domingo, 4 de maio de 2014

Livreto para Mojobooks, de 2009 - Secos e Molhados

http://urano789.digiweb.psi.br/mojo_inteira.php?idm=396

Em 2009, escrevi um livro para a Mojo Books, baseado no álbum número 1 dos Secos e Molhados. A Mojo Books é essa editora virtual que tem essa ideia interessante faz com que escritores transformem em pequenos livros seus álbuns preferidos.

Hoje eu escreveria tudo beeeem diferente, mas, vale recordar. Eu estava custando a achar esse link, tomara que fique acessível sempre.

Três Horas (para o Caneta, Lente, Pincel)



Naqueles tempos, era por volta das três horas que eu me levantava, um pouco antes do café da tarde, e me dirigia, fingindo tranquilidade, à caixinha do correio. 

A palpitação que se insinuava na garganta, eu tentava ignorar, e respeitava meu ritmo letárgico de ficar na ponta dos pés, alcançar a caixinha, apalpar seu interior.

Quando eram contas, informes publicitários, campanhas políticas, eu bufava mais durante as tardes. E às vezes me dava soluço. Refluxo. Diarreia. Diarreia era muito comum.

Quando chegava a carta, minha velocidade se tornava um processo aleatório, e eu nem era capaz de perceber o passo depois do outro que me levava de volta para casa. O café era mais vibrante, a temperatura que ele fornecia à minha língua era mais densa, prenhe de contornos. O céu da boca amolecia de prazer.

Eu lia a carta, que era sempre de uma só página. Na letra, algum tremor que me emocionava.

Quando terminava, corria para preparar o café, e a hora do café era a hora da releitura, de espichar os significados dentro de mim, extraí-los da carta e dispô-los, um a um, como objetos da minha sala, como almofadas novas sobre o sofá, como quadros na parede. Era o momento de produzir alguma saudade.

Depois eu cheirava a carta, deixava-a sobre a mesa, como o destaque necessário da minha vida. Até vir outra carta. Ele sabia que eu precisava de uma notícia com cheiro, com itinerário.

Minhas respostas, geralmente de meia página que eu demorava uma tarde para escrever, uma noite para reler, outra tarde para passar a limpo, minhas respostas talvez ele as esperasse sem café, sem ritual, sem almofadas.

E respondia no seu tempo. Naqueles tempos. Em que as cartas eram mensais.

Hoje, ele não me escreve mais.


***

O texto foi escrito para o coletivo Caneta, Lente, Pincel, inspirado na fotografia de Danielle Schlossarek. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

segunda


segunda-feira e o prognóstico da semana, o recomeço sempre à espreita, o bote dos dias úteis. o metrô e seu humor negro diário, sua piada de mau agouro. as pessoas paramentadas de bolsas, documentos, rugas na testa. as pessoas e seus itinerários urgentes, intransigentes. as pessoas. ------- eu.

domingo, 27 de abril de 2014

Tédio





Maluco, bateu agora um tédio abissal, abismal, abstruso, abestado, absurdo, abilolado, abirutado, aberto, abjeto, abestalhado, abiscoitado, abnegado, abjurado, abusado, abesourado, abrilhantado, amarfanhado, amartelado, amarrotado, amarronzado, amarrado, apalermado, apatetado, apadrinhado, apagadaço, aparvalhado, avacalhado, empoeirado, empoleirado, empertigado. 

Podem apagar a luz.

(na foto, uma cena do filme Kapo, que ajudou a combater outros tédios.)

sábado, 26 de abril de 2014

sublingual


ela achava que sabia. mas só naqueles dias descobriu o que era dor. pensava em yuka, contava o tempo de um modo inaugural em sua vida, quanto faltava para completar as malditas 12h, a próxima dose do remédio. nunca olhara um analgésico com tanta gratidão. não tivera dor de dente, desconhecia dor de parto, e o quinto metatarso que quebrara em 98 era já café com leite. pensava em yuka, yuka, yuka, sentia a presença do corpo latejando nas frinchas da pele, pensava: eu tenho um corpo, pensava: que horas são, pensava: eu tenho mesmo um corpo, não é que ele está aqui?, coincide comigo, yuka, yuka, já tá na hora, comprimido ou sublingual? queria ambos.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ela (Her): A humanidade que há em toda D.R. (resenha)


      Ao definir um produto de cultura corre-se sempre o risco de reduzi-lo. Encaixar uma criação artística nessa ou naquela legenda significa ajustá-la aos atributos da legenda, que são os que seu definidor conseguiu detectar, deixando outros de fora, possivelmente. Para falar sobre Ela (Her), filme de ficção científica que se passa em um futuro próximo, a ideia que me vem à cabeça, de modo insistente, é a seguinte: D.R., sigla designada para a expressão "discutir a relação". Quando penso em Ela, penso em D.R., e se tal sigla pode evocar algo chato, esse não é o caso de Ela, que considero um ótimo filme (bem, alguns vinte minutos a menos o tornariam excelente). Mas por que D.R.?

     No filme, dirigido por Spike Jonze (Quero ser John Malkovitch; Adaptação) Theodore (Joaquim Phoenix) trabalha escrevendo cartas para pessoas diversas, colocando-se no lugar delas, versando sobre relacionamentos e, por que não?, discutindo relações. Além disso, Theodore está se divorciando e pensa frequentemente na ex-mulher. A solidão que o envolve é sublinhada, no filme, pela vista magnífica de seu apartamento, que, apesar de bela, realça a tristeza própria das distâncias. Tudo ao redor do protagonista é cinzento, à exceção de suas camisas amarelas, vermelhas. Theodore paira acima de tudo e não parece feliz assim. Está à procura, mas saberá o personagem definir o objeto direto de sua busca?

     Quando adquire um sistema operacional com a simpática voz de Scarlett Johansson, tudo começa a mudar. O software é programado para agir do modo como Theodore gostaria que agisse, sem repetir os defeitos de sua mãe (que, em sua extrema incapacidade de ouvir, interrompia o filho, para falar sempre de si, tal como o próprio gerenciador do sistema operacional, quando a programação ainda está em processo), mas sendo tal software nada menos que uma super mãe idealizada (com tudo que ela tem de bom, com tudo o que um filho quer de bom e sem tudo o que seria péssimo em uma mãe como qualquer outra), que está sempre lá, muito mais do que suficientemente boa (para usar o conceito do psicanalista D.W.Winnicott), acolhendo, incentivando, preenchendo todos os vazios, sendo extremamente eficiente em organizar sua vida e estando disponível a qualquer hora do dia, em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Samantha é inteligentíssima, tem senso de humor e é criativa. Samantha, em suma, é um sistema operacional extremamente humano.

     Nesse ponto, não é difícil lembrar-se dos replicantes do Ridley Scott, em Blade Runner, e na filosófica questão que o filme trouxe: o que faz do humano, humano? A questão de Blade Runner pode ser trasladada para Ela: um sistema operacional como Samantha é humano, apesar de ter sido programado? Ou seria quase humano? É possível ser quase humano? Qual a autenticidade de tudo o que Samantha diz e de tudo o que diz pensar? Os sentimentos que demonstra, a prosódia de sua voz, os suspiros, as risadas, trata-se de software ou de humanidade? Uma coisa exclui a outra? No entanto, ainda me parece que Blade Runner é muito mais filosófico e que Ela, sem demérito na legenda que coloco, uma das tantas possíveis, é um filme sobre relacionamento.

     A partir daqui, spoiler...

     Entre Theodore e Samantha, como em qualquer relacionamento, as coisas vão ficando difíceis e os espaços para a clássica D.R. vão se ampliando. Se no início somos levados a crer que existe a relação perfeita – com um software criado em um futuro próximo, o que pode nos dar a esperança ou o estranhamento de não estarmos muito distantes da realidade retratada no filme – podemos acompanhar a derrocada dessa relação (ou os altos e baixos inerentes a qualquer relacionamento, digamos, humano). Os problemas não se devem ao fato de se tratar de um relacionamento sui generis. Ali podemos ver espelhado tudo o que acontece em uma relação normal. Afinal, para quem se apaixona, o outro inicialmente pode beirar a perfeição, tal como Samantha aparece aos olhos de Theodore. As projeções estão a mil por hora. Mas os descompassos vão acontecendo. Samantha se ressente do corpo que não tem e de uma humanidade que pode ser forjada, ficando insegura e recorrendo a soluções equivocadas.  Theodore se vê aquém do desenvolvimento de Samantha e se incomoda sobretudo com sua capacidade de se relacionar com milhares de outras pessoas enquanto ele julgava ser o único. Como em qualquer relação, a ilusão de que tudo é um se desfaz para dar lugar à realidade de que cada vida é uma vida à parte.

     O filme remete também à obra clássica Admirável Mundo Novo, de Huxley, em que os seres humanos cada vez mais dirigem seus olhares a telas, levando-nos a pensar o quão próximo disso tudo estamos, com nossos tablets, smartphones, vídeos em ônibus, etc. Parece que não nos olhamos mais uns aos outros ou, ao fazê-lo, necessitamos de recursos digitais para intermediar as relações e as vivências. A subjetividade vai se transformando em alguma coisa difícil de definir, mas que requer, cada vez mais, uma lente que não deixa de ser um terceiro, como a lente palavrosa das redes sociais (sem nenhuma crítica implícita, pois as uso). Quanto maior a impressão de que estamos ligados em tudo e em todos, e que tudo e todos estão sob nosso controle, menos nos olhamos sem mediadores, embrenhados num solipsismo não tão distante daquele dos usuários do metrô e seus respectivos sistemas operacionais que o filme nos mostra. 

Em algum momento, o espectador pode se perguntar se todos os sistemas operacionais serão Samantha, tapando com sensibilidade digna de nota todos os vazios possíveis. Mas talvez não estejam falando sozinhas, essas pessoas do metrô ou mesmo Theodore. Estão falando com espelhos em forma de Samanthas, que atualizam mães perfeitas provedoras de tudo o que cada um almeja de si mesmo. Ainda que seja assim, esse modo de relacionamento não está livre de gaps que nunca serão preenchidos, pois são tais gaps que conferem toda a graça em se relacionar.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Nebraska (resenha)


Sándor Ferenczi, psicanalista defensor da heterodoxia clínica, apontava que o conforto excessivo para aquele que ocupa a posição de analista é algo problemático: índice de certo engessamento e ausência de reflexão, a resistência é mais do analista do que do paciente, embora o conforto possa ofuscar tal percepção. Isso porque ocupar o lugar de analista, mergulhar no terreno afetivo e denso (a intensidade da experiência analítica) do campo transferencial não é nada fácil. O trabalho analítico se dá com pessoas em sofrimento, que buscam sofregamente respostas para perguntas às vezes impossíveis e, sobretudo, se dá com toda a complexidade que os vínculos e as relações afetivas detêm. Nebraska, filme em preto e branco de Alexander Payne (Os descendentes, Sideways) não fala de análise, inconsciente ou setting, mas trata exatamente dessa complexidade das relações e do quanto estamos o tempo inteiro ressignificando as figuras importantes de nossas vidas (assim como ressignificamos a memória e nosso próprio eu, o que pode ser considerado o trabalho básico de qualquer análise ou psicoterapia). Pude ver o filme com um grande amigo de faculdade, apreciador, como eu, do texto freudiano, dos autores da escola inglesa de psicanálise (em época na qual a moda carioca é a escola francesa) e dos teóricos das relações objetais (Balint, Winnicott, Ferenczi) e após a sessão fomos jantar no Fiorino, na Tijuca, conversando sobre o que podíamos considerar como sendo dificuldade em um acompanhamento psicanalítico. Nossa conversa em ziguezague girava em torno das relações e seus percalços, fossem com nossos pacientes, com nossos pares, ou aquelas retratadas em Nebraska, que, aliás, trata-se de filme tão rico que oferece múltiplos aspectos a serem examinados (o envelhecimento e suas perdas, a proximidade da morte, a sinceridade que a doença traz à comunicação humana, o esforço de aproximação entre pares), mas resolvo escolher um - o amor imenso de um filho pelo pai e a dificuldade de sua expressão, de sua realização – para me deter um pouco mais.
                Em Nebraska, Woody Grant (Bruce Dern) é um senhor alcoólatra e em início de processo demencial que acredita ter ganhado um milhão de dólares em uma propaganda enganosa de assinatura de revistas. Ele cisma que irá até Lincoln a pé e é encontrado nos mais diversos lugares, preocupando os filhos e a esposa (uma hilária June Squibb). Após tentar demovê-lo da ideia, o filho caçula, David (Will Forte), resolve acompanhar o pai na jornada a Lincoln, reencontrando familiares que não veem há muito tempo, acertando contas com o passado, revendo antigos cenários.
No início, o ressentimento em relação ao pouco caso que o pai tinha pelos filhos ou face a alguns possíveis ‘erros’ em sua criação, como quando Woody oferecia cerveja a David quando este tinha apenas 6 anos de idade, é o que há de mais relevante. Ross (Bob Odenkirk, de Breaking Bad), o filho mais velho, cogita interná-lo em um asilo. A viagem, porém, permite que a reconstrução da imagem do pai se dê aos poucos, pois David vai recolhendo, aqui e ali, elementos para a ressignificação da figura paterna. Alcoólatra, um pouco inconsequente, ensimesmado, hoje em dia rabugento, Woody foi uma pessoa amável, incapaz de negar um favor.  A jornada, que aos poucos reúne também o primogênito Ross e a esposa de comentários ácidos e impagáveis a respeito de tudo e de todos, evidencia o que antes não era claro. Ao final do filme, a respeito de sua cisma com o prêmio falso, Woody revela: “Eu queria deixar algo para vocês”. 
                O filme tem cenas hilárias, como a família extensa de Woody, em frente à televisão, presa de uma patetice sem precedentes, se deixando levar por tardes modorrentas em Hawthorne e programação insossa de televisão. O diálogo entre Woody, David, Ross e a mãe, quando resolvem resgatar um compressor antigo do pai, sublinha o nonsense, mostrando que a lucidez não é prerrogativa dos mais jovens, saudáveis ou sóbrios.
                Ao final, quando David, que faz tudo pelo amor e atenção do pai, resolve comprar a caminhonete que o interessava e deixá-lo dirigir, Woody retoma a dignidade que havia ficado para trás. Manda que o filho se abaixe e dirige pela cidade, sendo visto pelas pessoas que fizeram parte de seu passado, entre eles o sócio aproveitador e a ex-namorada simpática. Há uma tomada em que David o olha de baixo e Woody aparece grande, admirável, retomando a condução da direção não apenas do carro, como da vida. A cena é simbólica da relação do filho com o pai e sintetiza todos os esforços feitos por David ao longo do filme. Nebraska é despretensioso e calmo, e mesmo seus pontos fracos (a cena do soco, pouco convincente) não estragam a história.

                 Meu amigo disse em algum momento: não conseguimos ver nossos pais como pessoas. Talvez essa capacidade de enxergar as pessoas por trás das imagens que construímos delas seja uma dificuldade em qualquer relação, com nosso amigo mais próximo, com o chefe (especialmente com o chefe!), com o paciente. Em Nebraska, esse é o caminho do olhar de David sobre Woody, o de constante reconstrução. Woody, por sua vez, já se despojou de quaisquer imagens falsas a respeito de si mesmo. E, se apenas acredita no que lhes dizem, como David aponta em determinado momento, ao menos não se deixa levar por autoenganos.

sábado, 23 de novembro de 2013

Primeira pessoa


Indecisa ao absurdo. Ainda bem que não sou de libra, se fosse, não daria um passo. A cada gesto, uma indecisão coagulante. Congelante. Me bastam, até aqui, os sofrimentos típicos de canceriana. O mote da indecisão agora é se fico com o narrador de primeira pessoa ou de terceira. Nesse combate narrativo que não encontra vencedor, eu vinha escrevendo em terceira pessoa as cinquenta páginas dessa que já é a terceira versão. Agora resolvi mudar, mas não me resolvo. Então faço um capítulo por vez, vou reescrevendo e colocando o 'eu', devagar. Releio, penso, tomo um café, volto, salvo um novo arquivo da narrativa paralela. Se eu fosse libriana, nem sei o que seria de mim. Mas aos pouquinhos vou no ensaio e erro, como se fosse, essa escrita que não tem fim, questão de doze passos, um dia de cada vez, um capítulo também.