ou, melhor dizendo, pareciam seus donos, como se a tivessem criado, árvores, ciclistas e grama compositores. Tudo se encaixava perfeitamente bem e a imagem era tão dinâmica quanto bela. E alguém ao seu lado, todo de branco, fazia lembrá-la de que, no mundo, além das gramas do Aterro, existem doenças esquisitas.
Era tanta a alegria acumulada nas últimas sete semanas ou mais, que até estava estranhando todo aquele negrume amarronzado. Tinha se esquecido de como era ficar triste. Tinha se esquecido de como era aquela coisa de sorriso endurecido, falta de vontade de botar o pé pra fora de casa e horror de pensar em ficar o dia inteiro dentro de casa. Surpreendente era ter se esquecido, pois a rigidez no sorriso e nos gestos e na coagulação sangüínea era algo de tão costumeiro para Ana - tão sempre, tão mesmo, tão todo dia - que agora era quase inverossímil o esforço que estava empreendendo para reter aquilo tudo novamente e ter que redescobrir como se movimentar naquelas condições.
Estava triste. Os pingos já caíam. As árvores e os ciclistas e as gramas do Aterro do Flamengo pareciam ter ensaiado com a música ou, melhor dizendo, pareciam seus donos, como se a tivessem criado, árvores, ciclistas e grama compositores. Tudo se encaixava perfeitamente bem e a imagem era tão dinâmica quanto bela. E alguém ao seu lado, todo de branco, fazia lembrá-la de que, no mundo, além das gramas do Aterro, existem doenças esquisitas.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
linhas de fuga
O Celso não havia se despedido dela. Foi embora assim, sem mais. Ela acreditou que fosse voltar. E sabia onde encontrá-lo, se quisesse. Mas não quis.
No dia seguinte, acordou pensando nele. Foi quando Otávio ligou. Vamos ao cinema? Sim, podemos. E no cinema ela só pensava em Celso.
Três dias depois, foi ao encontro dele. De Márcio. E só conseguia pensar em Otávio.
No dia seguinte, acordou pensando nele. Foi quando Otávio ligou. Vamos ao cinema? Sim, podemos. E no cinema ela só pensava em Celso.
Três dias depois, foi ao encontro dele. De Márcio. E só conseguia pensar em Otávio.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
o que te resta?
Se ele soubesse gritar, ele gritaria. Se soubesse xingar, não hesitaria. Se ele tivesse como esmurrar, esmurraria. O que quer que fosse ele esmurraria. Se tivesse destreza em retorcer e fazer picadinho, não duvide de que ele retorceria e faria picadinho. Sem pestanejar. E sem arrependimento. Se ele soubesse se vingar, vingar-se-ia sim. Se ele soubesse ofender e assassinar, assim como quem mata metaforicamente faz muito mais estrago do que um homicídio concreto pode causar, ele ofenderia três mil vezes mais um e assassinaria n vezes contanto que n fosse maior que um zilhão. E se ele soubesse riscar, produzindo sangue, eu não julgaria que ficaria só na ameaça. Se cão que ladra não morde, ele partiria pra mordida sem ladrar, caso soubesse morder.
Mas o que ele sabia fazer? Gritar, ele não sabia. Não tinha voz. Nem mesmo sussurro ele era capaz de produzir. E era uma dor o que sentia - e era incomensuárvel aquela dor - quando ele tentava gritar ou sussurrar e o que saía era um bafo sem cheiro. E xingar ele também não sabia, porque dependeria de voz e de vocabulário. Ele também não sabia esmurrar, porque não tinha punho. E também não tinha mãos e movimentos finos e grossos para retorcer e em seguida produzir o picadinho daquilo que foi tão bem retorcido como um quadro do Francis Bacon. Ele tampouco sabia se vingar, pois para isso era preciso raciocínio e frieza, e ele jamais possuira um cérebro e tampouco temperatura. Ofender e assassinar também estavam fora de seu alcance, pois era preciso ter corpo e palavras, e ele não tinha voz, gramática ou corporeidade. Riscar também não sabia, pois já vimos que era desprovido de punho e mãos. E ele não mordia porque não tinha boca, dentes, caninos, saliva. Ele não tinha fome.
E o que restava a ele?
O desprezo. Se soubesse desprezar.
Mas o que ele sabia fazer? Gritar, ele não sabia. Não tinha voz. Nem mesmo sussurro ele era capaz de produzir. E era uma dor o que sentia - e era incomensuárvel aquela dor - quando ele tentava gritar ou sussurrar e o que saía era um bafo sem cheiro. E xingar ele também não sabia, porque dependeria de voz e de vocabulário. Ele também não sabia esmurrar, porque não tinha punho. E também não tinha mãos e movimentos finos e grossos para retorcer e em seguida produzir o picadinho daquilo que foi tão bem retorcido como um quadro do Francis Bacon. Ele tampouco sabia se vingar, pois para isso era preciso raciocínio e frieza, e ele jamais possuira um cérebro e tampouco temperatura. Ofender e assassinar também estavam fora de seu alcance, pois era preciso ter corpo e palavras, e ele não tinha voz, gramática ou corporeidade. Riscar também não sabia, pois já vimos que era desprovido de punho e mãos. E ele não mordia porque não tinha boca, dentes, caninos, saliva. Ele não tinha fome.
E o que restava a ele?
O desprezo. Se soubesse desprezar.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Olhos vidrados mais uma vez
Se ela queria?
Aqueles olhos vidrados novamente. Um pouco menos, mas olhos vidrados sempre se tornam cada vez mais vidrados. O que você vai fazer no banheiro no intervalo de tudo, que volta com os olhos mais vidrados ainda?
Mas ele estava envergonhado. Quando avistou Ana Luísa e Vitória, sorriu tímido. Pegou as mãos das duas, uma por vez, beijou-as e não se aproximou. Ele sabia que as havia assustado uma semana antes, mas elas sabiam que ele não era má pessoa. Apenas que tinha os olhos vidrados e quando começava a falar não parava mais. Além de tudo, arregalava aqueles olhos e se sentia discriminado e falava mal da polícia, dos bandidos, dos burgueses, dos flamenguistas e dos ladrõezinhos da Lapa. Apesar daqueles olhos, ele era vegeteriano. E tocava bateria, mas foi expulso da banda, justamente porque olhos vidrados beiram o descontrole quase toda noite.
Agora Ana Luísa e Vitória estavam com amigos. Inclusive alguns que haviam conhecido naquela mesma noite. Pois não tinha jeito: toda vez que saíam, conheciam várias pessoas dos mais variados formatos e das mais diversas embalagens. Era engraçado de uma certa maneira, pois algumas se transformavam em continuidade, ainda que curta. E ficaram ali conversando, enquanto o homem dos olhos vidrados papeava com outras pessoas por perto. Mas a música ia melhorando cada vez mais, enquanto as duas amigas dançavam, felizes. Até que ele puxou a amiga e dançaram e não teve jeito, ele tirou Vitória para dançar. Ela gostava de homens que sabem dançar. Homem havia que ter pegada e havia que ter um certo rebolado e aquele homem tinha. Apesar de as ter assustado sete dias atrás, agora ele estava suave. E dançaram. Bastante. Mais de uma vez. Mas os olhos dele não tinham cura: ficavam vidrados, cada vez mais, e junto com aquilo, uma fala que não se interrompia, um fluxo de idéias que não estagnava, e um certo desespero também. E aquele desespero era o que havia de mais assustador nele.
Aqueles olhos vidrados novamente. Um pouco menos, mas olhos vidrados sempre se tornam cada vez mais vidrados. O que você vai fazer no banheiro no intervalo de tudo, que volta com os olhos mais vidrados ainda?
Mas ele estava envergonhado. Quando avistou Ana Luísa e Vitória, sorriu tímido. Pegou as mãos das duas, uma por vez, beijou-as e não se aproximou. Ele sabia que as havia assustado uma semana antes, mas elas sabiam que ele não era má pessoa. Apenas que tinha os olhos vidrados e quando começava a falar não parava mais. Além de tudo, arregalava aqueles olhos e se sentia discriminado e falava mal da polícia, dos bandidos, dos burgueses, dos flamenguistas e dos ladrõezinhos da Lapa. Apesar daqueles olhos, ele era vegeteriano. E tocava bateria, mas foi expulso da banda, justamente porque olhos vidrados beiram o descontrole quase toda noite.
Agora Ana Luísa e Vitória estavam com amigos. Inclusive alguns que haviam conhecido naquela mesma noite. Pois não tinha jeito: toda vez que saíam, conheciam várias pessoas dos mais variados formatos e das mais diversas embalagens. Era engraçado de uma certa maneira, pois algumas se transformavam em continuidade, ainda que curta. E ficaram ali conversando, enquanto o homem dos olhos vidrados papeava com outras pessoas por perto. Mas a música ia melhorando cada vez mais, enquanto as duas amigas dançavam, felizes. Até que ele puxou a amiga e dançaram e não teve jeito, ele tirou Vitória para dançar. Ela gostava de homens que sabem dançar. Homem havia que ter pegada e havia que ter um certo rebolado e aquele homem tinha. Apesar de as ter assustado sete dias atrás, agora ele estava suave. E dançaram. Bastante. Mais de uma vez. Mas os olhos dele não tinham cura: ficavam vidrados, cada vez mais, e junto com aquilo, uma fala que não se interrompia, um fluxo de idéias que não estagnava, e um certo desespero também. E aquele desespero era o que havia de mais assustador nele.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
o final
Todo final era nauseabundo. De uma certa forma. De todas as formas possíveis. Todo final era violento. Camila estava deitada em sua cama, olhando para o teto. Naquele penúltimo dia de ano, decidiu que o melhor era não se mexer. Ou não se mexer muito. Mais ou menos como os jainistas, que andam devagarzinho-devagarzinho pra não pisar nas formigas que porventura aparecessem pelo caminho.
No que Camila não queria pisar? Em muitas coisas talvez. Em nada. O chão de seu quarto era o seguinte: sandálias espalhadas, uma almofada, um saco plástico com as roupas que comprara na véspera, um outro saco plástico com um celular que o pai havia dado há dois anos e ao qual ela não havia dado a mínima bola, um cortador de unhas, a calça que usara três dias atrás e que jurara que ia colocar para lavar. Formigas, não havia nenhuma, ao que soubesse. Mas ela ficaria lá, pois a náusea crescia dentro das suas partes internas. Quanto às partes externos - epiderme, talvez? - ela sentia um calafrio de vez em quando percorrendo a extensão dos braços.
Camila pensou: amanhã é trinta e um de dezembro. Está acabando.
Estará acabado. E foi rápido. Ligeiro. Lépido. Fagueiro. Tudo bem, depois de amanhã recomeça. Começa outra coisa, embora muitos achem que tudo é uma grande e absurda continuidade, tudo se trata de um dia após o outro. Mas Camila sentia diferente e continuaria imóvel pelo resto do dia se precisasse. Porque algo acabava e ela não sabia o que viria a partir daí. Um ano que acaba não é pouca coisa. Um ano é um conceito. Um conceito que contém muitos outros, enormidade de elementos muito bem identificados (alguns) e absurdamente vagos (tantos outros), todos fundamentais. Espécie de conjunto fechado. E as interseções são apenas as lembranças de outros anos, se é que havia aquilo de interseção - e se é que poderia representar por símbolos um ano inteirinho que passa e que, quer se queira, quer não, chega ao seu final.
A prima bateu na porta do quarto: tudo bem aí? Camila, com esforço, juntou todo o ar que cabia em si, e respondeu, com a voz fraca: tudo! Mas ela não disse 'tudo bem', ela disse tudo. E a continuação podia ser toda e qualquer uma. Tudo acaba um dia. Tudo indo. Tudo mal. Tudo imóvel. Tudo se volta para o teto branco. Tudo tem que recomeçar. Tudo faz parte do que está ausente. Tudo que sobe desce. Tudo que entra sai. Tudo tudinho mesmo. Tudo o que eu queria é que hoje não fosse hoje. Ela então sentia as mãos geladas e o suor aumentou. Porque quando pensava que hoje era um dos últimos dias do ano e que, se o ano fosse uma ampulheta, a areia do compartimento superior (o ano atual) estaria já no seu finalzinho, como um prazo que está correndo e que vai acabar e que fará muita coisa dar errado inevitavelmente, quando pensava nessas coisas todas, era desmaio inevitável o que vinha a seguir.
No que Camila não queria pisar? Em muitas coisas talvez. Em nada. O chão de seu quarto era o seguinte: sandálias espalhadas, uma almofada, um saco plástico com as roupas que comprara na véspera, um outro saco plástico com um celular que o pai havia dado há dois anos e ao qual ela não havia dado a mínima bola, um cortador de unhas, a calça que usara três dias atrás e que jurara que ia colocar para lavar. Formigas, não havia nenhuma, ao que soubesse. Mas ela ficaria lá, pois a náusea crescia dentro das suas partes internas. Quanto às partes externos - epiderme, talvez? - ela sentia um calafrio de vez em quando percorrendo a extensão dos braços.
Camila pensou: amanhã é trinta e um de dezembro. Está acabando.
Estará acabado. E foi rápido. Ligeiro. Lépido. Fagueiro. Tudo bem, depois de amanhã recomeça. Começa outra coisa, embora muitos achem que tudo é uma grande e absurda continuidade, tudo se trata de um dia após o outro. Mas Camila sentia diferente e continuaria imóvel pelo resto do dia se precisasse. Porque algo acabava e ela não sabia o que viria a partir daí. Um ano que acaba não é pouca coisa. Um ano é um conceito. Um conceito que contém muitos outros, enormidade de elementos muito bem identificados (alguns) e absurdamente vagos (tantos outros), todos fundamentais. Espécie de conjunto fechado. E as interseções são apenas as lembranças de outros anos, se é que havia aquilo de interseção - e se é que poderia representar por símbolos um ano inteirinho que passa e que, quer se queira, quer não, chega ao seu final.
A prima bateu na porta do quarto: tudo bem aí? Camila, com esforço, juntou todo o ar que cabia em si, e respondeu, com a voz fraca: tudo! Mas ela não disse 'tudo bem', ela disse tudo. E a continuação podia ser toda e qualquer uma. Tudo acaba um dia. Tudo indo. Tudo mal. Tudo imóvel. Tudo se volta para o teto branco. Tudo tem que recomeçar. Tudo faz parte do que está ausente. Tudo que sobe desce. Tudo que entra sai. Tudo tudinho mesmo. Tudo o que eu queria é que hoje não fosse hoje. Ela então sentia as mãos geladas e o suor aumentou. Porque quando pensava que hoje era um dos últimos dias do ano e que, se o ano fosse uma ampulheta, a areia do compartimento superior (o ano atual) estaria já no seu finalzinho, como um prazo que está correndo e que vai acabar e que fará muita coisa dar errado inevitavelmente, quando pensava nessas coisas todas, era desmaio inevitável o que vinha a seguir.
domingo, 27 de dezembro de 2009
e essa gente toda?
E o que dizer dessa gente mais do que maluca que passa por aí, esbarra em você, fala mil coisas e quase não te deixa se manifestar e nada te pergunta e te oferece cerveja para que você possa ouvir ainda mais?
Olhos vidrados. Sem piscar. Sem desviar o globo ocular. Olhos vidrados, sobrancelhas levantadas, movimentação de braços, de ombros, de corpo. Ele não era feio. Falava "estrupo", mas tinha lá seu charme. E uma boina colorida e listrada. Era a segunda vez que Ana Luisa e Vitória viam aquele homem que parecia um ator não tão global, coroa, qual o nome mesmo? Aquele ator... Chico... Chico... Chico o quê, mesmo? Ela não lembrava o nome, mas era igualzinho a ele, e olhos vidrados, sem piscar, globo ocular perseguindo globo ocular, palavras, palavras, palavras. Um sotaque gaúcho e paulista ao mesmo tempo, histórias do Morro dos Prazeres, ele era o baterista da banda que se apresentava numa esquina da Lapa e falava muito. E, de repente, após os discursos longuíssimos que misturavam tudo e mais um pouco, um insight tomava conta daqueles olhos vidrados: "Ih, tô igual a uma metralhadora, gata, tá tá tá tá tá tá tá, cuspindo um monte de história aqui, meu camarada até se assustou comigo, foi mal aí, vou pegar uma cerveja, e eu nem sei de quem eu gostei mais, acho que estou apaixonado por vocês duas, já volto!". Ana Luisa e Vitória entreolharam-se divertidas, mas e aquele olhar vidrado? E ele voltou, bem depois, após o segundo momento, e estava com os olhos ainda mais vidrados, e falando ainda mais seguidamente, querendo ensinar o reggae jamaicano, mostrando marcas de bala numa perna, na outra perna, mostrando os dentes quebrados por causa de soco de polícia, e isso porque ele já tinha contado dos presentes de natal que havia dado para as crianças da favela, e isso porque já tinha contado que haviam feito um show em Campos naquele mesmo dia à tarde, e isso porque já as havia convidado para conhecerem sua casa e a cachoeira em Santa Teresa, e dizendo ainda: "vocês se trancam lá no quarto, não vai ter problema nenhum, ninguém vai abusar...". Ninguém vai abusar? E quem falou em abusar?
Ana Luisa e Vitória ainda conversaram com mais várias outras pessoas que estavam por perto, inclusive a Marli, garçonete de seus 38 anos, muito simpática, que fazia propaganda da noite de jazz que havia naquele bar-boteco às segundas-feiras. Também uns gringos irlandeses e franceses muito suados que queriam tirar uma foto a qualquer custo e depois se mandaram, sorridentes e cantarolando. E também com um hippie argentino que fazia lindos trabalhos em arame dourado, formatos de Cristo Redentor e coração e outras coisinhas bonitinhas e fofinhas. E também com um cinegrafista com dreads aloirados que falava sobre cinema e lembrou da novela que passou na tv manchete há anos e anos e anos atrás. Eram tantas as pessoas e tão divertidas as histórias e tão vidrados alguns olhares que Vitória e Ana Luisa, ainda que não quisesse admitir, sentiam certo medo.
E quando o cara voltou, pela terceira vez, seus olhos ainda mais arregalados e parados e famintos, querendo capturar qualquer atenção alheia: intensificava agora sua metralhadora verbal, contando histórias inverossímeis, embora verdadeiras.
O que dizer dessa gente doida que fala sem parar e não te deixa respirar?
Olhos vidrados. Sem piscar. Sem desviar o globo ocular. Olhos vidrados, sobrancelhas levantadas, movimentação de braços, de ombros, de corpo. Ele não era feio. Falava "estrupo", mas tinha lá seu charme. E uma boina colorida e listrada. Era a segunda vez que Ana Luisa e Vitória viam aquele homem que parecia um ator não tão global, coroa, qual o nome mesmo? Aquele ator... Chico... Chico... Chico o quê, mesmo? Ela não lembrava o nome, mas era igualzinho a ele, e olhos vidrados, sem piscar, globo ocular perseguindo globo ocular, palavras, palavras, palavras. Um sotaque gaúcho e paulista ao mesmo tempo, histórias do Morro dos Prazeres, ele era o baterista da banda que se apresentava numa esquina da Lapa e falava muito. E, de repente, após os discursos longuíssimos que misturavam tudo e mais um pouco, um insight tomava conta daqueles olhos vidrados: "Ih, tô igual a uma metralhadora, gata, tá tá tá tá tá tá tá, cuspindo um monte de história aqui, meu camarada até se assustou comigo, foi mal aí, vou pegar uma cerveja, e eu nem sei de quem eu gostei mais, acho que estou apaixonado por vocês duas, já volto!". Ana Luisa e Vitória entreolharam-se divertidas, mas e aquele olhar vidrado? E ele voltou, bem depois, após o segundo momento, e estava com os olhos ainda mais vidrados, e falando ainda mais seguidamente, querendo ensinar o reggae jamaicano, mostrando marcas de bala numa perna, na outra perna, mostrando os dentes quebrados por causa de soco de polícia, e isso porque ele já tinha contado dos presentes de natal que havia dado para as crianças da favela, e isso porque já tinha contado que haviam feito um show em Campos naquele mesmo dia à tarde, e isso porque já as havia convidado para conhecerem sua casa e a cachoeira em Santa Teresa, e dizendo ainda: "vocês se trancam lá no quarto, não vai ter problema nenhum, ninguém vai abusar...". Ninguém vai abusar? E quem falou em abusar?
Ana Luisa e Vitória ainda conversaram com mais várias outras pessoas que estavam por perto, inclusive a Marli, garçonete de seus 38 anos, muito simpática, que fazia propaganda da noite de jazz que havia naquele bar-boteco às segundas-feiras. Também uns gringos irlandeses e franceses muito suados que queriam tirar uma foto a qualquer custo e depois se mandaram, sorridentes e cantarolando. E também com um hippie argentino que fazia lindos trabalhos em arame dourado, formatos de Cristo Redentor e coração e outras coisinhas bonitinhas e fofinhas. E também com um cinegrafista com dreads aloirados que falava sobre cinema e lembrou da novela que passou na tv manchete há anos e anos e anos atrás. Eram tantas as pessoas e tão divertidas as histórias e tão vidrados alguns olhares que Vitória e Ana Luisa, ainda que não quisesse admitir, sentiam certo medo.
E quando o cara voltou, pela terceira vez, seus olhos ainda mais arregalados e parados e famintos, querendo capturar qualquer atenção alheia: intensificava agora sua metralhadora verbal, contando histórias inverossímeis, embora verdadeiras.
O que dizer dessa gente doida que fala sem parar e não te deixa respirar?
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