sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Crítica teatral: Queime Isso, de Lanford Wilson


Uma hora e quarenta minutos (talvez um pouquinho mais) de espetáculo pode ser um perigo para pessoas como eu (nem todo mundo tem essa questão com o tempo de uma peça ou de um filme, mas eu sim). Já vi filmes brilhantes que ficaram menos brilhantes porque poderiam ter meia-hora a menos de duração, e sempre falo isso quando me perguntam: o que achou de 2046, do Wong Kar-wai? Brilhante, mas com meia-hora a menos ficaria perfeito. E A Grande Beleza, do Paolo Sorrentino? Amei, mas se tivesse meia-hora a menos seria um dos oito melhores filmes da minha vida. Por outro lado, há aqueles filmes que com três horas de duração ou mais você não olha um minuto sequer para o relógio e ainda estranha quando termina, fica triste porque acabou. É o caso de Ben Hur, de A vida dos outros, de todos os três O Poderoso Chefão, da grande maioria dos filmes longos do Martin Scorsese.
No caso de uma peça de teatro, isso pode ser ainda mais perigoso, mas não é o que acontece com o ótimo Queime Isso, espetáculo que acaba de estrear no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro. Vi peças mais curtas que me fizeram bocejar trocentas vezes e cogitar sair do espetáculo, mas Queime Isso é como O Poderoso Chefão ou A Vida dos Outros, a fluidez do texto e a habilidade dos quatro atores em tornar os personagens cativantes e naturais fazem com que a atenção não se ausente nessa uma hora e quarenta minutos de duração da peça. Uma hora e quarenta minutos que parecem menos e que fazem com que você (eu!) saia querendo uma continuação, se pergunte sobre o que acontecerá com Burton, Anna, Larry, Jimmy, o que acontecerá com o apartamento onde as cenas se desenrolam? Sim, você sai querendo mais.
O texto é do dramaturgo americano Lanford Wilson, considerado um dos mais importantes do final do século 20, tradutor de diversas obras de Tchekov. A tradução para o português é de Ricardo Ventura e a direção é de Victor Garcia Peralta. Na atuação, Karine Carvalho, excelente do início ao fim, está quase o tempo inteiro no palco como Anna, vivendo o luto pela perda de um amigo querido com quem dividia o apartamento e com quem trabalhava; Celso Andre, como Burton, em crise criativa, tendo e não tendo ideias, acreditando e desacreditando de sua ficção; Alcemar Vieira como Larry (que conseguiu, na sessão em que vi, arrancar aplausos entusiasmados da plateia em dois momentos) e Tatsu Carvalho, ótimo como Jimmy Pale, o impagável e “truculento” (que não sabe o significado do adjetivo, mas que recebe a explicação de Larry, “pense que é como um caminhão) irmão do falecido.
Lanford Wilson foi vencedor do prêmio Pulitzer, entre outros, e o texto de Queime Isso gira em torno de encontros e desencontros entre os quatro personagens que enfrentam juntos a tragédia da morte de Robbie, cada uma à sua maneira, levantando questões existenciais. A perda do amigo leva a rumos diferentes e impensados na vida desses quatro personagens. O espetáculo tem momentos dramáticos e carregados de tensão, mas o fio condutor da encenação é de fato a leveza dos diálogos e da interação dos personagens, além da sagacidade de algumas fantásticas tiradas, as verdades cruas e irreverentes de Larry sobre a vida e as pessoas (“todas são assim, eu não inventei as pessoas!”), a humanidade bruta de Jimmy, a crise existencial do escritor Burton e a tentativa de reconstrução de si de Anna, cuja tragédia beira o devastador.
Mas o tempo, novamente o tempo, essa figura paradoxal que às vezes é um amigo que nos abraça, em muitas outras é um desafeto vingativo, o tempo é, enfim, o que pode transformar as relações entre os protagonistas e conferir ao trágico novas e inesperadas possibilidades. O tempo é o que permite o luto, a aceitação mútua, é o que destrói as resistências, é o que amadurece a criação artística.
Queime Isso fica em cartaz até o final de setembro, mas, como o tempo é subjetivo e relativo (e como talvez pode até ser que nem exista), é melhor correr para ver. Recomendo fortemente e aplaudo de pé.

Leia também em Revista Ambrosia.
Ficha Técnica:
Texto: “Queime isso” (Burn This), de Lanford Wilson
Direção: Vitor Garcia Peralta
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
Tradução: Ricardo Ventura
Cenário: Miguel Pinto Guimarães
Figurinos: Alessandra Padilha
Iluminação: Felipe Lourenço
Design Gráfico: Ana Andreiolo
Trilha: Mauro Berman
Atores: Karine Carvalho, Tatsu Carvalho, Alcemar Vieira e Celso Andre
Produção: Tatsu Caravalho e Ana Beatriz Figueras
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

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