sexta-feira, 22 de junho de 2012
Associação Livre
Ela sabia que na semana que vem tudo teria de estar bem, inclusive sua dor no corpo teria de passar, sem contar a tosse, que teria de estar silenciada. A tosse tinha a potência do grito somada à dor do parto. Ela não sabia muito bem como era a dor do parto, mas ela sabia o que uma tosse podia provocar, desse jeito alérgico e persistente. Aliás, refletindo sobre isso tudo, ela julgou que gostaria de ter a persistência de sua tosse, mas seu forte era o pessimismo. Tão pessimista era ela, que acabava desistindo de uma série de coisas que se apresentavam confusas. Na verdade, ela sabia o quão confusa ela própria era, e não se enganava quanto à vida, que não tinha nada de exata e homogênea. Talvez fosse por isso que ela não gostasse muito de ciências exatas: quanto mais exata e quanto mais ciência, menor a parcela de vida no que quer que seja. Ainda que soubesse de tudo isso, era puro raciocínio, pois as conclusões - e uma delas era: a normalidade é a confusão - não traziam serenidade a ela. No afeto, na sensação, no sentimento, ela achava que tinha que ser menos confusa e que a vida tinha que ser menos embaralhada também. Tudo lhe parecia uma grande mixórdia de nomes, recortes, cenas incongruentes, lógicas enviesadas, tudo lhe parecia entulho, pois era míope, e se não ajustasse a vista, enxergaria o mundo pelo avesso. E ela dizia a si mesma que o avesso era sua vida, ainda que concordasse que era difícil não encontrar uma vida pelo avesso. E que há avessos menores e maiores, além dos médios, e que se parasse para pensar, sua vida era um avesso diminuto. O principal da sua desrazão era não saber se seu nome correspondia a ela mesma e se havia o ela mesma embaixo do seu nome (ou a ele interligado), tanto que pretendia trocar alguma coisa essencial em sua vida. E se questionava o que era vida e pra que ela servia. Não atinava com a idéia de que a meta da vida seria a diversão, isso era muito pouco, muito pouco. Não atinava com essa gente toda que achava que viver a vida é se divertir em todos os sábados, ainda que ela adorasse uma diversão, e também os sábados, e sobretudo os sábados divertidos. Ela não atinava com muitas coisas e resolvia escrever, para ver se encontrava algum sentido e algum fio da meada. Reconhecia que, se encontrasse um fio da meada, qualquer tipo de criação e até de pensamento teria fim. Ela gostava dos finais, porque as interrupções, suspensões e términos traziam também alívio, ela precisava sentir alívio. E pensando nisso tudo relembrou que já estava numa insônia braba só porque começara a se lembrar de que a semana que vem não seria uma semana anódina e ela precisava estar minimamente saudável, com os leucócitos em dia, com as hemácias na medida certa, com as plaquetas funcionais, com as glândulas corretas, porém agora o que não a deixava em paz era uma tosse e um resfriado que gostaram muito dela e não havia reza e bênção que dessem jeito de expulsá-los de seu corpo minguado, de sua garganta esfacelada e de seu restinho de semana, que era a semana anterior à semana que vem.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Lista incompleta
Não saberia usar uma mensagem sucinta para explicar sua saudade. Não saberia usar uma frase desarrumada para improvisar um sorriso. Não saberia ficar quieta para esperar a dúvida passar.
Percebeu que não sabia muitas coisas, e aquela era a sua última lista do dia de hoje e seria a primeira a continuar completando no dia seguinte. O papel a esperaria sobre a mesa.
Depois de largá-lo dobrado, tossiu umas quantas vezes, que era o que de mais completo lhe saía da garganta. Sentiu a febre, olhou a janela e parou de pensar, por minutos a fio.
sexta-feira, 9 de março de 2012
A volta do verão (para o Clube da Leitura da Volta)

Naqueles anos de 2010 a 2030, muito havia mudado nas cidades, na cultura e especialmente no clima. Já se falava, próximo a 2012, que o mundo acabaria, mas, em 2012, o mundo persistiu em sua existência.
O que causou espécie, entretanto, foi o fato de que algo começou a mudar no clima da cidade do Rio de Janeiro de modo mais marcante. O verão se iniciara tarde e as águas de março chegaram pontualmente, trazendo frio e exigindo o uso de cachecol e meias de lã na cidade. Ainda não era outono e todos já percebiam que o frio se embrenhava nos orifícios de seus ossos, fazendo com que se recolhessem mais cedo em suas casas. Os chás, os chocolates quentes, tudo que trazia um pouco mais de calor àqueles buraquinhos dos ossos e das malhas de lã, foram se proliferando entre os cariocas, desacostumados às baixas temperaturas. Não é preciso dizer que o frio se intensificou ainda mais nos meses pertinentes. Em junho, por exemplo, a temperatura ficou próxima do zero no dia de São João, o que era fato raríssimo. Na região serrana, em alguns pontos isolados, deu no repórter que nevou. Noticiava-se a morte de mendigos nas esquinas. Nunca se vendeu tanto edredom como naquele ano.
O mais estranho de tudo – e isso os frequentadores de um sebo na Zona Sul da cidade, que se reuniam quinzenalmente para ler e escrever em conjunto comentavam com vividez em suas rodas de cerveja e chopp que se transformavam agora em rodas de chocolate quente e lareira na serra – foi que no final de 2012 e nos anos seguintes não houve verão. As confecções de roupas de praia chiaram, sem ter o que fazer. Cangas, chapéus de praia, protetores solares perderam a serventia. Janeiro não teve sol e as águas de março já não fechavam verão algum. Assim os anos correram, sem que os cariocas pudessem experimentar novamente o calor de 40 graus à sombra. Moradores de Bangu, onde era usual dar a máxima temperatura, e onde já se fritou um ovo no asfalto da Av. Ministro Ari Franco, puderam se sentir um pouco mais aliviados. O sufocamento causado por temperaturas acima dos 40 graus tornou-se quase uma lenda urbana. As pessoas se lembravam com nostalgia do tempo em que o verão existia. Os frequentadores do clube da leitura levavam para seus encontros ensaios, entrevistas, reportagens que giravam em torno da existência de figuras mitológicas de veraneio, mas muitos lembravam-se de férias na praia e juravam que aquilo tudo – calor, suor, vontade de praia, ar condicionado – existira com vigor há poucos anos atrás. Mas muitos já se esqueciam, tanto quanto já não se recordavam do tempo em que não havia a internet, o facebook e o twitter.
O assunto da mudança climática era o tema principal nos telejornais. Os meteorologistas nada entendiam e forjavam teses que mal e mal explicavam os destemperos do clima carioca. Ecologistas bradavam culpas, responsabilidades, medidas urgentíssimas. Os frequentadores do sebo de Copacabana escreviam contos cujos motes eram a vida invernal, as catástrofes climáticas, a vida interplanetária.
Foi somente no ano de 2032, que, em outubro, quando ninguém mais se lembrava o que era o horário de verão – extinto por decreto em 2014 – um calor abrasador se fez como há muito não se via. No jornal, anunciaram o dia mais quente do ano na cidade: 33 graus. O dia seguinte repetiu o calor e os cariocas correram às praias, comprando biquínis e sungas às pressas. Tinham de aproveitar aquela exceção climática que há muito não constatavam. As praias lotadas foram motivo de comemoração. Os frequentadores do sebo na Zona Sul marcaram um encontro quinzenal no quiosque na praia. Quando ninguém esperava, o verão chegou antecipado. O chão das ruas pelava, Bangu deu a máxima novamente. Foi anunciada finalmente a tão esperada volta do verão, que os clubinos-da-leitura, que se reuniam há quase 25 anos, agora mais idosos e experientes, comemoraram no dia 31 de janeiro de 2032, quando retornaram do recesso de fim de ano para ler seus contos coletivamente, no mesmo sebo, em Copacabana, colocando a temperatura do ar condicionado da loja no máximo e marcando o próximo encontro, excepcionalmente, de dia, em Ipanema, embaixo de alguma barraca, de preferência no Posto 9.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Alice de todos nós
Alice saiu correndo do conto da Danielle e caiu no conto do Guilherme. Por uma semana, ela queria viver de facebook. Ter amigos virtuais, conversas de chat, comentários sucintos sobre tudo e sobre coisa alguma, rodear-se de audiovisual no interior de seu micro-apartamento de 27 metros quadrados e mais um terço. Deixou pra lá as indecisões, as inspirações, as aspirações, deixou pra lá o que não se concluía para tirar muitas conclusões, todas elas via twitter de preferência. Queria ver os vídeos de youtube que adiara por meses, queria tirar a semana para si, seleta em seu tubo com ar condicionado, ao som de Tim Maia 1973.
Após uma semana, saiu correndo do conto do Guilherme e caiu novamente no conto da Danielle, porque queria agora alguma paz, e a sutileza de quem aguenta o descanso, de quem insiste na intimidade. Mas tinha saudades de seu autor anterior. Queria ser de ambos: de Danielle e de Guilherme.
Ficou sabendo, entretanto, que havia a Vivian. Alice quis experimentar um conto da Vivian, como seria? Seria indeciso, seria angustiado, seria lancinante? Saiu correndo novamente do conto da Danielle (o coração apertado), pegou a primeira à esquerda (a primeira à direita daria em Guilherme, e essa vereda ela já conhecia, intencionava novidades, ainda que poucas e dosadas) e caiu na Vivian, que não a deixou em paz um segundo sequer. Com a Vivian era assim, ela não dava uma trégua. Não passou dois dias e fugiu novamente, mas até que gostou, de longe.
Nostálgica de Guilherme, nostálgica de Danielle, ainda assim queria uma labareda na qual já não houvesse se queimado, uma umidade em que não tivesse escorregado. Pensou rapidamente, tentou se lembrar de todas as querelas anteriores que um dia acalentou, até ter o insight! Não, o que lhe convinha, agora e não depois, seria um quadrinho do Johandson! Ela queria o colorido de sua caricatura estampada qual espelho, precisava se ver de longe e de perto e entender-se eternamente, pois só nos traços de um desenho conseguiria levitar. O que Alice agora almejava era a rapidez e a graça boba, o pinote pintado. Queria mais de setenta curtis e uns quinze compartilhamentos.
(Essa postagem é de Johandson, é de Danielle Schlossarek e é também de Guilherme Preger.)
Após uma semana, saiu correndo do conto do Guilherme e caiu novamente no conto da Danielle, porque queria agora alguma paz, e a sutileza de quem aguenta o descanso, de quem insiste na intimidade. Mas tinha saudades de seu autor anterior. Queria ser de ambos: de Danielle e de Guilherme.
Ficou sabendo, entretanto, que havia a Vivian. Alice quis experimentar um conto da Vivian, como seria? Seria indeciso, seria angustiado, seria lancinante? Saiu correndo novamente do conto da Danielle (o coração apertado), pegou a primeira à esquerda (a primeira à direita daria em Guilherme, e essa vereda ela já conhecia, intencionava novidades, ainda que poucas e dosadas) e caiu na Vivian, que não a deixou em paz um segundo sequer. Com a Vivian era assim, ela não dava uma trégua. Não passou dois dias e fugiu novamente, mas até que gostou, de longe.
Nostálgica de Guilherme, nostálgica de Danielle, ainda assim queria uma labareda na qual já não houvesse se queimado, uma umidade em que não tivesse escorregado. Pensou rapidamente, tentou se lembrar de todas as querelas anteriores que um dia acalentou, até ter o insight! Não, o que lhe convinha, agora e não depois, seria um quadrinho do Johandson! Ela queria o colorido de sua caricatura estampada qual espelho, precisava se ver de longe e de perto e entender-se eternamente, pois só nos traços de um desenho conseguiria levitar. O que Alice agora almejava era a rapidez e a graça boba, o pinote pintado. Queria mais de setenta curtis e uns quinze compartilhamentos.
(Essa postagem é de Johandson, é de Danielle Schlossarek e é também de Guilherme Preger.)
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
A viagem de Cida

Fiz as contas mentalmente... quinze... dezesseis... dezenove... vinte e um... vinte e cinco... vinte e cinco? vinte e cinco! Peraí, será que é isso mesmo, posso ter errado, não é muito? Refiz, embora eu fosse boa em contas rápidas. Vinte e quatro... vinte e cinco sim! Faríamos vinte e cinco anos de amizade apesar de nem sermos tão antigas(nada antigas!) assim... Era isso mesmo... Enquanto eu esperava a Cida chegar ao cinema, ficava me lembrando de tudo, do tempo, das quantidades, dos espaços e das vivências percorridas... Era isso mesmo, havíamos nos conhecido no colégio, o velho primário que nem mais tem esse nome...
Lembra, lembra da diretora, a dona Ezyr? Talvez ela lembrasse, eu puxaria o assunto. E quem é que esquece da velha rabugenta, que gritava do alto da escada, que mandava o colégio inteiro fazer filas, se formar, cantar o hino, quem é que esquece dos gritos dela quando estudávamos na maior sala de aula do colégio, no topo de tudo (era o topo de tudo, para mim, à época, a sala de aula chamada de 'salão', status ampliado para quem iniciava o ginásio), quando chegáramos à antiga quinta série, o último ano que eu e Cida fizéramos na escola? Quem é que pode esquecer da voz rouca da velha anunciando (irônica, hoje percebo): "tô chegando... tô chegando...", enquanto subia as escadas e se aproximava, e a algazarra da turma ir se recolhendo assustada, enquanto o furacão-dona-Ezyr ainda não havia passado? Lembrei de um episódio: a Cida levou um brinquedinho da época (saudosos anos 90), chamado fluf, que entrou na moda em pouco tempo, mas ela, como de praxe, a Cida, fora a primeira a levar a novidade à escola (a Cida sempre tinha umas novidades dos States). Não me lembro de quem era a aula - matemática da dona Vanda? geografia do professor Cléber? ciências da dona Clio? -, mas o fato é que a Cida, que não era muito bagunceira, começou um movimento estranho de jogar o fluf (aquela bolinha peluda de plástico, fofinha de pegar) para nossos colegas e, enquanto o professor (quem? quem?) virava-se para o quadro-negro para escrever a matéria, nós jogávamos entre a gente, a turma imensa, as gargalhadas e risinhos contidos, a euforia querendo estourar, a alegria de estar fazendo besteira, uma trivial besteira que gostávamos tanto de conseguir fazer... a turma em um jogo cínico, que pausava quando o professor virava-se para nós, até que a dona Ezyr chegara no momento da brincadeira! O susto! De quem era o brinquedinho felpudo? Da Cida! Deve ter sido a única vez em que a Cida perdera o recreio...
Olhei para o relógio, dez minutos haviam se passado, Cida vinha de Niterói, sua última mensagem: "Vera, tô na ponte. Me aguarde!". Como eu fora capaz de lembrar de algo que ficara ausente de minha memória durante tantos anos? Em que gaveta esse episódio do fluf se escondera? Éramos outras pessoas! Crianças! 11 anos! E agora, com mais de trinta, quanta coisas vivêramos, cada uma de nós, em nossas vidas, o quanto havíamos mudado? Éramos adultas, formadas, profissionais, eu já tinha umas boas dúzias de fios de cabelo branco querendo se apropriar do terreno. Quem podia imaginar que chegaríamos naquilo: naquelas pessoas que éramos? O tempo é estranho... E agora a Cida vinha para uma de suas últimas sessões de cinema no Rio de Janeiro. Em menos de um mês mudar-se-ia para Nova Iorque. Sua ideia era permanecer um ano por lá, algo assim. Mas eu sabia: meus amigos que viajavam para outras cidades e países tinham um cronograma de x tempo e acabavam ficando 3x tempo, 4x tempo, x + y tempo... Em outro país. Distante... Bem longe da rua da escola. Bem longe da dona Ezyr, que é possível que estivesse morta hoje. Longe dos caminhos usuais.
A verdade é que a vida moderna distancia as pessoas, a vida adulta! Sim, eu não via a Cida sempre. Na infância, dez minutos separavam nossas casas. Ela morava em uma pequena rua transversal à minha. Fizéramos clubinhos, brincadeiras, briguinhas, intrigas, amizades e inimizades, fizéramos festas e planos, viagens também. Fizéramos espuma com banheira da Barbie. Fizéramos até mesmo um jornalzinho, quando crianças. E, com o tempo, as escolhas, os caminhos, sim, não nos víamos com a frequência com que nos víamos naqueles anos da escola. Mas amizade de escola tem algo de eterno, a não ser que se mude muito, e não fora o caso, apesar das mudanças. Talvez houvéssemos mudado em iguais veredas, em proporções semelhantes. Sim, mudáramos, porque é impossível não mudar, mas na mesma sintomia, em dimensões vizinhas. Mesmo sem ver a Cida durante anos, quando a encontrava, era como se fosse aquela mesma atmosfera dos anos infantis. Ela não era uma estranha. Não havia silêncio constrangedor. Eu não ficava sem saber o que dizer. Eu não temia que ela me estranhasse, ainda que me estranhasse, porque a Cida costumava estranhar as coisas, mas era o estranhamento dela, que sempre fora dela, e não um estranhamento que une e desune pessoas de fato estranhas entre si. E pensar naquilo - na ausência de espaço e tempo entre duas afetividades - me deu um certo alívio, porque só mesmo uma tal ausência explica tanta familiaridade em esparsos reencontros.
Cida chegou. Em ponto (eu havia chegado antes). Compramos os ingressos e as pipocas. Sim, estávamos fazendo algo que fazíamos muito quando pequenas. Estávamos vendo filmes. E quando ela voltasse de Nova Iorque nada nos impediria que fôssemos ao cinema mais uma vez. Era o que, inequivocamente, acabaria acontecendo.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Notícias de Edivaldo
Era perto do ano novo. Todos naquele clima de virada, de promessas, de futuras dietas, de roupas brancas. O carteiro chamou. Vinha uma carta de um amigo que eu não via há muitos anos. O Edivaldo. Ele mesmo! Havia se mudado com a filha e a esposa para Roraima. Era militar. Tinha essas coisas de ser transferido. Quando ele contou a notícia de que teria de se mudar, fiquei com vontade de chorar. O meu melhor amigo ia embora, aquele que durante a faculdade me explorava nos trabalhos em grupo, aquele que colava de mim nas provas do colégio, mas que era o mais engraçado e tão problemático quanto eu, daí nossa imensa afinidade. Eu gostava da amizade dele porque ele era um problemático que disfarçava e eu achava que, só de estar ao seu lado, poderia imitá-lo e me tornar uma problemática que ninguém sabe que é. Ele era tímido e inseguro mas parecia muito dono de si. Era quase um atleta, com sua rotina de acordar cedo, ir à praia, caminhar, correr, andar de bicicleta. Eu não sabia fazer nada daquilo, mas dançava melhor que ele e escrevia melhor também, embora ele jurasse a si mesmo que não (e eu sabia ler alguns de seus pensamentos, melhor até que ele). A gente ficava nessas competições inúteis e acabou que, com o passar dos anos, ele se tornou meu confidente, e eu dele, até que outros amigos do sexo oposto viessem, para um e para outro. Era ótimo ter um confidente do sexo masculino. Eu podia saber as opiniões de um legítimo representante da macheza brasileira. E ele era legítimo mesmo, quase um puro sangue!
O fato é que nós crescemos juntos, essa é a verdade. Fizemos a mesma faculdade, nos formamos na mesma profissão, lamentamos juntos os fracassos, as frustrações, as dificuldades do mercado de trabalho, estudamos e lemos livros juntos, colocamos em prática 34% de nossos planos juvenis e sempre que nos escrevíamos falávamos em nossos longos e inumeráveis ps que realizaríamos em breve os outros 66% (entre os quais fundar uma instituição pan-total, um lugar que oferecesse de tudo um pouco, de psicanálise a rituais religiosos de quaisquer credos, de cursos de malabarismo a esportes radicais, de oficinas de fazer amigos a aulas de memorização da história mundial, de práticas sadhus a cursos de como paquerar com sucesso na noite carioca, e por aí vai). Mas depois que ele foi para Roraima, nosso contato foi diminuindo, apesar dos facebooks, skypes e aeroportos da vida.
O engraçado foi o inusitado daquela carta escrita a mão, que o carteiro entregou após chamar no portão. É, o Edivaldo sabia ser inusitado. Ele tinha uma agenda de contatos que deve ter sumido após o casamento, assim como tinha umas bicicletas que quase voavam. Ele sempre tinha uma opinião resmungona também. Mas aquilo de escrever carta era demais.
Reconheci a letra no envelope na hora (afinal, estudáramos juntos tantas vezes que, mesmo ele indo na minha aba na faculdade, ao menos eu o fazia copiar as questões de alguns trabalhos que fazíamos em grupo) e abri rapidamente: o que ele estaria aprontando agora? Fiz as contas mentalmente: a filhinha dele, Clarissa, devia estar com sete anos. Do envelope, caiu uma foto: a menina estava linda. Desdobrei a carta, uma folha de papel com aquela letrinha espremida dele.
"Querida Vilma, estou voltando em breve! E nada melhor do que as notícias escritas com a letra da emoção! Não vejo a hora de voltar, de rever minha família, meus velhos amigos, minha cidade, não vejo a hora de ir à Lapa dar um rolé, como estará a Lapa, aquela mesma à qual fui tantas vezes e em cujo prato cuspi tantas outras? Como estará tudo? Estou comprando um carro e vamos todos fazer uma viagem, quando eu chegar. Minha volta está prevista para março. Vá marcando suas férias, vá dando seu jeito, comigo agora é assim, depois que virei milico deixei a indecisão de lado, aquela indecisão adolescente de faculdade e resolvo tudo com uma ordem ou duas. E vamos falar com nossos velhos amigos problemáticos: Brenão, Gustavinho, Brunona, Miguel, Queila. Vamos dar um rolé pela Costa Verde pra matar as saudades dos velhos tempos! E a Clarissa vai comigo, que ela tá amarradona em esporte radical e resolveu que quer ser poeta. Você tem que ler as poesias dela! Grande abraço, daqueles calorosos!"
Fechei a carta feliz e imaginei como ia caber aquela gente toda dentro do carro: o Brenão era enorme, como o nome diz; a Brunona só não era mais Brunona porque tinha um Brenão pra superar; e mais o Miguel, a Queila, o Gustavinho. Como seria aquilo? Será que ele comprara um daqueles super carros mega enormes em que cabe uma família italiana inteira? O que estaria aprontando meu grande amigo Edivaldo? O fato é que ele estaria voltando. E que os amigos sempre voltam. Fechei a carta com uma certeza: as distâncias são sempre relativas e voltam a ser tão pequenas como nos velhos tempos. Os amigos voltam, os intervalos acabam, as pessoas vêm e vão. E quando a gente olha pra trás e vê o tempo que passou longe, aquilo não era nada. Na porta dos quarenta anos, Edivaldo estava voltando com a filha atleta e em breve todos nós estaríamos na estrada, rindo como nos anos da faculdade. Quem sabe o Brenão poderia levar sua namorada? Aquela que ele demorou tanto pra encontrar? Disso o Edivaldo não sabia, mas seria a primeira novidade que escreveria no e-mail que mandaria a ele, naquela mesma noite (porque responder por carta também já é demais!).
O fato é que nós crescemos juntos, essa é a verdade. Fizemos a mesma faculdade, nos formamos na mesma profissão, lamentamos juntos os fracassos, as frustrações, as dificuldades do mercado de trabalho, estudamos e lemos livros juntos, colocamos em prática 34% de nossos planos juvenis e sempre que nos escrevíamos falávamos em nossos longos e inumeráveis ps que realizaríamos em breve os outros 66% (entre os quais fundar uma instituição pan-total, um lugar que oferecesse de tudo um pouco, de psicanálise a rituais religiosos de quaisquer credos, de cursos de malabarismo a esportes radicais, de oficinas de fazer amigos a aulas de memorização da história mundial, de práticas sadhus a cursos de como paquerar com sucesso na noite carioca, e por aí vai). Mas depois que ele foi para Roraima, nosso contato foi diminuindo, apesar dos facebooks, skypes e aeroportos da vida.
O engraçado foi o inusitado daquela carta escrita a mão, que o carteiro entregou após chamar no portão. É, o Edivaldo sabia ser inusitado. Ele tinha uma agenda de contatos que deve ter sumido após o casamento, assim como tinha umas bicicletas que quase voavam. Ele sempre tinha uma opinião resmungona também. Mas aquilo de escrever carta era demais.
Reconheci a letra no envelope na hora (afinal, estudáramos juntos tantas vezes que, mesmo ele indo na minha aba na faculdade, ao menos eu o fazia copiar as questões de alguns trabalhos que fazíamos em grupo) e abri rapidamente: o que ele estaria aprontando agora? Fiz as contas mentalmente: a filhinha dele, Clarissa, devia estar com sete anos. Do envelope, caiu uma foto: a menina estava linda. Desdobrei a carta, uma folha de papel com aquela letrinha espremida dele.
"Querida Vilma, estou voltando em breve! E nada melhor do que as notícias escritas com a letra da emoção! Não vejo a hora de voltar, de rever minha família, meus velhos amigos, minha cidade, não vejo a hora de ir à Lapa dar um rolé, como estará a Lapa, aquela mesma à qual fui tantas vezes e em cujo prato cuspi tantas outras? Como estará tudo? Estou comprando um carro e vamos todos fazer uma viagem, quando eu chegar. Minha volta está prevista para março. Vá marcando suas férias, vá dando seu jeito, comigo agora é assim, depois que virei milico deixei a indecisão de lado, aquela indecisão adolescente de faculdade e resolvo tudo com uma ordem ou duas. E vamos falar com nossos velhos amigos problemáticos: Brenão, Gustavinho, Brunona, Miguel, Queila. Vamos dar um rolé pela Costa Verde pra matar as saudades dos velhos tempos! E a Clarissa vai comigo, que ela tá amarradona em esporte radical e resolveu que quer ser poeta. Você tem que ler as poesias dela! Grande abraço, daqueles calorosos!"
Fechei a carta feliz e imaginei como ia caber aquela gente toda dentro do carro: o Brenão era enorme, como o nome diz; a Brunona só não era mais Brunona porque tinha um Brenão pra superar; e mais o Miguel, a Queila, o Gustavinho. Como seria aquilo? Será que ele comprara um daqueles super carros mega enormes em que cabe uma família italiana inteira? O que estaria aprontando meu grande amigo Edivaldo? O fato é que ele estaria voltando. E que os amigos sempre voltam. Fechei a carta com uma certeza: as distâncias são sempre relativas e voltam a ser tão pequenas como nos velhos tempos. Os amigos voltam, os intervalos acabam, as pessoas vêm e vão. E quando a gente olha pra trás e vê o tempo que passou longe, aquilo não era nada. Na porta dos quarenta anos, Edivaldo estava voltando com a filha atleta e em breve todos nós estaríamos na estrada, rindo como nos anos da faculdade. Quem sabe o Brenão poderia levar sua namorada? Aquela que ele demorou tanto pra encontrar? Disso o Edivaldo não sabia, mas seria a primeira novidade que escreveria no e-mail que mandaria a ele, naquela mesma noite (porque responder por carta também já é demais!).
Sentada na Sala
Ela estava sentada na sala no escuro sabendo de tudo silente cansada na sala sentada sentindo saudade no escuro silente da sala que mente que é bela que é doida que é forte na sala sentindo o cheiro de sal na salada sadia do almoço tardio. Na sala, ela, sozinha, silente, no escuro, pensava em ciladas... Com medo de tudo no escuro as sombras com medo do nada de si e do mundo com medo de ter que ouvir que a sala despenca no mundo. Cilada. Na sala. Sentada. Sozinha. Longínqua. A tarde que é longa cansada na sala e ela sozinha sensata no mundo. Sem papo sem tato e afago na sala de cores tão ralas. Lembrando da mala aberta de pó e poeira, na sala vazia. Ela sozinha silente sedenta santinha. Na sala sangrava de tanto sonhar, de tanto calar... no escuro.
(Texto publicado no Jornal Plástico Bolha em 2008 ou 2009 - quando mesmo? - e escrito em 2001.)
(Texto publicado no Jornal Plástico Bolha em 2008 ou 2009 - quando mesmo? - e escrito em 2001.)
domingo, 11 de dezembro de 2011
Aos domingos
Aos domingos, Madá acordava no mínimo às dez e no máximo ao meio-dia. Levantava-se silente, tomava seu café fraco, banhava-se e ia caminhar pelas ruas da Glória. Às vezes passava na feira, comprava alguns legumes, outras vezes ia até o Aterro do Flamengo, observava as famílias felizes, as crianças bem dispostas, o sol iluminando o asfalto, a grama, o horizonte. Voltava pra casa, almoçava se tinha fome, às vezes no restaurante da Andrade Pertence, às vezes em casa. Raramente tinha companhia, mas gostava de observar o movimento típico dos dias de folga da maioria das pessoas. Aos domingos, seu marido Carlo fazia seu plantão na clínica psiquiátrica e estava acostumada, Madá, a passá-los sozinha, uma vez que não era a folga de Carlo.
Muito de vez em quando Madá ia ao cinema com Olga, amiga de colégio, mulher tão dedicada aos filhos e ao marido que era raro ter um domingo livre assim para tomar um café, bater um papo, ir ao cinema (era mais comum conversar com Olga pelo bate-papo da internet). Malgrado não tivesse companhia certa, Madá não se sentia triste aos domingos embora aquela menina, Tábata, que agora a via caminhar solitária no Aterro achasse todo aquele silêncio um indicativo de uma solidão difícil de contornar. Afinal, Tábata estava no Aterro, com seu pai, sua mãe e seus dois irmãos mais velhos, Tadeu e Tiago, num dos variados passeios que seu pai inventava para todo domingo. Tábata estranhava as pessoas sozinhas, que passavam mais do que dez minutos entretidas em alguma atividade silenciosa sem nenhuma companhia, porque, até ali, companhia era o que Tábata mais tinha em sua vida (a começar pelo quarto, que tinha que dividir com Tadeu e Tiago). Aquela mulher que andava calmamente pela grama, chinelos nas mãos, não teria filhos, não teria um namorado, não teria irmãos? Mas Madá não fazia idéia de que aquela menina franzina e de óculos a observava com leve e brevíssima perturbação. Se notasse aquela atenção que a menina lhe dedicava, teria feito alguma diferença? Teria parado para explicar, dizer que não era nada daquilo, contar-lhe, com doçura e paciência, que a felicidade não vem sempre acompanhada (e geralmente vem sozinha)? Teria mostrado a ela outras partes do mundo que talvez Tábata só pudesse compreender (se um dia acontecesse) muito tempo depois? Teria falado a ela de Clarice Lispector, de Guimarães Rosa, de Fernando Pessoa e de que tudo isso e mais muitas outras coisas só se pode desfrutar sozinho (ainda que haja alguém ao seu lado)? No entanto, Madá caminhava, naquele domingo, envolta em felicidade tão tranqüila que não percebia que a olhavam. Não se incomodava de não ter filhos. Não se incomodava de que Olga ou qualquer outro de seus pouquíssimos amigos estivessem envolvidos com suas vidas cotidianas, suas tarefas costumeiras, suas famílias felizes ou não. Aquele era um dia em que Madá tinha todo para si e para seu pensamento. E, por razões diferentes de Tábata, adorava os domingos: eram dias sem horário, sem demarcações, sem exigências, sem semblantes forçados. Por mais duradouros que fossem os domingos, neles era possível caber qualquer coisa, sem que houvesse uma imposição externa, salvo raríssimas exceções. Era o dia em que Madá fazia as suas descobertas sozinha mesmo, do jeito que mais gostava, para depois compartilhá-las ou não com Carlo, com Olga, com o mundo.
Naquele domingo, chegaria em casa, leria alguma coisa, descansaria, navegaria um pouco na internet e tudo bem. Talvez fizesse um brigadeiro. Talvez ligasse para Olga, para saber se tudo bem, como vão as coisas. Talvez escrevesse um e-mail. Talvez abrisse sua caixa de antigas cartas e relesse algumas. Havia alguma possibilidade de que fizesse uma arrumação em seu armário. Ou talvez dormisse cansadíssima. Talvez não fizesse nada e visse Fantástico. E tudo ficaria bem, tudo bem. Porque aos domingos, longos ou curtos, invernais ou outonais, ficava sempre tudo bem.
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