quinta-feira, 7 de março de 2013
Verme!
Um rápido movimento. Ele chega a encostar a massa disforme, peluda, sarcástica, aquele trocinho que ele não sabe definir, sujeito ou objeto?, mas que está ali a provocá-lo sutilmente, daquele jeito que irrita, que não para, não descansa. O bicho cinzento que resolvera acabar com a sua paz fica por vezes parado, espreitando-o como se não tivesse pulmões, observando-o com olhos ubíquos, mas também se aproxima, recua, toca nele, retorna à posição inicial, saltita, talvez até gargalhe, uma gargalhada miúda e íntima que ninguém mais escuta, mas que ele vê bem, e então novamente um movimento ligeiro e ele chega a perceber que sua unha encosta velozmente no sujeitinho indeterminado que recua sem piscar, recua após cada ataque, e depois volta, foge, pula, volta, pula mais, outro lance, nova aproximação, agora o sujeito indefinido pula em cima dele, caminha em seu corpo como se seu corpo fosse um trajeto pronto, mas ele não vai permitir, vira-se e rodopia no ar, uma pirueta que espanta os que observam, mas não há ninguém observando além do Marcos, no sofá, com um sorriso tão sarcástico quanto o da pequena pulga – se pulga é – que o exaspera (mas não a Marcos), e ele agora está em posição de ataque, num relance pega o bicho, os dois rolam se contorcendo, aquele sujeitinho mínimo vai morrer porque ele vai matá-lo facilmente, eles caem e viram e rodam e seguem juntos para debaixo de alguma coisa que não se pode mais identificar o que é porque ele está pronto para trucidar com ele, porque tem ódio, porque tem ganas de acabar com tudo, mas o bicho também é bom em se livrar de armadilhas, e num pulo que ninguém saberia explicar com argumentos racionais ele já está livre, já está longe, está no alto da mesa olhando-o firme, rente, risonho, aquela sua risadinha interna que poucos são capazes de perceber, e então o monstrinho insuportável some e Félix olha para Marcos, que larga uma vareta com algo pendurado que ele não sabe o que é, se abaixa e o aperta, ‘Agora acabou a brincadeira, Félix, vamos aparar essas suas garras que daqui a pouco não temos mais sofá!’, e o deixa sozinho, sem entender nada, procurando o misto de rato e verme, muitíssimo mais verme do que rato, sem saber onde, e tendo que dar conta (sozinho! sozinho!) de toda a sua raiva e agitação.
(Texto para o Caneta Lente e Pincel, inspirado em composição musical de Gilson Beck.)
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Não era eu
Não era eu. Não era eu ali, roendo as unhas que deixei crescer por um ano, arranhando a casca por cima da ferida pulsátil. Não era eu ali, esperando que as horas passassem como quem observa os vagões do metrô correndo em alta velocidade, não era eu ali, constrangida comigo mesma, confrangida por não ter escolha, contraída por conta de um medo sem tamanho e sem motivo. Não era eu ali, não era mesmo eu ali, não eu, era outra, outra quem?, mas eu não, não era eu ali enrolando no dedo indicador uma mecha de cabelo pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, e tampouco era eu que balançava a perna direita, pra cima e pra baixo, veloz, voraz de chão, também como quem tem pressa em esmagar mil estalinhos que só explodem um de cada vez, ou até como quem mói as migalhas de pegadas alheias. Não era eu ali em toda aquela insanidade e em toda aquela ansiedade que poderiam ser medidas a metro, pesadas a kilo, pintadas com tinta acrílica, de tão densas, de tão vívidas. Não era eu ali ponderando onde a tela - o retrato da ansiedade, o sumo da insanidade - seria afixada, talvez no quarto, talvez na sala, apesar de o forte da ansiedade não ser a estética. Não era eu ali nervosa, acumulando saliva na boca, e não era (não podia ser!) eu ali pensando naquelas formas todas e inteiras de recriar o quebra-cabeça que havia se tornado a minha vida naquele mês de janeiro. Não era eu ali que fazia os cálculos do que daria no futuro as consequências das palavras que não pronunciei, as imagens impolutas que risquei, as ideias que apartei de mim. Não, definitivamente, não era eu, era outra, era a antítese de mim mesma, e se fosse alguma coisa que valesse a pena definir, só podia então ser aquela que viria antes do definitivo eu, cujas fronteiras ainda estavam por ser traçadas. Mas não era eu ali e não era eu ainda.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Linhagem
Antuérpia, que odiava seu nome, acordou de saco cheio. Arrastou-se o dia inteiro em cima de um sono sem origem. Bebeu café, antes das três horas, e se sentiu emergindo da bancarrota. Chegou a comentar com sua mãe, Petra, que também não suportava seu nome:
Esse café me salvou da bancarrota.
Petra não entendeu o comentário da filha, mas acreditou que o café que tinha feito estava a gosto. Pensou em perguntar, Antuérpia, minha filha, você sabe o que é bancarrota? Até formular a pergunta, demorou-se na indecisão.
É falência, não é, mãe? Sinto-me falida, vivendo uma espécie de bancarrota existencial ou espiritual, não sei bem.
Petra entendeu bem. A filha completou dizendo que era algo do dia, aquele dia, nublado, feriado, mortos, chuva, biorritmo, constelação astral, não sabia bem os porquês. O fato é que o café a revigorara. Uma leve pressão sobre a cabeça - que até poderia se transformar numa enxaqueca mais tarde - sumiu após o benfazejo líquido escuro.
Depois foram se sentar ao lado da vovó Lupicínia, que também provara do café, que também se sentia emergindo de uma exaustão sem causa e via televisão sem meta e destino. As três, na sala, sentiam-se bem, às cinco e meia da tarde.
Vovó Lupicínia nada dizia em geral, mas também não tolerava o próprio nome.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Elisa, chegando em casa
Elisa, voltando a casa.
Seu humor, extenuado.
Seu pensamento, embaraçado.
Seu passo, desengonçado.
Queria banho, água, queria lanche, lençol macio.
Elisa, olhando em volta.
Sua vida, desenxabida.
Seu trâmite, desgovernado.
Sua aposta, enviesada.
Gostava de imaginar que o futuro de todos era previsível.
Aquelas pessoas, desenfreadas;
outros passantes, desmantelados.
Teriam todos o mesmo fim:
doença, dor ou acidente.
Todos, desfigurados.
Elisa, vagando etérea.
Cansada, achava graça.
Da corrida, ensandecida.
Dos planos, apatetados.
Do fim, igualitário.
O advogado amarronzado. O médico esbranquiçado. O pedreiro acinzentado. A grávida avermelhada.
Após anos, desmiolados.
Escapatória, não havia uma.
Elisa sabia bem:
acabariam todos
deitados, torcidos,
doídos.
Elisa, chegando em casa.
Cansada, tirando o salto.
O fogão, o chuveiro, a cama
A vida
O lençol macio.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Manhã
Ela sentiu aquela angústia gelada novamente, quando o despertador tocou. Tinha de acordar. Levantar era erigir-se, era enfrentar o mundo, era saber o que dizer e o que calar. Era, principalmente, aceitar quando não soubesse o que dizer e o que calar. Respirou fundo e foi passar o café.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Macarrão Instantâneo
Fast food é comida ruim que você faz sem precisar gastar muito tempo do seu dia, que já é pouco e cada vez encurta mais. Tempo é um tema ao qual os filósofos dedicam muitos instantes sem chegar a conclusão alguma que o valha. Instante é a medida de tempo que você pode gastar para fazer um macarrão do tipo miojo, que também é chamado de comida instantânea. Instantâneo é aquilo que tem a capacidade altamente invejada de se fazer existir ou de se fazer entender ou de se fazer desejar em um instante. Instante é a medida do tempo que você gasta para passar de um pensamento a outro. Pensamento é um processo cognitivo de tese, antítese e síntese, silogismos e neologismos, fantasia e horror. Horror é a sensação de que o mundo vai acabar e de que você não fez nada que te alçasse à categoria de especial. Especial é tudo o que não é medíocre e que causa espécie, assombro, surpresa àqueles que com ele tomam contato. Contato é a ligação de algo com alguma coisa. Alguma coisa é um conceito dotado de tanta imprecisão quanto tudo que se disse até agora neste texto. Imprecisão é a qualidade maior presente no sabor do macarrão que se faz em um instante. Instante é o tempo que o ponteiro precisa para alcançar o número 12 do relógio. Número 12 é o número da casa da minha tia, de nome Celinha, casada com meu tio, de nome Tavinho. Tia Celinha e Tio Tavinho adoram comidas que não sejam instantâneas, nem momentâneas, nem fugazes, nem velozes, nem superficiais, nem vegetarianas. Celinha não sabe o que é o instante, nem o vazio, nem a morte. Só pensa em agradar ao tio Tavinho e aos filhos. O tio Tavinho não faz idéia do que possa ser o imperativo categórico e nem o mundo como vontade e representação. Só pensa em ver futebol, beber cerveja, consertar carros na oficina e em outras coisas que não convém falar. O filho mais velho da tia Celinha e do tio Tavinho fez vestibular e começou a estudar filosofia, para desgosto da família. O primogênito de Celinha e Tavinho não puxou a nenhum dos dois e se chama Humberto. Vive às voltas com livros e começou a questionar tudo o que os pais davam por certo. Tornou os almoços insuportáveis quando veio com aquela história de que o instante sem lugar é o que realmente importa. Causou gastrites que viraram úlceras no tio Tavinho quando resolveu fumar maconha e citar Platão quanto bem entendia. Tio Tavinho, que nunca fora dado a insônias, deixou de dormir, pois tudo virava pergunta sem resposta e a tudo o que ele dizia vinha o Humberto com uma frase ininteligível e pomposa. Inclusive tia Celinha e tio Tavinho já não tinham mais certeza de nada. A tartaruga Neném, da família, passou a ser objeto de acaloradas discussões, quando Humberto resolveu trazer para a ceia de natal o assunto estranhíssimo acerca da corrida de Aquiles com a Tartaruga e o paradoxo que a família nunca conseguiu entender. Humberto tecia longos sermões achando belíssima a permanência de Neném, a tartaruga, sempre no mesmo lugar. Entretanto, da perspectiva da família, ele já não falava lé com cré, mas, quando foi expulso de casa por ter tornado a convivência entre todos insuportável, foi num único instante que se deu conta de que não tinha um tostão no bolso, de que só sabia cozinhar macarrão instantâneo e que teria de voltar atrás. Atrás é uma posição no espaço situada antes daquela na qual a pessoa, no caso Humberto, se encontra, e pela qual, presume-se, ela já passou. Passado é outra dimensão do tempo, aquele que é difícil conceituar mas que passa voando.
(Conto que deu origem à animação O Filho das Flores, de Johandson Rezende, com texto do conto.)
quarta-feira, 4 de julho de 2012
A primeira metade
Quando chegava o dia primeiro de julho de qualquer ano, Joaninha assustava-se um pouco e se dava conta de si, de modo a apurar o olfato e entender o cheiro que saía de seus pulsos, de modo a mirar no espelho sem pressa e contar os novos fios de cabelo branco despontando no alto de sua cabeleira grisácea, de modo a também medir a altura e ver se se curvara ainda mais ou não, de modo a contabilizar os progressos feitos, apalpar as próprias mãos, conferindo os calos novos e os antigos. Fosse o ano par, fosse o ano ímpar, quando chegava o primeiro de julho, Joaninha sempre interrompia a marcha, deitava-se na primeira pausa para respirar, se houvesse alguma, e se concentrava na ida e na vinda da respiração, nos movimentos torácicos, e se sobrasse tempo piscava várias vezes para se certificar de que seus olhos continuavam vendo o que sempre viam e se a lubrificação daquele globo ocular às vezes ardido, às vezes suave, estava ok. O primeiro de julho não passava em branco, e ela dizia a si mesma: foi-se, então, uma metade, falta a outra. E era como um novo mezzo-revéillon, quando então Joaninha elaborava a lista do que faltava e a lista do que já se resolvera, abria e fechava as mãos, no intuito aumentar a elasticidade das garras e, com isso, segurar fôlego extra, e continuar a caminhada até a próxima pausa do cafezinho.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Associação Livre
Ela sabia que na semana que vem tudo teria de estar bem, inclusive sua dor no corpo teria de passar, sem contar a tosse, que teria de estar silenciada. A tosse tinha a potência do grito somada à dor do parto. Ela não sabia muito bem como era a dor do parto, mas ela sabia o que uma tosse podia provocar, desse jeito alérgico e persistente. Aliás, refletindo sobre isso tudo, ela julgou que gostaria de ter a persistência de sua tosse, mas seu forte era o pessimismo. Tão pessimista era ela, que acabava desistindo de uma série de coisas que se apresentavam confusas. Na verdade, ela sabia o quão confusa ela própria era, e não se enganava quanto à vida, que não tinha nada de exata e homogênea. Talvez fosse por isso que ela não gostasse muito de ciências exatas: quanto mais exata e quanto mais ciência, menor a parcela de vida no que quer que seja. Ainda que soubesse de tudo isso, era puro raciocínio, pois as conclusões - e uma delas era: a normalidade é a confusão - não traziam serenidade a ela. No afeto, na sensação, no sentimento, ela achava que tinha que ser menos confusa e que a vida tinha que ser menos embaralhada também. Tudo lhe parecia uma grande mixórdia de nomes, recortes, cenas incongruentes, lógicas enviesadas, tudo lhe parecia entulho, pois era míope, e se não ajustasse a vista, enxergaria o mundo pelo avesso. E ela dizia a si mesma que o avesso era sua vida, ainda que concordasse que era difícil não encontrar uma vida pelo avesso. E que há avessos menores e maiores, além dos médios, e que se parasse para pensar, sua vida era um avesso diminuto. O principal da sua desrazão era não saber se seu nome correspondia a ela mesma e se havia o ela mesma embaixo do seu nome (ou a ele interligado), tanto que pretendia trocar alguma coisa essencial em sua vida. E se questionava o que era vida e pra que ela servia. Não atinava com a idéia de que a meta da vida seria a diversão, isso era muito pouco, muito pouco. Não atinava com essa gente toda que achava que viver a vida é se divertir em todos os sábados, ainda que ela adorasse uma diversão, e também os sábados, e sobretudo os sábados divertidos. Ela não atinava com muitas coisas e resolvia escrever, para ver se encontrava algum sentido e algum fio da meada. Reconhecia que, se encontrasse um fio da meada, qualquer tipo de criação e até de pensamento teria fim. Ela gostava dos finais, porque as interrupções, suspensões e términos traziam também alívio, ela precisava sentir alívio. E pensando nisso tudo relembrou que já estava numa insônia braba só porque começara a se lembrar de que a semana que vem não seria uma semana anódina e ela precisava estar minimamente saudável, com os leucócitos em dia, com as hemácias na medida certa, com as plaquetas funcionais, com as glândulas corretas, porém agora o que não a deixava em paz era uma tosse e um resfriado que gostaram muito dela e não havia reza e bênção que dessem jeito de expulsá-los de seu corpo minguado, de sua garganta esfacelada e de seu restinho de semana, que era a semana anterior à semana que vem.
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