quarta-feira, 1 de maio de 2013
sexta-feira, 19 de abril de 2013
O começo do ano
Vem cá, esse ano já começou começando, não é? Apesar de começar mesmo depois do carnaval (vide o exemplo do Congresso, que só vota o orçamento sabe-se lá quando), apesar de janeiro ser um mês sui generis, esse ano começou começando, com coisas e mais coisas e mais coisas. Porque, de modo geral, eu sempre tenho a impressão de que janeiro começa se espreguiçando, preparando-se pra tomar fôlego, observando o cenário e preparando as armas. Mas esse ano está meio diferente. Não me refiro a fatos ou eventos de repercussão nacional, até porque já tivemos uma tragédia (e estou começando a contabilizar, em minhas teorias sobre os anos pares e ímpares e a regularidade que eu insisto em colocar neles, que todo mês de janeiro tem uma tragédia acontecendo), mas falo das miudezas da vida diária, os eventos humanos de cada um, a vida como ela é no aqui agora das relações humanas. Sei lá, pra mim, ao menos, o ano começou começando, ele não está esperando nada por enquanto não. Já tá de pé. Já tá arranhando. Já mirou o alvo.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
As caixas chegaram
As caixas chegaram. Duas horas embalando livros. Livros, documentos, poucas revistas. Sete caixas. Faltam outras. Ainda tem as louças. Ainda bem que não tem armários e a televisão fica pra trás. Ainda bem que não tem cama, mas tem colchão. A bateria praticável ainda é uma incógnita no meu futuro. Amanhã todos os nossos pertences, meus e de Jow, todos eles, vão sair da Glória, atravessar a Lapa e chegar na Tijuca. Meus tempos gloriosos vão ficando pra trás, mas vêm vindo (torço, torço) meus tempos Valparadisíacos. Deve ser um upgrade (torço, torço). De qualquer modo, adorei o chorinho, adorei a pizza do chico (que já conhecia, mas que ficou a uma ladeira de mim), adorei o samba da feira, cuja aleatoriedade não nos permite acompanhá-lo, adorei o Aterro logo ali, adorei a vizinhança do Gui, adorei poder ir a pé pra Lapa, adorei o Triboz, adorei comer saladinhas e árabes com a Luísa no Gregora, adorei as visitas da Dani, adorei o Taberna, adorei o carnaval a poucos metros, adorei todas as figuras que transitam pela minha rua e mais ainda saber a hora cheia com os sinos da Igreja, que eu não frequento mas que é linda, isso é. Adorei a iluminação verde do Templo Positivista, cujos porões já conheci muito antes. A nostalgia só não me domina mais porque, enfim, tem as caixas. Elas chegaram. Estão à espera. Exigem mãos à obra.
quinta-feira, 21 de março de 2013
Isso é tudo ficção
(Texto escrito para o coletivo Caneta, Lente, Pincel, inspirado em imagem intrigante de Paula Sancier.)
quinta-feira, 14 de março de 2013
A janela sem som
1
Ao passar por
aquelas janelas, no caminho do trabalho, Luzia teve dificuldade de superar a
rua e a visão que uma delas lhe proporcionava. Antes de seguir adiante, voltou
e mirou com mais atenção a estranha cegueira ali refletida. Parecia um olho
furado, que não se deixa ver. Remetia a uma mente oca, que não se deixa pensar.
Uma mente em coma, uma mente incômoda: uma mente mineral. Coçou-se, Luzia, lá
pelo alto do crânio. E como não pudesse divisar mais além um reflexo, uma
explicação, uma pontuação, seguiu seu caminho, retomando a velocidade anterior
mais um doze avos para não perder a hora.
2
Na volta, Luzia
trazia Ramón. A hora era outra, o dia escurecia, as ideias tornavam-se
quebradiças, o cansaço assomava ao corpo de cada um, suores já haviam plastificado
as peles e se escamoteavam entre os pelos. Apontou a ele o olho turvo que uma
das janelas representava. Ele aproximou-se, coçando-se também em sua cabeça,
onde a calvície ganhava terreno, mas, sem resposta, afastou-se novamente,
puxando a namorada e refazendo seu trânsito. Preferia não espiar janelas sem
alma.
3
Às dez e meia da
noite daquele mesmo dia, Luzia tomava seu caldo com Ramón e a mãe. Soprava cada
colherada, antes de sorver seu conteúdo. Seu olhar estava solto, ora se
deixando levar pela fumaça, ora perdendo-se na superfície do espesso líquido
que ela planejava ingerir aos poucos. Luzia pensava na janela, que nada dizia
mas exclamava algum tropeço. Ramón dava cabo de seu caldo mais rapidamente e
sem nada dizer, já sabendo que qualquer palavra que atirasse a Luzia ficaria
boiando entre a colher e o caldo, entre o vapor e a boca, e se estatelaria sem
eco. Luzia parecia mais turva do que em qualquer outra noite. Oca e mineral,
cega e impensável.
4
No dia seguinte,
Luzia reparou na janela novamente, seu percurso não mudava e a janela invadia
sua distração. Eram três janelas (ela recontou, didática), mas a terceira
continuava sendo um ponto cego. Um horror que espelha o avesso dos outros. O
avesso de Luzia (o qual ela nunca, nunca, encarava) estava ali, estampado
naquela opacidade que a assustava e que a perseguia. Luzia voltou para casa,
avessa e sem sons.
5
Agora todo dia
Luzia reparava nas janelas, a terceira sem voz, e suas convicções (as de Luzia)
foram se tornando cada vez mais arraigadas. Ela já não era capaz de entender o
mundo de outro jeito que não fosse através delas. E o mundo (em seu entender)
estava esmorecendo. E todo esmorecimento tem um começo. E o começo era aquela
janela, que vinha cobrindo de musgo um lado oculto de Luzia.
6
Ela sabia. Não
havia escolha: Luzia terminou o namoro, Ramón não tomou mais sopas, Luzia
escondeu-se de todos. Se era para acabar com tudo e se os sinais estavam se
espalhando (primeiro na janela, depois no musgo que ocupou o lugar da linfa de
Luzia), que então ela se adiantasse: primeiro deixou de sair de casa, depois
deixou de se levantar da cama, em seguida passou a recusar alimentos. Em
semanas, o psiquiatra recomendou eletrochoque, e quando Luzia recobrou parte de
sua sanidade, voltando a sair de casa, percebeu com nitidez que a janela
continuava a espiá-la.
(Texto escrito para o Caneta, Lente, Pincel, inspirado em fotografia de Danielle Schlossarek)
quinta-feira, 7 de março de 2013
Verme!
Um rápido movimento. Ele chega a encostar a massa disforme, peluda, sarcástica, aquele trocinho que ele não sabe definir, sujeito ou objeto?, mas que está ali a provocá-lo sutilmente, daquele jeito que irrita, que não para, não descansa. O bicho cinzento que resolvera acabar com a sua paz fica por vezes parado, espreitando-o como se não tivesse pulmões, observando-o com olhos ubíquos, mas também se aproxima, recua, toca nele, retorna à posição inicial, saltita, talvez até gargalhe, uma gargalhada miúda e íntima que ninguém mais escuta, mas que ele vê bem, e então novamente um movimento ligeiro e ele chega a perceber que sua unha encosta velozmente no sujeitinho indeterminado que recua sem piscar, recua após cada ataque, e depois volta, foge, pula, volta, pula mais, outro lance, nova aproximação, agora o sujeito indefinido pula em cima dele, caminha em seu corpo como se seu corpo fosse um trajeto pronto, mas ele não vai permitir, vira-se e rodopia no ar, uma pirueta que espanta os que observam, mas não há ninguém observando além do Marcos, no sofá, com um sorriso tão sarcástico quanto o da pequena pulga – se pulga é – que o exaspera (mas não a Marcos), e ele agora está em posição de ataque, num relance pega o bicho, os dois rolam se contorcendo, aquele sujeitinho mínimo vai morrer porque ele vai matá-lo facilmente, eles caem e viram e rodam e seguem juntos para debaixo de alguma coisa que não se pode mais identificar o que é porque ele está pronto para trucidar com ele, porque tem ódio, porque tem ganas de acabar com tudo, mas o bicho também é bom em se livrar de armadilhas, e num pulo que ninguém saberia explicar com argumentos racionais ele já está livre, já está longe, está no alto da mesa olhando-o firme, rente, risonho, aquela sua risadinha interna que poucos são capazes de perceber, e então o monstrinho insuportável some e Félix olha para Marcos, que larga uma vareta com algo pendurado que ele não sabe o que é, se abaixa e o aperta, ‘Agora acabou a brincadeira, Félix, vamos aparar essas suas garras que daqui a pouco não temos mais sofá!’, e o deixa sozinho, sem entender nada, procurando o misto de rato e verme, muitíssimo mais verme do que rato, sem saber onde, e tendo que dar conta (sozinho! sozinho!) de toda a sua raiva e agitação.
(Texto para o Caneta Lente e Pincel, inspirado em composição musical de Gilson Beck.)
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Não era eu
Não era eu. Não era eu ali, roendo as unhas que deixei crescer por um ano, arranhando a casca por cima da ferida pulsátil. Não era eu ali, esperando que as horas passassem como quem observa os vagões do metrô correndo em alta velocidade, não era eu ali, constrangida comigo mesma, confrangida por não ter escolha, contraída por conta de um medo sem tamanho e sem motivo. Não era eu ali, não era mesmo eu ali, não eu, era outra, outra quem?, mas eu não, não era eu ali enrolando no dedo indicador uma mecha de cabelo pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, e tampouco era eu que balançava a perna direita, pra cima e pra baixo, veloz, voraz de chão, também como quem tem pressa em esmagar mil estalinhos que só explodem um de cada vez, ou até como quem mói as migalhas de pegadas alheias. Não era eu ali em toda aquela insanidade e em toda aquela ansiedade que poderiam ser medidas a metro, pesadas a kilo, pintadas com tinta acrílica, de tão densas, de tão vívidas. Não era eu ali ponderando onde a tela - o retrato da ansiedade, o sumo da insanidade - seria afixada, talvez no quarto, talvez na sala, apesar de o forte da ansiedade não ser a estética. Não era eu ali nervosa, acumulando saliva na boca, e não era (não podia ser!) eu ali pensando naquelas formas todas e inteiras de recriar o quebra-cabeça que havia se tornado a minha vida naquele mês de janeiro. Não era eu ali que fazia os cálculos do que daria no futuro as consequências das palavras que não pronunciei, as imagens impolutas que risquei, as ideias que apartei de mim. Não, definitivamente, não era eu, era outra, era a antítese de mim mesma, e se fosse alguma coisa que valesse a pena definir, só podia então ser aquela que viria antes do definitivo eu, cujas fronteiras ainda estavam por ser traçadas. Mas não era eu ali e não era eu ainda.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
Linhagem
Antuérpia, que odiava seu nome, acordou de saco cheio. Arrastou-se o dia inteiro em cima de um sono sem origem. Bebeu café, antes das três horas, e se sentiu emergindo da bancarrota. Chegou a comentar com sua mãe, Petra, que também não suportava seu nome:
Esse café me salvou da bancarrota.
Petra não entendeu o comentário da filha, mas acreditou que o café que tinha feito estava a gosto. Pensou em perguntar, Antuérpia, minha filha, você sabe o que é bancarrota? Até formular a pergunta, demorou-se na indecisão.
É falência, não é, mãe? Sinto-me falida, vivendo uma espécie de bancarrota existencial ou espiritual, não sei bem.
Petra entendeu bem. A filha completou dizendo que era algo do dia, aquele dia, nublado, feriado, mortos, chuva, biorritmo, constelação astral, não sabia bem os porquês. O fato é que o café a revigorara. Uma leve pressão sobre a cabeça - que até poderia se transformar numa enxaqueca mais tarde - sumiu após o benfazejo líquido escuro.
Depois foram se sentar ao lado da vovó Lupicínia, que também provara do café, que também se sentia emergindo de uma exaustão sem causa e via televisão sem meta e destino. As três, na sala, sentiam-se bem, às cinco e meia da tarde.
Vovó Lupicínia nada dizia em geral, mas também não tolerava o próprio nome.
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